quarta-feira, 30 de maio de 2012

O Super-Homem de Nietzsche e o Eterno Retorno


“O Super-homem é o sentido da Terra... Eu ensino-vos o Super-homem. O homem é algo que deve ultrapassar-se”. Nietzsche ao formular a sua teoria do super-homem, tem em mente o individuo que consegue buscar a liberdade do eterno negativo, que é visto como algo doentio, que é a base da civilização Cristã-ocidental. O super-homem Nietzschiano consegue completar uma transmutação plena, saudável, definitiva de todos os valores que anteriormente reinavam para o caos humano. Ao se encontrar em um mundo novo, que não se centraliza em Deus, mas em si próprio, que busca sua afirmação como ser absoluto dos seus desejos e vontades, o super-homem se vê em um universo que não mais tem um sentido definido, cabe a ele inventar esse sentido novo. A terra se torna uma nova morada, e ele se vê com poderes totalmente novos, poderes que o habilitam a dar o sentido que desejar a terra e até ao universo inteiro.
Para Nietzsche o que torna o homem um ser sobre-humano é o fato de ele ter esta vida como absoluta e única, mas ao mesmo tempo dizer sim, ao eterno retorno de tudo o que se vive, aclamar a idéia de que esta vida será revivida infinitamente tal como foi vivida. Tanto o prazer como a dor serão eternamente revividos.
O super-homem rompe com a moral cristã, rejeita a metafísica dualista, destrói a cisão: Mundo do devir (passageiro) X mundo do ser (eterno). Para o super-homem o mundo dura infinitamente, portanto o mundo do devir será eterno e se torna o verdadeiro mundo do ser.
O rompimento com a moral cristã-ocidental se deu pelo fato de esta conduzir a um constante reducionismo da vida. Ao dizer que a verdadeira vida estava noutro mundo (além), a moral cristã reduz esta vida a nada, uma vida sem sentidos, onde nada do que se realiza pode ter um sentido dignificante. O super-homem tem uma duração eterna aqui na terra, ele declara seu amor a terra, um amor absoluto, um amor eterno, como sua própria existência.
A moral cristã-Ocidental, com seu reducionismo do além, atrofiava a vida humana impedindo que o ser humano se entregasse plenamente ao mundo do devir, à Terra. O super-homem liberta a vida desse fardo do além e estabelece o seu ser como sendo o próprio sentido da Terra. O homem existe para a Terra, assim como a Terra existe para o homem. A Terra será eterna, o Homem será eterno, terá um retorno eterno do seu viver.
Nietzsche fala sobre o retorno a idéia de eternidade e ao mesmo tempo sobre uma recuperação da inocência por parte do super-homem. Esta inocência recuperada se deve ao fato de que ele não mais está preso ao pensamento reducionista cristão, que desvalorizava a vida, que estabelece juízo e uma concepção de Bem e Mal e tende a podar o sentido eterno da vida. O super-homem Nietzschiano é eterno e por isso não se submete a nenhum juízo final. Por reviver eternamente o vivido, carrega consigo o aprendizado do sofrido e do prazeroso, podendo assim sobrepujar seus problemas e vencer suas angustias.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Operação Valkiria


