quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

As Origens do Pensamento Grego


Jean-Pierre Vernant, ao escrever o livro “As Origens do Pensamento Grego”, procura resgatar um aspecto social que muita falta tem feito no mundo atual: “O Humanismo”. É digno de nota que entre o pensamento grego havia valores que determinavam o que é cultura. Hoje, a ausência desses valores e do humanismo tem gerado uma “sociedade tecnocrata”. Neste procurarei através do pensamento de Vernant, entender o pensamento grego, suas origens e como esse pensamento pôde influenciar de modo positivo uma sociedade.


Entre os séculos VII e VIII surge a polis grega, ou as cidades-estado. Essa foi uma invenção que teve um aspecto social inteiramente novo entre os gregos.

Um primeiro aspecto de influência da polis se dava ao fato de haver uma superioridade da palavra sobre outros instrumentos do poder. Os gregos transformaram o uso da palavra em uma verdadeira divindade. Raciocinam que esse poder das palavras já é sentido nos rituais religiosos e nos decretos reais. Agora desejam levar essa importância da palavra ao povo em comum, que poderá através da exposição de discursos, atuarem como juízes assegurando a um dos lados a vitória.

Em segundo lugar a polis apresenta a oportunidade de um domínio público, em oposição a processos secretos. Isso se faz por haver discussões em pleno dia, onde todos podem avaliar o conjunto das condutas, dos processos, dos conhecimentos. Os gregos adotaram um sistema totalmente democrático, dando acesso a todos ao plano intelectual. Portanto, quem se impunha pela força, agora deverá fazer uso da dialética para que seja aprovado.

Entre os gregos a vida política era marcada pela palavra falada e agora a palavra escrita passa a marcar a vida intelectual. Através da palavra escrita se faz a redação das leis. O que é garantia de permanência e acessibilidade de todos. De modo que “dizer” o direito se torna o bem comum, a regra geral. É claro que em certos aspectos o caráter divino das leis ainda permanece, mas agora um divino modificável e mais perto das pessoas.

Até mesmo no aspecto religioso o pensamento grego, conforme gerido pela polis, tem a ampla influência. Anteriormente os sacerdotes tinham como propriedade particular a proteção divina, tinham como que um “parentesco especial com esse poder divino”. A polis confisca esse relacionamento particular, pessoal, com o poder divino, e o transforma em acesso público em benefício da população comum. Objetos que eram sacros e eram mantidos em secreto se tornaram imagens que servem para serem vistos e para darem um espetáculo de “ensinamento sobre os deuses”.

Com o surgimento da polis e a mudança do pensamento grego, a sociedade se vê sempre confrontada com dois caminhos a seguir sempre. Havendo assim uma divisão de opiniões e esta não será recusada devido ao fato de ser uma promoção dos gregos. Por exemplo, com o surgimento da filosofia a duas posições a adotar, ou se aceita os mistérios ou se aceita que o mundo seja aberto em todos os aspectos. Os filósofos vivem em conflitos, em uma hora se imaginam iluminados, como todas as respostas e em outra ocasião se retiram do mundo, fechando em si.

Então o pensamento grego trouxe o “prestígio para a palavra”, bem como o desenvolvimento das práticas públicas, e em outro aspecto trouxe também a “semelhança” do povo grego. Embora cada um tenha sua origem, sua função, sua classe, parece que de certa maneira há uma “semelhança” de uns e outros. Esta semelhança produz a unidade da polis.

Com o desenvolvimento democrático da polis grega, há uma rejeição da aristocracia, pois esta reforça o individualismo e assim causa desigualdades sociais, o que seria prejudicial à unidade. Desta forma, este pensamento grego dá o devido valor ao humanismo o que garante no mínimo uma boa convivência entre semelhantes.

A Cidadania entre os Romanos




 “ROMA”... Esse nome com certeza evoca a idéia de um império poderoso e duradouro. Não só o poderio militar de Roma era imponente, mas também sua política e sua cultura. Como era tratado o ser individual neste império? O texto de Pedro Paulo Funari nos apresenta o mundo romano que criou sistemas, filosofias e idéias que até hoje são perseguidos.


Funari mostra logo no começo do seu texto que devido à diversidade de povos existentes em Roma, uma característica desta cidade era a liberdade que se tinha ao seguir sua cultura pessoal, seus costumes religiosos e de ter direitos básicos a cidadania. Diferente dos gregos, que tinham a polis em primeiro lugar e só depois vinha o cidadão, para os romanos era o conjunto que formava a coletividade.

As instituições e formas de governos romanos originais foram estabelecidas pelos etruscos, que eram os principais invasores. Neste sistema havia uma divisão de grupos: a nobreza e o restante da população. Da mesma forma duas divisões existiam entre os romanos: os patrícios e os plebeus. Também se pode destacar o papel feminino na sociedade. Havia uma grande participação das mulheres na elite romana, o que era surpreendente, pois no mediterrâneo as mulheres tinham pouco ou nenhum destaque.

Durante a república romana, especialmente nos séculos IV e V, houve uma grande luta interna entre duas classes existentes em Roma, que eram os patrícios e os plebeus. Os patrícios eram os proprietários rurais, que formaram uma oligarquia. Eram eles que ocupavam os cargos públicos e religiosos, detinham também um grande poder militar. Esses patrícios eram os únicos cidadãos de pleno direito. Os plebeus abrangiam o restante da população, a massa de pessoas que não possuíam propriedades rurais. Esse grupo da plebe era composto por camponeses livres, artesãos urbanos e os comerciantes. O que incluía também descendentes de estrangeiros residentes em Roma.

Somados aos patrícios e aos plebeus existia mais duas classes que eram os clientes e os escravos. Os clientes eram agregados a serviço dos “homens bons”, os patrícios. Eles mantinham uma relação de fidelidade ao patrono a quem deviam serviços e apoios e de quem recebiam terra e proteção. Entre estes havia uma mobilidade social, podiam ganhar a liberdade e integrarem a plebe como também poderiam perder a liberdade e retornarem a condição de clientes. Os escravos por sua vez eram domésticos e faziam parte da propriedade dos patriarcas. Não havia, portanto, entre eles essa mesma mobilidade que existia entre os clientes.

A sociedade romana passa por grandes transformações a partir do momento que uma parte da plebe urbana consegue acumular riqueza, no entanto, continuam sem ter igualdade de direitos em relação aos patrícios. Assim, os plebeus urbanos buscavam os direitos de cidadão, queriam votar, ocupar cargos públicos, ter direitos políticos e sociais. Ao mesmo tempo os plebeus rurais iniciavam um movimento pelo fim da escravidão por dívida e queriam parte nas terras conquistadas de outros povos.

Com a expansão romana, havia a necessidade cada vez maior de contingente humano, para completar as fileiras militares. Desta forma, os plebeus tinham um poder maior de barganha, ou seja, lutavam no exército em troca de terem direitos políticos, sociais e acesso a terra. A união entre a plebe urbana e a plebe rural fortaleceu o movimento e provocou grandes mudanças na sociedade romana. No século III a.C, as camadas plebéias superiores passaram até mesmo a integrar a elite aristocrática.

Foi durante o século III a.C. que Roma passou por uma grande expansão territorial. Primeiro houve a expansão pela Itália antiga e logo a seguir a segunda guerra Púnica. Essa expansão militar trouxe benefícios e conseqüências para a sociedade romana. Em primeiro lugar aumentou-se grandemente o numero de escravos que eram os prisioneiros de guerras e também aumentou o numero de terras a serem distribuídas entre os patrícios e os plebeus. Mas, como conseqüência pode-se citar o esmagamento da pequena agricultura. Desta forma, a expansão propiciava a riqueza a alguns e levava outros milhares à pobreza, em especial os que tinham pequenas propriedades. Neste cenário não demorou muito para que novas lutas pelos direitos civis fossem desencadeadas.

