As Navalhas Afiadas que Produzem Subjetividades Carentes

As sirenes gritavam pelas ruas, anunciando que alguma tragédia havia acontecido. Dobrando esquinas, cortando ruas, aguçando a curiosidade de pacatos moradores que descansavam tranquilamente em suas casas naquela manhã de quarta-feira, 04 de abril de 2012, a pregoeira da calamidade para em frente a um humilde barraco, em uma esquina simples no setor Hermosa, na cidade de Jataí – GO.
             O morador, um senhor de sessenta e poucos anos, Ederaldo Damazio de Oliveira, morava sozinho naquele barraco alugado, Havia cerca de quatro a cinco anos. Não tinha ninguém por ele. Não tinha ninguém que sentisse a sua falta. Não tinha amigos. Não tinha parentes na cidade. Não tinha seguro de saúde. Não tinha amparo. Não tinha seguro de vida. E nesse não ter, passou a não ter esperança, passou a não ter vontade, passou a não ter perspectiva.
            O único familiar que ele dizia ter era uma filha que há anos havia se mudado para os Estados Unidos. Não mantinha contato com ela já fazia anos. Era do interior do estado de São Paulo, mas por muitos anos morou em Aparecida do Taboado, no Estado de Mato Grosso do Sul. Quando chegou a Jataí, não tinha documentos por falta de certidão de nascimento o que lhe impedia de aposentar-se. Através de conhecidos conseguiu retirar uma segunda via de sua certidão de nascimento, por meio da internet, e assim conseguiu se aposentar e ter pelo menos os meios de sobrevivência.
            Durante anos exerceu a profissão de sapateiro, e tinha com ele várias formas utilizadas na profissão. Aliás, é preciso ressaltar que para ele estas formas eram verdadeiro troféu, de anos dourados, em que os profissionais artesãos eram valorizados. Nos dias atuais, com a produção industrial de sapatos, esses profissionais autônomos perderam espaço, não conseguindo serviços, nem pra se manter. Amargurado, talvez por não ter a sua valorização, talvez por ser de uma outra época, ou quem sabe por não ter conseguido se atualizar, o Sr. Ederaldo agia sempre como um repelente de amizades. Sempre dificultava os relacionamentos por não aceitar a ajuda de outros. Quando pessoas tentavam praticar uma boa ação para com ele, como carpir o quintal, ou dar uma faxina na casa, a reação era sempre negativa. Não aceitava que o tempo lhe cobrara tamanho tributo ao ponto de não conseguir cuidar de si mesmo.
            Sua saúde já não estava boa. Sofria de hipertensão, diabetes e alguns outros sintomas que não havia sido diagnosticado. Então, esta era a situação que enfrentava esse pobre senhor: Saúde precária, moradia simples, solitário, sem nenhum parente por ele, sem nenhum amigo.
            Quando a ambulância parou abruptamente em frente ao barraco do senhor Ederaldo Damazio, os vizinhos já puderam prever que algo terrível havia acontecido. Naquela manhã, um senhor, conhecido seu, fora lhe levar um convite para participar de uma cerimônia religiosa na noite do dia seguinte. Ao chamar no portão e não ser atendido sentiu um forte cheiro de carne em decomposição. Temendo o pior subiu em um pé de caju para espiar a situação no barraco, percebeu que o barraco estava aberto e assim conseguiu visualizá-lo caído no chão já em estado avançado de decomposição. O Sr. Ederaldo jazia morto em seu barraco há alguns dias, e até aquele momento ninguém sentira sua falta.
            O que vale a vida? Como se chega a certas situações, onde ficamos isolados em meio a pessoas? A vida nas cidades aglomerou as pessoas, mas ao mesmo tempo as separou, pois cada um tem sua preocupação, tem seus afazeres, esta plenamente envolvida na sua sobrevivência e não há espaço para o próximo, para o outro que somente irá me atrasar.
            A banalização do cotidiano, o viver só para si, o viver medíocre da vida à prestação e a salário são frutos do desconforto do conforto do mundo capitalista. “Todas as máquinas de navalhas afiadas penetrando carnes anestesiadas, marcando-as com seus signos, produzindo subjetividades carentes, vazias, domésticas, domadas, animalescas” (ALBUQUERQUE, 2007). Todo o nosso cotidiano domesticado pelo espírito capitalista impiedoso tem o cheiro repugnante da morte, não de uma morte gloriosa dos deuses, dos santos, dos heróis ou dos mártires, mas uma morte cotidiana, sem razão de ser, banalizada pela correria em que nos encontramos, a morte burocrática e aquela em que se recebe um certificado de se estar morto, apesar de isso já não importar mais.
            Nietzsche (1991), alerta que o homem moderno vive um conflito com a morte, tentando negá-la por um lado, não cessando, no entanto de falar dela, retirando toda solenidade que cerca a morte, mas fazendo dela um acontecimento sempre inesperado e traumático. Kafka (2000), conta histórias em que a morte não é mais uma festa, mas também em que não está mais retirada da vida. Para ele, a morte não é o fim da vida, o fim da vida deve ser alcançado nela mesma sob pena de já se estar morto, mesmo vivendo. Uma vida, sem amigos, sem parentes, sem carinho, isolado em uma cela de afastamento, não deveria ser a vida de ninguém, todos deveriam ter alguém que se preocupasse com ele, e ninguém deveria viver nessa subjetividade carente.
Por: Silvon Alves Guimarães

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