Entre expansão militar, luta interna pelos direitos, mobilidade social, conquista de direitos e perda da liberdade, foi se formando uma sociedade que apresenta um aspecto público diversificado. Para os romanos a cidadania esta ligada a participação de todos nos assuntos que o império romano. Por exemplo, surge no cenário romano o conceito de opinião (opinio). Assim, os cidadãos romanos podiam concordar ou discordar de algo, tornando assim notória a participação de todos nos assuntos romanos, ou pelo menos estes tinham essa sensação de participação.

Havia também entre os romanos o conceito de “humanidade”, que tinha conotações que ultrapassava a “urbanidade”. As arenas eram um marco para separar os “civilizados”, que freqüentavam espetáculos, dos bárbaros. É claro que nem todos tinham o mesmo conceito a respeito destes espetáculos, mas de qualquer forma eram os cidadãos romanos que dava a palavra final sobre o assunto.

Roma, além de poder militar, legou ao mundo uma cultura ainda hoje admirada e em alguns aspectos ainda seguida em alguns lugares. Roma foi pioneira em dar valor ao individuo como cidadão e inovou ao estabelecer um governo com participação popular.

sábado, 25 de dezembro de 2010

UM "RIO CHAMADO ATLÂNTICO".


Alberto da Costa e Silva, no seu livro “Um Rio Chamado Atlântico”, apresenta uma visão excepcional sobre a relação Brasil/África. Do lado da “outra margem do Rio Atlântico”, seja do lado ocidental ou do lado oriental, semelhanças entre brasileiros e inúmeros povos africanos são bem visíveis.
            Com base no texto de Costa e Silva e alçado nas discussões e debates em sala de aula, procurarei encontrar elementos culturais que ligaram o Brasil e a África.
            O autor nos mostra que o Brasil teve uma contribuição cultural nada desprezível com elementos que contribuíram para a união Brasil/África. Essa contribuição brasileira não se deram só pelo volume e categoria dos escravos que retornaram ao continente de origem, mas também em como o tráfico desempenhou um papel importantíssimo nas ligações orgânicas entre as duas margens do “Rio Atlântico”.
            Houveram trocas culturais nas duas direções. A África recebeu e africanizou a rede, o milho e a mandioca. O Brasil por outro lado, utilizou o Dendê, a Malagueta e a Panaria da Costa. Reis e nobres, que chegaram ao Brasil na condição de escravos, buscaram, algumas vezes, reconstruir o pouco que podiam das estruturas políticas, religiosas e culturais da terra de onde haviam partido.
            Quando houve uma redução na mineração de diamante e ouro no Brasil, e consequentemente uma redução no numero de europeus que pra cá vinham com o objetivo de extração mineral, houve um aumento nas ligações Brasil/África.
            Com um vasto território para povoar, o Brasil passa a ver na África o seu principal provedor de material humano. Os africanos mesmo oprimidos, humilhados e reduzidos na sua humanidade, pela escravidão, tem um papel fundamental na ocupação do território brasileiro.
            Alberto da Costa e Silva nos apresenta uma visão de cultura como sendo elementos presentes na comida, na religião, na arte e até mesmo na linguagem. Estes são responsáveis por aproximarem os dois continentes e mereceu a menção ou comparação a um “Rio, o Atlântico”.
            No ano de 1835, ocorreu à guerra do malês, na Bahia, o que ocasionou o degredo de muitos ex-escravos ao continente africano. Entre os que retornaram estavam: negros nascidos no Brasil, mulatos, mamelucos, cafuzos, negros nascidos na África e levados como escravos ao Brasil e dele expulsos ou alforriados. Assim, muitos regressaram por vontade própria, outros movidos por outras forças fizeram o trajeto inverso, rumo ao continente africano.
            Ao retornarem, alguns se fixaram em terras distantes das de origem. Mas, mesmo os que retornaram para sua terra natal, encontraram ali uma cerrada estrutura cultural, com costumes e tradições a que não se sentiam mais vinculados. Portanto, procuraram se associar com os seus iguais, que também tinham sido abrasileirados no cativeiro e formaram assim comunidades próprias.
            Desde o começo, essas comunidades chamaram a si de “brasileiros”, e assim são conhecidos até hoje. Este fato foi notado pelos colonizadores e houve por parte do ingleses uma tentativa de desvincular a África do Brasil, mas sem sucesso. Até mesmo nas correspondências oficiais com os colonizadores, os abrasileirados, referiam a si como brasileiros e assim também o fizeram seus filhos e seus netos.
            Formaram-se bairros próprios de brasileiros como o “Brazilian Quartier”, o “Quartier Brésil” e o “Quartier Marô”, em Ajudá. Em Acra, a comunidade conhecida como povo “Tá Bom” tinha um bairro próprio. Esses bairros existem até hoje em regiões como Benin, Togo, Nigéria e Gana. Alguns dos “Brasileiros” destas regiões tiveram até mesmo participação de destaque na política, na cultura e na arte.
            Na ordem inversa, os Iorubás, e os Jejes difundiram fortemente sua cultura na Bahia. Os Congos e os angolanos tiveram grande influência em todo o território brasileiro.
            Alberto da Costa e Silva cita Gilberto Freyre que diz que os africanos ficaram “abaianados, acariocados e pernambucanizados”. Nas suas danças e folguedos na África era comum o uso do bumba-meu-boi e também as mascaradas carnavalescas. Na comida utilizam o feijão de leite de coco, a cocada, o pirão, a muqueca de peixe e o cozido.
            Na religião, divulgaram o culto a nosso senhor do Bonfim e a são Cosme e Damião. Na arquitetura impuseram os sobrados neoclássicos com seu estilo barroco. Influenciaram o estilo das estátuas em cemitérios e nas figuras de animais em louça e gesso.
            Uma forte influência cultural ocorreu especialmente nos muçulmanos brasileiros. Estes estavam mais para católicos no seu comportamento do que para maometanos. Em alguns lugares, como em Porto Novo, eram chamados de “muçulmanos Crioulos”, para os diferenciarem. Muitos deles se casaram com moças católicas, estabelecendo assim uma ponte entre o cristianismo e o Islame. Alguns de seus famosos templos como a mesquita Shitta e a mesquita Central, em Lagos, foram feitas em estilo brasileiro.
            Estas trocas culturais promoveram uma união entre o Brasil e a África, transformando o “Atlântico em um Rio”, fácil de ser cruzado. Embora larguíssimo, as “duas margens do Rio Atlântico” estavam unidas, e se confundiam no seu jeito e na sua maneira de ser.
            O Brasil se tornou extraordinariamente africanizado. A África está presente nos gestos, na maneira de ser e de viver e no sentimento estético brasileiro. Do outro lado do Atlântico é fácil ver os brasileirismos, como diz Costa e Silva. Há comidas africanas no Brasil, assim como há comidas brasileiras na África. As danças, as tradições, as técnicas de trabalho, os instrumentos musicais, as palavras, o comportamento social brasileiro, estão todos bem visíveis no dia-a-dia da África. Os escravos ficaram dentro de todos nós, seja qual for a nossa origem, Aproximando até hoje as “duas margens do Rio Atlântico”.

domingo, 19 de dezembro de 2010

O MUNDO BIZANTINO

"Bizâncio", este nome com certeza inspira, nos estudiosos, uma verdadeira admiração, pois através de uma cidade, um império ficou fortemente estabelecido. O objetivo deste texto é falar um pouco  sobre o império que até os dias de hoje tem sua influência. Alguns chegam ao ponto de dizerem que o império diversificou mas que nunca chegou ao seu fim completo. o fato é que na época este era o centro do universo. Vejamos, então, um pouco deste universo de poder e glória.

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        Bizâncio era uma antiga cidade estado, uma polis, situada às margens do Bósforo. Sua importância era pequena no cenário político da época. Porém, quando Constantino (306-37), escolheu esta cidade para se tornar a nova capital do Império, ela passou de uma cidade sem expressão para o “centro do universo”. Constantino rebatizou a cidade com o nome de “Constantinopla”, em homenagem a ele próprio. Tudo indica que sua escolha se deu devido ao ponto estratégico da cidade, que facilitava a vigilância nas regiões do Danúbio e do Eufrates.
            Houve empenhos para que esta cidade se tornasse o ponto de unidade do império romano. Justiniano I (527-65) fez esforços concentrados com esse objetivo e tentou estabelecer ali em Bizâncio uma nova Roma. Contudo, o que se podia ver era o surgimento de uma nova entidade e embora chamassem o império de império romano e a si de romanos, as diferenças eram bem nítidas, especialmente no que tange a capital do império.
            Os imperadores romanos procuravam dar a cidade de Constantinopla o Status patriarcal. Eles adotaram a “filosofia Judeu-romana de povo eleito”, os “novos israelitas”, e a cidade de Constantinopla seria a “Nova Jerusalém”. Com seu passado romano-judeo-grego, Bizâncio se torna imperial, cristã e metropolitana.
            Durante o governo de Teodósio I (379-95) a cidade alcançou o Status patriarcal que buscava. Este período foi marcado por um grande crescimento. Constantinopla, embora nunca possa ser comparada com Roma, ninguém pode negar que na época ela se tornou o “centro de gravidade do império”, transferindo assim as atenções do ocidente para o oriente. O fato é que a parte ocidental ficou fraca e a mercê dos inimigos. No começo os imperadores bizantinos cumpriam com a sua obrigação para com o ocidente enviando ajuda militar, que culminou na grande expedição de Leão I, ao norte da África para tentar livrá-los dos Vândalos.
            A estrutura da cidade era em torno de uma praça, onde ficava o “Foro de Teodósio”. Era também uma cidade composta de bairros. Normalmente estes bairros cresciam em volta de casas de pessoas influentes, onde se buscava uma proteção para si e sua família, por estarem ali próximos destas pessoas influentes. Tudo indica que se criou uma espécie de “clientelismo”, onde o povo comum esperava obter proteção e em troca ofereciam seus préstimos aos nobres e de destaque.
            Criou-se também um sistema monástico urbano na cidade de Constantinopla. Os monges urbanos adotaram uma filosofia que os tornava diferentes dos monges do deserto. Eles não queriam se isolar, mas procuravam a vida em comunidade e para serem aceitos, utilizaram a caridade. Os monges urbanos sempre tiveram grande influência no império, tinham poder para se oporem aos imperadores ou aos patriarcas.
            Roma seguia a tradição helenística, que atribuía poder divino ao imperador. Agora com a conversão ao cristianismo houve a necessidade de fazerem uma adaptação. Constantino, por exemplo, tomou ação para deixar clara sua posição, ele se dizia “igual aos apóstolos” e “amigo de Jesus”. Tinha porém, pretensões nada modestas de construir o seu mausoléu na “igreja dos santos apóstolos”, cercado de relíquias dos santos.
            Justiniano I realizou muito pelo império bizantino ao codificar as leis romanas, que foram terminadas em 533. Embora ele diga que a lei codificada por ele seja uma volta a lei romana clássica, houve sim, uma repaginação das leis.
            A unidade no Mediterrâneo foi com certeza a pretensão de Justiniano, e ele muito fez para isso. Contudo, a os que dizem que durante o seu império, houve elementos que deram inicio a crise que desestabilizou o império bizantino. Após a morte de Justiniano, em 536, a região do Danúbio ficou desprotegida, o que facilitou a entrada dos Avaros que conseguiram preencher o território deixado vago pela confederação dos Hunos, cerca de um século antes.
            O que podemos notar na trajetória da cidade de Bizâncio é primeiro uma cidade sem expressão, mas que se tornou o centro do universo e marcou um período de transição da era antiga para a medieval, desempenhando um papel fundamental para a sobrevivência de um poderoso império, o romano.


segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Nos Braços da Morte: A Peste Negra no Limiar da Idade Média. baseado no Artigo da Profª Renata Cristina de Sousa Nascimento.

Este Texto esta baseado no Artigo “Nos Braços da Morte: A Peste Negra no Limiar da Idade Média”, da Profª. Drª. Renata Cristina de Sousa Nascimento, publicado no livro “História Medieval II: a baixa idade média”, organizado por José Carlos Gimenez, nas paginas 99 a 111.



           
“No ano do Senhor, 1348, aconteceu sobre quase toda a superfície do globo uma mortandade que raramente se tinha conhecido semelhante. Os vivos, de fato, não conseguiram enterrar os mortos, ou os evitavam com horror. Um terror tão grande tinha se apoderado de quase todo mundo, de tal maneira que no momento que aparecia em alguém uma úlcera ou um inchaço, geralmente embaixo da virilha ou da axila, a vítima ficava privada de toda assistência, e mesmo abandonada por seus parentes. O pai deixava o filho em seu leito, e o filho fazia o mesmo com o pai. Não é surpreendente, pois, que quando numa casa alguém tinha sido tocado por este mal e tinha morrido, acontecesse muito frequentemente, todos os outros moradores terem sido contaminados e mortos da mesma maneira súbita; e ainda mais, coisa horrorosa de ouvir, os cachorros, os gatos, os galos, as galinhas e todos os outros animais domésticos tiveram o mesmo destino. Aqueles que estavam sãos fugiram apavorados de medo. E assim, muitos morreram por descuido, os quais talvez tivessem escapado de outro modo. Muitos ainda, que pegaram esta doença e dos quais se acreditava que morreriam com certeza imediatamente sobre o chão foram transportados, sem a mínima discrição até a fossa de inumação. E assim, um grande número foi enterrado vivo. E a este mal se acrescentou outro: corria boato de que certos criminosos, particularmente judeus, jogavam venenos nos rios e nas fontes, o que fazia aumentar tanto a peste acima mencionada. È a razão pela qual tanto cristãos como judeus inocentes e pessoas irrepreensíveis, foram queimadas e assassinadas e outras vezes maltratadas em suas pessoas, mesmo que tudo isso procedesse da constelação ou da vingança divina. E esta peste se prolongou além do ano anteriormente dito, durante dois anos seguidos, espalhando-se pelas regiões onde primeiramente, não tinha acontecido. (Vitae Paparum Avenionensium Clementis VI, apud PEDRERO-SANCHEZ, 2000, p. 194-195).

            As palavras deste documento traduzem com realismo a situação de calamidade que ocorreu nos séculos XIV e XV. Profundas crises estavam ligadas a guerra dos Cem anos, ao Cisma do Ocidente e especialmente a Peste Negra.
            Os efeitos desta doença foram devastadores, provocando em torno de 80% da morte dos infectados. A disseminação era rápida e eficaz, afetando toda uma família e até os seus animais domésticos. Logo a doença se espalhou por todo o continente europeu. Alguns historiadores falam sobre perdas humanas no total de 2/3 ou 9/10 da população da época.
            A crise gerada pela grande peste foi sentida em todos os segmentos da sociedade. Por exemplo, por causa da peste negra, ocorreu uma intensa migração. Primeiro a população rural achava que deveria ir para as cidades onde poderia contar com mais recursos para a sobrevivência. A população das pequenas cidades migrava para as grandes cidades por não contarem com recursos suficientes ali, nas cidades onde viviam. O fato, é que as migrações não trouxeram alívio a população. ao contrário, o acumulo de pessoas provocou uma rápida disseminação da doença, e o seu transporte era feito através, justamente destas movimentações.
            Outra mudança que ocorreu na sociedade nos séculos XIV e XV, foi no estilo de vida. Alguns pensavam que deveriam levar uma vida bem regrada, moderada, e que somente assim poderiam se proteger contra tal doença, que muitos acreditavam ser uma espécie de castigo divino. Já outros, adotaram um comportamento totalmente contrário, pois, achavam que a doença de uma forma ou de outra os atingiria. Então nada mais restava a eles a não ser aproveitar todos os momentos, rindo, se divertindo, gozando dos oportunidades que ainda lhes restava. Gastava-se o tempo a procura de se obter satisfação pessoal.
            Em meio a uma sociedade religiosa, cercada de superstições, era de se esperar que houvesse também uma busca de culpados pela crise que se instalou. Primeiro, os judeus foram acusados de trazerem esse castigo divino para a sociedade. Eram suspeitos de criminosamente envenenarem as fontes e poços de água, o que contribuíra para expansão da peste. Houve por conta destes boatos, perseguições, massacres nos guetos, e em certas regiões foram até mesmo queimados em praça pública.  Também os vagabundos, os leprosos, os pobres, foram acusados de serem a causa primária da doença. Por isso a onda de violência aumentou vertiginosamente.
            A doença encontrou nas comunidades pobres receptividade, devido ao fato de esta parte da população não ter recursos para uma boa alimentação, não dispor de condições adequadas de higiene, e não poder pagar pelos serviços médicos da época.
            Neste cenário de caos, pessoas inescrupulosas se aproveitaram para buscarem o seu próprio benefício. Com isso, houve um acentuamento das condições sociais, os ricos que eram minoria, se tornaram ainda mais ricos e os pobres tiveram sua condição ainda mais rebaixada. As mudanças básicas foram: êxodo rural, aforamento de terras e subida geral de preços.
            Por causa do êxodo rural, começou a faltar alimentos nas cidades, pois não havia quem os cultivasse. O governo adotou leis que visava sanar este problema. Eram leis que obrigavam o cultivo das terras e não permitia que famílias de agricultores mudassem de profissão. Bem como, estabelecia a obrigatoriedade dos trabalhos dos agricultores em outras propriedades, quando solicitados a isso.
            Houve a criação das Sesmarias, com a intenção de obliterar o processo de transformação citadina que ocorria em detrimento da zona rural. Era uma tentativa de inversão do êxodo rural.
            A professora Renata Cristina de S. Nascimento, de forma interessante, aborda esta temática da peste negra, mostrando os efeitos que esta epidemia tivera sobre a sociedade imediata e nos possibilitou uma reflexão sobre os efeitos desta em longo prazo.
            Excepcional e quase poética, foi à citação que ela fez neste ponto, de Le Goff:

“A doença pertence não só à história superficial dos progressos científicos e tecnológicos como também a história profunda dos saberes e das práticas ligadas às estruturas sociais, às representações, às mentalidades.” (LE GOFF, 1990. P.7)
           
            A professora Nascimento, cita Bastos, ao dizer que “mais do que um fator biológico, a doença é um elemento de cultura. Ela, a doença, é o que dela se diz ao longo do milenar contato do homem com os agentes patogênicos”.
            Embora seja uma epidemia, e tenha resultado na perda de milhares de vidas. A peste negra, levou uma sociedade a buscar uma visão diferente de mundo, a encontrar alternativas para a sobrevivência e forçou uma busca de novas tecnologias, especialmente entre o saber médico e popular. Levou também a busca de se entender as complexas relações entre cidade e epidemia.


Referências
NASCIMENTO, RENATA CRISTINA DE SOUSA. História Medieval II: a baixa idade média. Nos Braços da Morte: a Peste Negra no Limiar da Idade Média. Eduem - Editora da Universidade Estadual de Maringá, Paraná, 2010. José Carlos Gimenez, Organizador. Paginas 99 a 111.


Silvon Alves Guimarães
“Acadêmico do curso de História da Universidade Federal de Goiás, Campus Jataí”.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O HOMEM BIZANTINO.


Esta dissertação tem como base o livro “O Homem Bizantino”, de R. Browning, e associados. Nas paginas 21 a 41. Onde abrangeremos a temática: “Os pobres e a pobreza no Império Bizantino”.
            Em Bizâncio, a sociedade possuía características distintivas que tornaram o homem bizantino diferente. Aspectos como herança do passado e também a tipologia cultural deste povo, foram responsáveis pela formação de uma camada social com várias classificações. Nesta dissertação, porém, daremos atenção à questão da pobreza, seu surgimento, sua permanência, e como se procurou anemizar esse problema social da época, bem como consideraremos como essa camada da sociedade bizantina teve uma participação significativa na desestabilização do império.
            Entre os séculos IV e VI, na nova Roma do Bósforo, Constantinopla, os pobres e a pobreza encontraram espaço apropriado para sua instalação e rápida reprodução. Quando analisamos esta sociedade sob esse olhar o que se observará é uma visão radical e violenta de um quadro social onde se destaca: Os necessitados que se abrigam sob os pórticos, recém-nascidos abandonados na rua, camponeses empurrados para a cidade por circunstâncias várias, famintos em busca de alimento, serventes à procura de trabalho à jornada, mendigos inválidos ou não.
            Para definir a situação do pobre (em latim pauper), dois termos são utilizados: penês, que são pessoas que tem uma atividade, mas, os esforços destes não são suficientes para garantir-lhes um sustento satisfatório e seguro. Um segundo termo era Ptôchos que eram reduzidos a um estado de prostração passiva, que torna essas pessoas inteiramente dependentes dos outros. E um termo acessório era deomenos, ou necessitado, assim se pode ter uma definição da pobreza como estado de falta, de carência.
            A situação envolvendo os pobres era tão preocupante que a partir do século III, uma discriminação no estado começou a vigorar, e determinava que o pobre, aquele que tivesse menos de cinquenta moedas de ouro (aurei), não poderia testemunhar. Neste momento, o excesso do rico deve então se transformar em magnanimidade para ele, por meio de uma dádiva concedida no âmbito da cidade e a seu favor. Portanto, essa concepção de pobreza não coloca o rico à frente do pobre, assim como acontecerá no século IV, na pregação cristã.
            A partir da pregação cristã a concepção de pobreza passa a tomar outra definição e começa a haver uma vantagem do rico sobre o pobre. O rico tem de resolver o “problema” da riqueza fazendo caridade. Mas, essa caridade não tem agora, nada a haver com os valores comuns da cidade, mas sim era uma homenagem prestada aos pobres que esperam essa caridade em troca da qual oferecerão sua intercessão.
            Textos bíblicos como Salmo 112 (113), 7 que diz: “Ergue o fraco da poeira...>>, que se exibe no cimo das portas dos edifícios de caridade!” era pregado como uma interseção divina para a recompensa dos pobres e uma punição para os ricos, que porventura deixassem de fazer caridade. Seria como se houvesse uma mudança de situação. O pobre que sofria, seria livrado do sofrimento e o rico que vivia em mordomia seria punido com o sofrimento, devido ao pecado de ser rico.
            Neste momento, surge a caridade compulsória, que era uma característica predominante nesta sociedade em evolução. Neste ponto achamos interessante dar uma visão amplificada sobre essa ação compulsória.
            Um artigo na Revista de História, nº 138, São Paulo, Julho de 1998, Maria Luiza Corassin, do Departamento de história desta Revista, faz uma excelente abordagem sobre a Caridade Compulsória como sendo uma forma de pressão popular na sociedade Romana tardo-antiga.
            Com base na análise da cidade pagã e da comunidade cristã, se destacou dois tipos de doadores: o Evérgeta e o Cristão. O Evergetismo é um termo cunhado pelo historiador francês A. Boulanger (1923) e deriva do grego EÚEPYETÉW (“eu faço boas obras”). Esse termo indica a prática, no mundo clássico, de presentes luxuosos para a comunidade de forma aparentemente desinteressada.
            Paul Veyne ressaltou, no referente à Evergetismo e caridade, que o evérgeta doa por diferentes razões: para marcar a sua distinção social, por patriotismo, por senso cívico: o seu gesto dirige-se a este mundo real. O evérgeta dirige-se ao povo considerado como o conjunto dos cidadãos. Não podemos também, subestimar o vinculo que, na Roma antiga, em especial no período republicano, foi referência básica da finalidade existencial de cada um.
            Além da obrigação social que o evérgeta tinha para com os co-cidadãos, pode-se dizer que ele também era conduzido por um senso de responsabilidade, ligado à retórica do povo Romano, à educação republicana básica, na qual a cidade era uma extensão da família e da gens.
            Por outro lado, o doador Cristão, põe em prática a sua caridade para adquirir mérito diante de Deus: a sua generosidade se dirige a outro mundo. O alvo do doador cristão são os pobres, entendidos como uma categoria social e moral, não cívica.
            A existência da pobreza na sociedade romana levava ao comportamento despadronizado dos atores cívicos. Andrea Giardina, em seu artigo Caritá eversiva: "Le donaziou de Melania La Giovane e gli equilibri della societá tardoromana," comenta que qualquer definição, em se tratando da época do Império romanotardio, é preciso ser acrescentada de “certa cautela” (GIARDINA, 1998, p.127).
            Usando como documentação a biografia de Santa Melânia, Giardina, procurou analisar as interações entre certo tipo de doação Cristã aristocrática e o equilíbrio da sociedade tardo-antiga. Para se liberarem de bens materiais, alguns agiam de modo extremado, o que Giardina qualifica como um fenômeno “subversivo”.
            Um acontecimento interessante é citado por Giardina, relacionado aos escravos pertencentes à Melânia e a seu marido. Libertos, tais escravos preferiram permanecer no interior do oikos em que estavam radicados, recusando assim a liberdade. Certamente, tais escravos, assim o fizeram por acharem-se menos expostos a riscos humanitários e econômicos, ali como escravos.
            Na antiguidade tardia, a escravidão, em lugares e em circunstâncias específicas, podia se tornar uma condição privilegiada em comparação com a liberdade, para indivíduos desprotegidos, a quem podia faltar à proteção de um patronus poderoso (GIARDINA, 1988, P.142).
            Os pobres tinham um regime alimentar que era ao mesmo tempo insuficiente e desequilibrado. As suas moradias eram precárias; muitas vezes arrendadas, a sepultura incerta ou então coletiva. Não tinham um trabalho continuo e muitas vezes era desqualificado. O seu trabalho era às vezes na produção de vimes, outras vezes de serviço de guarda; no campo prestavam serviço braçal ou trabalhavam temporariamente nas obras municipais. O pagamento era feito esporádicamente em ouro divisionário ou em moeda de bronze, mais constante, que era de pequeno valor comercial.
            A História conjuntural vê, neste período, os pobres penetrando na sociedade cristã tardo-antiga, com um efeito estilhaçador dos esquemas tradicionais, e no final, a estrutura romana se modificou por causa destes. A abundância demográfica nos centros urbanos, explica em partes o aumento da violência urbana, num período onde não se tem grandes calamidades. Este aumento demográfico só é interrompido e cessa de vez, depois de 550, por causa das grandes guerras, do monaquismo, das perturbações das províncias, das sublevações dos Samaritanos e Judeus na palestina, das devastações Persas na Síria; e, finalmente, por causa de uma década de calamidades diversas, entre as quais a grande peste de 542 – 44.
            Contudo, antes da queda demográfica, ocorreu outra profunda mudança na comunidade romana, a URBS. Peter Brown, em uma conferência intitulada “Dalla plebs Romana Allá plebs Dei” (BROWN, 1982), diz que no século IV e V, a comunidade que se reunia nas celebrações rituais e nas distribuições energéticas, passou a transferir os pontos de reunião para lugares diferentes e modificaram o tipo de distribuição de doações. Brown considera a doação cristã como um catalisador simbólico importante por ser a nova definição da comunidade urbana cristã. Gradualmente desenvolveu-se uma nova relação, expressa pela distribuição de esmolas à Plebs Dei, em locais muito diferentes dos anteriores existentes, ou seja, nas basílicas cristãs.
Diante de uma explosiva vida urbana tardoromana, foram comuns as revoltas, linchamentos e incêndios, não apenas em Roma, mas também em outras cidades do império. Com isso as classes superiores, viram a necessidade da criação de estratégias de controle. A relação entre a aristocracia residente e a Plebs assumia uma feição intensamente pessoal.
            As doações, a munificência tradicional e a esmola cristã, fazem parte desta estratégia de controle. A munificência tradicional envolvia somas imensas, doadas por uma só pessoa de cada vez, como sinal de que se pertencia a um grupo privilegiado dos senhores da cidade. A esmola cristã consistia num sistema de doações quase sem estrutura; somas pequenas ou médias eram oferecidas, a qualquer momento, por fiéis de todos os níveis sociais, sem distinção de sexo ou de fortuna, não como ostentação de riqueza, mas ao menos teoricamente, por uma necessidade espiritual (BROWN, 1982, P. 131-32).
            Edward P. Thompson em “Societá Patuzia, Cultura Plebea” (THOMPSON, 1982), considera possível individuar, sob o ângulo de quem ocupa a posição inferior, “de baixo”, características diversas e mais determinantes nessas doações. Doações de maior importância – a caridade e o subsídio de alimentos em tempos de penúria – são impostos de modo direto sobre os ricos pelos pobres por meio de uma prática bem conhecida de revoltas ou ameaças de revolta, uma prática que apresenta por si características estruturais (THOMPSON, 1982, p. 321-23).
            A “liberalidade” e a “caridade” podem ser consideradas como atos calculados de complacência de classe em períodos de miséria e como atos calculados de extorsões (sob a ameaça de tumulto) por parte da multidão. Aquilo que é visto, sob a ótica das classes superiores como um “ato de dar”, é visto de baixo como um “ato de obter” (THOMPSON, 1982, p. 361-62). As oportunidades eram aproveitadas quando se apresentava a ocasião, sem considerar muito as eventuais conseqüências; a multidão impunha seu poder em momentos de revolta, constrangendo membros da nobreza a fazer concessões.
            Nesta analise do homem bizantino, duas conclusões nos são apontadas. Em primeiro lugar, o inicio do império, onde se forma um modelo que sobreviverá. Uma definição ambivalente de uma pobreza vítima de incapacidade civil e, no entanto, investida de um valor espiritual primário; a cristianização da dádiva; o estatuto privilegiado das instituições assistenciais, o papel dos monges, bispos, laicos, o imperador – como interlocutor dos pobres na obra da salvação. Em segundo lugar, no final da história política de Bizâncio sob este venerável modelo parece despontar uma pobreza diversa: uma pobreza moderna. Como no Ocidente.




Referências
R. BROWNING, V. VON FLAKENHAUSEN, A. GUILLOU, A. KAZHDAN, C. MANGO, M. McCormick, N. OIKONOMIDES, E. PATLAGEAN, P. SCHREINER, A. M. TALBOT. O Homem Bizantino. Editora Presença, Lisboa, 1998. Tradução: Maria Bragança. Paginas 21 a 41.

CORASSIN, Maria Luiza. Caridade compulsória: formas de pressão popular na sociedade romana tardo-antiga. Artigo na Revista de História, Nº 138, São Paulo, Julho 1998.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

IMPERIALISMO GRECO-ROMANO


Baseado no texto de Norberto Luiz Guarinello farei uma rápida dissertação sobre o Imperialismo Greco-Romano. Tentarei estabelecer algumas das problemáticas em se estudar um império antigo, bem como tentar entender as causas, motivações e conseqüências da expansão Greco-Romana.
O conceito
            Em geral quando se usa esse termo, Imperialismo, a idéia que se nos remete é uma fase específica do desenvolvimento do capitalismo. Na visão contemporânea é sempre citada como envolvendo uma expansão que se caracteriza política e economicamente. Embora tal expansão sempre tenha como fator forte o componente político-militar, para as concepções atuais o principal ponto de concentração é essencialmente econômico, ou seja, envolve diretamente o modo de produção e tem nesta sua mola propulsora.
            Portanto, vale neste momento de nossa analise do Imperialismo Greco-Romano, estabelecer o conceito de Imperialismo a que estaremos dando consideração. Embora o emprego desta palavra com sua significância sejam de uso moderno, faremos uso de Imperialismo, para caracterizar e definir os fenômenos de expansão em sociedades pré-capitalista, em particular no que se refere ao mundo Greco-Romano.
            Os ultra modernistas descartam uma associação do Império moderno com o Império antigo no tocante às suas causas e conseqüências econômicas. Trabalhos recentes, no entanto, fixam sua atenção na esfera do poder, na dominação política e na expansão militar, elementos que foram essenciais ao Imperialismo Greco-Romano. Contudo, deixamos claro, que embora haja um consenso no uso da palavra, Imperialismo, não há uma definição última e final.
Imperialismo, guerra e expansão
            Comentando sobre os Impérios antigos, Moses Finley, cita que estes sempre se notabilizam pelo seu “Caráter Importador”, ou seja, há uma captação de recursos que visam manter um centro de poder metropolitano. Contudo, não se pode dizer que este conceito em si defina o Imperialismo Greco-Romano.
            Para que haja uma expansão político-militar bem sucedida é preciso que esta seja um empreendimento coletivo. Este foi o caso na expansão Romana, toda a sociedade esta envolvida neste esforço coletivo. As lutas que existiam eram internas, não com relação a se deveria haver ou não a expansão, mas quanto a como seria conduzida esta expansão e mais como seria feita a distribuição dos frutos desta expansão.
            Não poderia haver expansão sem o uso da guerra. Portanto, esta era uma atividade fundamental na expansão imperialista romana. Mas o torna as  guerras Romanas um exercício da cidadania e a caracteriza como um coletivo da expansão, era o fato de que para participar da guerra o soldado teria que ter um certo poder aquisitivo. Assim, quem tinha os meios de adquirir um cavalo, participaria da cavalaria. Quem possuísse os meios para adquirir uma armadura completa, faria parte da infantaria. Outros de renda inferior eram usados como remadores ou carregadores. Os de baixa renda eram assim dispensados das prestações militares.
            Outro aspecto de destaque nas guerras Romanas era o seu caráter religioso e ritualisco. Havia uma representação ideológica da expansão Imperialista.
Imperialismo e poder
            Na antiguidade o Imperialismo se manifestava pelo fortalecimento da esfera de poder, que era um centro acumulador, um centro de poder. Poder este que pode ser político, econômico, ou militar. Norberto Luiz Guarinello, se concentra neste ponto: relações de poder com a periferia, determinação dos modos de exercício do poder, formas de exploração e evolução e reação dos povos submetidos ao domínio do centro.
O imperialismo Romano: Natureza, fases
            Os historiadores tem tido entre si um intenso debate sobre as causas, motivações, natureza e conseqüências do imperialismo Romano. Alguns têm sustentado que a expansão imperial Romana teria sido involuntária, contra a vontade. Citam como exemplo, o descaso dos Romanos em anexar os territórios conquistados.
            Os historiadores que defendem a tese do imperialismo “preventivo” ou “defensivo” concentram sua atenção na conquista da Grécia Helenística. M. Holleaux, diz que a intervenção romana na Grécia, fora movida por um sincero filo-helenismo, desejo de libertar a Grécia do jugo macedônio. Este conceito também é seguido por H. Scullard e T. Frank que ressaltam também ter havido elementos político-ideologicos como a ânsia de glória, fama e dignidade por parte da aristocracia romana.
            Para Norberto Luiz Guarinello, teria havido duas fases que envolveu o Imperialismo Romano. Para ele a uma distinção bem nítida entre um primeiro momento em que realmente se inicia com uma fase “defensiva” do imperialismo Romano, em seguida a segunda fase que seria uma etapa expansionista e agressiva. Quando termina esta primeira fase e inicia a segunda, Guarinello mostra que irá depender do ponto de vista de cada autor. Alguns têm situado esta transição apartir da primeira guerra Púnica (contra Fenícios), outros na segunda guerra com Cartago (tese de J. Carcopino) ou no curso do século II a.C., Ainda outros a situam nas campanhas orientais (segundo De Sanctis), seja no episódio da destruição de Cartago e Corinto, em 146 a.C.
            Apesar das diferenças de opiniões a ênfase esta nos fatores políticos, para uma justificação expansionista. Numa segunda ênfase, embora com menos propriedade, esta a representação religiosa. Não se pode negar a vocação divina de Roma, tantas vezes destacadas na sua “Pax Romana”.
AS fases da expansão
            O processo de expansão romana pode ser divido em períodos distintos, com ritmos diferentes de conquista e retratação, afetando os objetivos e conseqüências do Imperialismo. Diodoro da Sicilia, no século I a.C., fala que o tratamento dispensado aos vencidos caracteriza essa mudança de objetivo. Por exemplo, ele destaca que no começo Roma não possuía um caráter cruel, nem tinha um espírito vingativo para com os conquistados. Ao contrário, eles pareciam se comportar como benfeitores e amigos dos povos conquistados. Porém, após a conquista do mundo e para manter sua estabilidade, começou a espalhar o terror, destruindo as cidades que porventura fossem eminentes, como Corinto (146 a.C.), Cartago (146 a.C.), Numância (133 a.C.).
            Caio Salústio Crispo, escritor e poeta do século I a.C., destaca os motivos internos como sendo os fatores que causaram as mudanças no objetivo da expansão Romana. Salústio faz uma alusão a época em que o medo do inimigo mantinha a cidade no “bom caminho”, e agora com a conquista do mundo, os Romanos deixaram de lado a placidez e a moderação administrativa.
Um dos pontos que se pode destacar da expansão romana se situa no curso do século III a.C. e, com maior intensidade, a partir da segunda guerra Púnica, pois passa a desenvolver-se em Roma a produção mercantil, baseada na utilização de mão-de-obra escrava em larga escala. Essa vasta transformação econômica alterou a dinâmica e a própria natureza do imperialismo romano, na utilização e distribuição dos recursos e na forma de organizar e administrar as conquistas.
Terras públicas
            A terra anexada, que se tornava propriedade do estado, era distribuída aos cidadãos segundo diferentes modalidades de assignação. Por volta de 340 a.C. a fundação de colônias, era diferenciada em dois tipos: uma de caráter militar, onde cidadãos romanos, soldados, recebiam lotes de terra em território hostil. Outra forma de colonização era a distribuição das terras conquistadas entre a população camponesa de Roma e de seus aliados, reproduzindo assim, nas colônias, a economia de subsistência.
            As terras da cidade foram transformadas em “Ager Publicus” e repartidas em lotes e distribuídas à população de Roma. Tal forma de repartição tinha um caráter social e evidentemente não contava com o apoio da Aristocracia e do Senado, que via a perda do controle e o inicio do pervertimento do povo.
            O “Ager Publicus”, no final deixou de atingir seu objetivo, pois em primeiro plano se precisaria de meios para cultivar a terra e pagar a taxa ao estado. Assim. Por vezes, tais terras foram deixadas aos habitantes originais. Em um segundo plano, tais terras foram ocupadas pela Aristocracia Romana, que eram de natureza urbana e não as geriam diretamente, visando tão somente à obtenção de uma renda agrícola. Assim, a economia camponesa sofreu uma rápida transformação, deixando de ser essencialmente familiar e autárquica, para uma economia de produção escravista e mercantil.
Imperialismo e luta política
            A estrutura política Romana preservou sempre um nítido caráter oligárquico, manifesto na hegemonia exercida pelo senado na condução política do estado. A oligarquia senatorial, que era responsável pelo controle e decisões do estado, era formada por duas assembléias populares em Roma: Assembléia por Centúrias e por tribos.
            A assembléia por tribos reunia a plebe e tinha um caráter democrático, reunia toda a cidadania. No entanto, os votos não eram computados individualmente, mas por tribos, e as decisões da assembléia (os plebiscitos) eram aplicáveis apenas aos próprios plebeus.
            A assembléia por Centúrias tinham uma importância superior, era a representação do povo em armas com voto segmentado em centúrias, distribuídos segundo a riqueza individual dos soldados. Era a assembléia centuriada que elegia os magistrados e aprovava declarações de guerra, deixando uma grande margem de controle nas mãos dos ricos.
            Esta Aristocracia que detinha o poder Romano, via na expansão uma forma de ampliar seu próprio poder, adquirindo glória e prestigio militar, estabelecendo alianças com as aristocracias dos estados aliados, fortalecendo o exercito com os contingentes provindos destes últimos. Também, o imperialismo Romano implicava uma integração progressiva das áreas conquistadas à sua estrutura política, baseando-se numa aliança entre grupos aristocráticos com objetivos comuns.
A organização das conquistas
            No século II a.C. completa-se a conquista da Itália apenínica. Roma organizou os territórios anexados, integrando-os, em diferentes níveis, ao seu próprio sistema político e ao processo de expansão.
            Como vimos, a ênfase da expansão era o confisco de terras, as alianças políticas e o suprimento de soldados, para agilizar e fortalecer a expansão. Com as conquistas ultramarinas, que se iniciaram em 264 a.C., com a primeira guerra Púnica, a organização da conquista, que abrangerá por fim toda a bacia mediterrânea terá uma forma diferente de organização.
            As províncias passam a serem organizadas essencialmente como fonte de recursos regulares e fixos, obtidos pela imposição de um tributo anual, pelo pagamento de indenizações de guerra ou pela exploração de recursos naturais (minas de ouro e prata), que se tornam monopólio da metrópole.
            Podemos ver neste ponto da organização do Imperialismo Greco-Romano, que se concretiza a proposta inicial do termo imperialismo, que fora citado no começo deste texto, onde através da guerra se consegue a expansão que no final tem a sua força perpetuada no poderio econômico, que é gerido por um centro acumulador, ou centro de poder. Através deste fortalecimento, é que se possibilita uma continuação da expansão ou mesmo a sua continuação.
            Para exemplificar esse novo método utilizado pela metrópole, podemos utilizar os acontecimentos envolvendo a Sicília, que foi a primeira província Romana, incorporada após a primeira guerra com Cartago. Após a conquista, Roma determinou às regiões que tomara dos púnicos, o pagamento de um tributo em espécie, arrecadando, anualmente, um décimo da produção de trigo – o principal produto da ilha.
            Além do décimo da colheita, Roma arrecadava, por vezes, uma segunda décima parte (altera décima), para suprir necessidades específicas do exército ou da cidade, ou fazia requisições extraordinárias (frumentum imperatum), pagas a preços abaixo do mercado.
            Tal sistema tributário em espécie ressalta com clareza um dos aspectos centrais do imperialismo Romano – seu caráter importador, sobretudo de bens de primeira necessidade, para atender a uma população crescente em Roma.
            Acho importante destacar sobre como se efetuava a cobrança destes impostos. Tendo em vistas a dimensão do império, sempre é uma dúvida minha, quanto a se seria possível um controle metódico sobre a produção e comercialização, de modos a que, estes impostos fossem cobrado em sua exatidão. Norberto Luiz Guarinello, neste ponto, sana esta minha dúvida, ao colocar que, como acontecerá na organização ulterior das províncias, o estado Romano não arrecadava diretamente o tributo, mas abjudicava o direito de cobrança a particulares, através de leilões. Esse sistema, empregado também na realização de obras públicas e em toda a tributação estatal, levou até ao surgimento de um grupo social de grande importância nas lutas sociais do fim da república – os publicanos -, cujo desenvolvimento ligava-se, assim, intimamente ao processo expansionista Romano.
O desenvolvimento econômico nas províncias
            O estabelecimento do domínio Romano sobre as áreas conquistadas não representou tão-somente a superposição de uma estrutura política de exploração, mas ocasionou profundas transformações econômicas nas próprias regiões submetidas. Desta forma, temos uma rápida expansão do escravismo e do sistema de “villae” nos territórios conquistados e a subordinação dos modos de produção locais.
            As cidades funcionavam como elos fundamentais no sistema de exploração imperial, onde se reunia os órgãos político-administrativos municipais e imperiais. Assim, os recursos gerados eram concentrados progressivamente em direção a metrópole, onde ficava o núcleo do poder.
Conclusão
            As motivações, as causas e conseqüências da expansão do Imperialismo antigo são múltiplas: econômicas, políticas, ideológicas. No caso da expansão imperial Greco-Romana prevaleceram pelo que me parece, as determinações de ordem política. No começo parece ter se movido por uma necessidade “defensiva” mais do que meramente de conquista. Em seguida, após conquistar o mundo, surge a necessidade de mudança de objetivos tanto para acelerar a expansão como para conservar as conquistas. Perde-se assim o caráter “defensivo”, e se espalha o terror como forma de conservação do poder. Também, embora o fator econômico não fosse à mola propulsora da expansão, na segunda fase foi largamente explorada, até por uma necessidade de reforçar o núcleo de poder, situado na metrópole.
            As populações conquistadas ou eram escravizadas ou tinham que se submeter às leis e imposições Romanas, perdendo assim a sua identidade cultural. O governo Romano, que dava poder ao senado, sempre se manteve um estado oligárquico, e embora se gabe hoje de ser o centro democrático do mundo, marginalizou o processo político a grande massa da população. A aristocracia pode assim ter sempre o poder em suas mãos.
            Assim vimos que várias formas a expansão Romana, preenche os aspectos da definição de Imperialismo antigo, e pode por muito tempo ter o controle de todo um mundo da época.


Referências
GUARINELLO, Norberto Luiz. Imperialismo Greco-Romano. São Paulo, SP: Editora Ática. Capitulo I – Imperialismo antigo e moderno; Capitulo IV – O imperialismo romano: natureza, fases; Capitulo V – Os inícios do imperialismo romano; Capitulo VI – Os últimos séculos da república; Capitulo VII – Conclusão.

HISTÓRIA & TEORIA Historicismo, Modernidade, Temporalidade e Verdade


Esta resenha tem como base o livro de José Carlos Reis, História & Teoria, alçado nos sub-capitulos com os temas: Modernidade e história-conhecimento, pags. 36 a 42; A pós-modernidade, pags. 42 a 53; e Pós-modernidade e história-conhecimento, pags. 53 a 62, da 1ª seção. Este livro foi publicado pela editora FGV do Rio de Janeiro, com edições em 2003, 2005, 2006 e finalmente a Reimpressão em 2007, que é a edição que estamos utilizando.
            Neste texto resenhado, José Carlos Reis, faz uma abordagem sobre os caminhos da historiografia no século XVIII, onde predominava a filosofia e a Razão histórica. Anda também no século XIX, onde a história quer se emancipar para Ciência histórica. Passando por último para o século XX, onde pode se destacar duas fases distintas da História: na primeira parte, uma História-ciência, que vigora na primeira metade do século, e, na segunda parte, a Anti-ciência na História, ou a Anti-história na ciência, que se passa no final do século.
            A obra de José Carlos Reis, História & Teoria, esta dividida em 21 capítulos, sob três seções. Na primeira seção, Reis, faz o que podemos chamar de histórico de a História da história, que se trata de uma analise sobre o desenvolvimento historiográfico no mundo ocidental. Na segunda seção o foco está na grande queda da História, passando de uma História global a uma micro-história, ou como Reis a chama, a “história em migalhas”. E na terceira seção a analise se concentra no estudo da Lógica e sua problemática e em tentar estabelecer como o conhecimento histórico tem sido discutido nos últimos anos.
Nos três capítulos, que baseamos esta resenha, José Carlos Reis, remonta ao século XIX, onde a história-conhecimento deixa de lado seu viés filosófico e torna-se “cientifica”. Esta mudança é resultado de pensadores radicais, que tinham consigo que as filosofias racionalistas e metafísicas, não revelaram nada da história, e consequentemente não servia como bem para a humanidade.
Com o estabelecimento da História-ciência deixou-se de discutir o sentido histórico e a história universal. No método científico, conforme mostra Reis, não se busca conhecimento de principio geral, mas sim o conhecimento das diferenças. Há um verdadeiro culto do “fato realmente acontecido”. A consciência histórica é finita, limitada. Como se trata de uma busca da realidade a História-ciência se organiza temporalmente sem se referir ao intemporal. As filosofias Hegelina e Iluminista são prontamente recusadas.
            A relação entre filosofia e história se inverte. Neste momento é a filosofia que se revela histórica. O historiador passa a ter uma nova atitude, positiva e critica. Abandona-se a ontologia e adota-se um proceder epistemológico. Passa-se a observar os fatos através de uma atitude realista. Acreditou-se que o conhecimento histórico tinha se estruturado em bases positivas ao encontrar um método seguro, objetivo, confiável, empírico.
            A seguir, José Carlos Reis, mostra como a história-ciência sofre uma poderosa derrota quando ocorre a 2ª guerra mundial. A história-cientifica que assumiu ares de salvadora da humanidade, agora é descartada como não servindo para o bem. Depois de 1945, com a Europa derrotada, com os dois novos vitoriosos a leste e oeste, que eram inimigos em uma “quentíssima Guerra Fria”, a historiografia européia tinha de se reconstruir para apoiar a Europa em sua reconstrução. A escola dos Annales era a historiografia adequada à “reconstrução da Europa”. Reis resume a importância da escola dos Annales por citar que ela foi tão revolucionária quanto à burguesia depois da Revolução Francesa, ou seja, inovava para se antecipar a mudança, mudava para não desaparecer, para permanecer.
            Por fim, Reis, passa a analisar o momento atual em que a história se encontra. Segundo ele, desde 1989, com o fim da Guerra Fria, a história mundial mudou a sua direção. A história da história se articula à história vivida. Hoje, predomina a chamada “história cultural” e as abordagens micro do social, que defendem teses como: “o sistema não existe”, “não há confrontos estruturais”, “o que os homens são é tal como se representam”, “o que o mundo social é depende das representações que os indivíduos e grupos fazem dele”, “os indivíduos se apropriam de linguagens dominantes para se integrarem à ordem” etc. A direção é: que cada um se adapte, que cada um se integre, que cada um negocie e crie estratégias para vencer, que crie novas identidades, que, se vencedoras, irão revigorar a ordem. Viva o presente e lute para fortalecer-se nele. Olhando ainda mais para os nossos dias, alguns historiadores têm formulado a existência de um pensamento pós-moderno, onde haveria uma ruptura com o projeto moderno. Esse pensamento pós-moderno substituiria a Razão e a metafísica. A história não salva e ninguém se nutre de sonhos utópicos. É real a existência desse pós-modernismo? Quais são suas reais bases? O que o futuro pode nos apontar? São reflexões feitas por José Carlos Reis e abordadas nestes capítulos que procuramos aqui resenhar.
            Vale dizer nesta resenha, que a analise feita por José Carlos Reis, demonstra de forma interessante o desenvolvimento e a queda da historiografia e consequentemente sua luta para não desaparecer, para se adaptar aos novos tempos. Ao citar filósofos de nome como: Weber, Nietzsche, Hegel, Foucault, Dilthey, Marx, P. Burke e outros; ele tenta mostrar como sua analise esta bem embasada e representa o pensamento filosófico em vigor.
            Por ter uma “vocação filosófica”, como ele mesmo refere a si, José Carlos Reis, defende em demasia o retorno da história-conhecimento, que foi utilizada amplamente no século XVIII, e que tem como meta a compreensão do mundo por meio do estudo da Razão, utilizando a filosofia como base das reflexões. Mas como diz Tzvetan Todorov: “A aquisição dos conhecimentos só faz aproximar da verdade quando se trata do conhecimento daquilo que se ama e em nenhum outro caso” (L’enracinement, p. 319). Ou seja, não se pode ter uma compreensão plena de algo se não estivermos vivendo esse algo, pois, sem a emoção, sem o sentimento da vivenciação, da experiência pessoal, tudo se degeneraria em escolástica, e assim traria satisfação apenas às instituições burocráticas, que adoram os dados quantitativos. Uma história feita em bases filosóficas, poderia se tornar rapidamente uma história empírica, o que foi amplamente criticado por Reis, quando utilizada pela história-ciência.
            Ao tecer duras criticas aos métodos científicos em que a história-ciência se alicerçou, Reis, deixou de analisar como esses métodos foram úteis em se criar uma “estrutura lógica”, fundamentada, para se fazer história. É claro que, os pensamentos de radicalistas históricos, que introduziram o pensamento científico e suprimiram a filosofia da história, cometeram um erro de falta de equilíbrio. Porém, Reis, cai em um erro similar ao defender a introdução da filosofia na história e a total supressão dos métodos científicos. É preciso ter um equilíbrio, utilizar o melhor dos dois mundos seria o mais sensato, é preciso evitar o radicalismo histórico.
            Eu considero a idéia do texto resenhado muito boa para a utilização nas faculdades, entre os iniciantes em graduação de história. Não é segredo que a história passou por várias mudanças e que atualmente a uma indefinição quanto ao momento em que se vive e quanto a que caminho seguir. Porém, a forma como Reis apresenta esse momento dá uma visão realista de três séculos de conflitos historiográficos. Os iniciantes de graduação em história poderão assim ter visão apurada do desenrolar histórico.
            O professor José Carlos Reis é um dos historiadores mais conhecidos no Brasil. Autor de algumas das melhores obras de teoria e historiografia (História & Teoria; A Escola dos Annales: a inovação em História; Identidades do Brasil I e II; Tempo; História e Evasão entre outros). Fez o curso de história na Fafich/UFMG (1978/81). Sua pós-graduação foi em departamentos de filosofia. Fez mestrado na UFMG, sob a orientação de Ivan Domingues, com a dissertação “Marx e a História”. Fez doutorado no instituto superior de Filosofia, da Universidade Católica de Louvain (Bélgica), sob a orientação de André Berten, com a tese “O tempo e o lugar epistemológico dos Annales”.


Silvon Alves Guimarães
“Acadêmico do curso de História da Universidade Federal de Goiás, Campus Jataí”.

VIGIAR E PUNIR. MICHEL FOUCAULT. RESENHA

Michel Foucault Vigiar e punir – Nascimento da prisão FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir : nascimento da prisão; tradução Raquel Ramalh...