Operação Valkiria, é um filme que explora o atentado, de 20 de julho de 1944, executado pelo conde Claus Schenk Von Stauffenberg, contra o ditador Hitler, em nome do movimento de resistência, do qual faziam parte vários oficiais. Hitler saiu apenas levemente ferido da explosão de uma bomba em seu quartel-general na Prússia Oriental. A represália não se fez esperar: mais de quatro mil pessoas, membros e simpatizantes da resistência, foram executadas nos meses seguintes.
Stauffenberg desde cedo começou a questionar não só o genocídio contra judeus, poloneses, russos e outros grupos da população estigmatizados pelo regime de Hitler, como também a forma, em sua opinião "inadequada", do comando militar alemão. Em 1942, junto com seu irmão Berthold e outros membros da resistência, ele ajudou a elaborar uma declaração de governo pós-derrubada de Hitler. Os conspiradores defendiam a volta das liberdades e direitos previstos na Constituição de 1933, mas rejeitavam o restabelecimento da democracia parlamentar.
Os planos do atentado que mataria Hitler foram elaborados com a participação de Carl-Friedrich Goerdeler e de Ludwig Beck. Os conspiradores mantinham, além disso, contatos com a resistência civil. Os planos visavam a eliminação de Hitler e seus sucessores potenciais – Hermann Göring e Heinrich Himmler. A primeira tentativa de atentado em Rastenburg (hoje Polônia), no dia 15 de julho, fracassou.
Na manhã de 20 de julho de 1944, Stauffenberg voou até o quartel-general do Führer "Wolfsschanze", na Prússia Oriental. Com seu ajudante Werner von Haeften, ele conseguiu ativar apenas um dos dois explosivos previstos para detonar. Mais tarde, usou uma desculpa para entrar na sala de conferências, onde depositou a bolsa com explosivos ao lado do Führer. Incomodado pela bolsa, Hitler a colocou mais longe de si. A explosão, às 12h42, matou quatro das 24 pessoas na sala. Hitler sobreviveu.
Na capital alemã, os conspiradores comunicaram por telefone, por volta das 15 horas, convencidos do êxito da missão: "Hitler morreu!" Duas horas mais tarde, a notícia foi desmentida. Na mesma noite, Stauffenberg, Von Haeften, Von Quirnheim e Friedrich Olbricht foram executados. No dia 21 de julho, os mortos foram enterrados em seus uniformes e condecorações militares. Mais tarde, Himmler mandou desenterrá-los e ordenou sua cremação. As cinzas foram espalhadas pelos campos.
Operação Valkiria segue a onda de filmes alemães sobre a segunda guerra mundial. Outros filmes da mesma temática são: “A Queda! As Últimas Horas de Hitler”; “O Homem Que Quis Matar Hitler” e “O Plano para Matar Hitler”. Todos esses filmes se baseiam em um esquema real, para matar hitler, que não deu certo.
Além de mostrar a História real dos horrores da guerra, Operação Valkiria, mostra que nem todos alemães concordavam com os métodos e a sandice de Hitler, ao contrário, muitos estiveram dispostos a dar suas vidas para tirar Hitler do poder e por fim a segunda Guerra Mundial.
Um ótimo filme. Eu Assisti e recomendo.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

HISTÓRIA & TEORIA Historicismo, Modernidade, Temporalidade e Verdade.


Esta resenha tem como base o livro de José Carlos Reis, História & Teoria, alçado nos sub-capitulos com os temas: Modernidade e história-conhecimento, pags. 36 a 42; A pós-modernidade, pags. 42 a 53; e Pós-modernidade e história-conhecimento, pags. 53 a 62, da 1ª seção. Este livro foi publicado pela editora FGV do Rio de Janeiro, com edições em 2003, 2005, 2006 e finalmente a Reimpressão em 2007, que é a edição que estamos utilizando.
            Neste texto resenhado, José Carlos Reis, faz uma abordagem sobre os caminhos da historiografia no século XVIII, onde predominava a filosofia e a Razão histórica. Anda também no século XIX, onde a história quer se emancipar para Ciência histórica. Passando por último para o século XX, onde pode se destacar duas fases distintas da História: na primeira parte, uma História-ciência, que vigora na primeira metade do século, e, na segunda parte, a Anti-ciência na História, ou a Anti-história na ciência, que se passa no final do século.
            A obra de José Carlos Reis, História & Teoria, esta dividida em 21 capítulos, sob três seções. Na primeira seção, Reis, faz o que podemos chamar de histórico de a História da história, que se trata de uma analise sobre o desenvolvimento historiográfico no mundo ocidental. Na segunda seção o foco está na grande queda da História, passando de uma História global a uma micro-história, ou como Reis a chama, a “história em migalhas”. E na terceira seção a analise se concentra no estudo da Lógica e sua problemática e em tentar estabelecer como o conhecimento histórico tem sido discutido nos últimos anos.
Nos três capítulos, que baseamos esta resenha, José Carlos Reis, remonta ao século XIX, onde a história-conhecimento deixa de lado seu viés filosófico e torna-se “cientifica”. Esta mudança é resultado de pensadores radicais, que tinham consigo que as filosofias racionalistas e metafísicas, não revelaram nada da história, e consequentemente não servia como bem para a humanidade.
Com o estabelecimento da História-ciência deixou-se de discutir o sentido histórico e a história universal. No método cientifico, conforme mostra Reis, não se busca conhecimento de principio geral, mas sim o conhecimento das diferenças. Há um verdadeiro culto do “fato realmente acontecido”. A consciência histórica é finita, limitada. Como se trata de uma busca da realidade a História-ciência se organiza temporalmente sem se referir ao intemporal. As filosofias Hegelina e Iluminista são prontamente recusadas.
            A relação entre filosofia e história se inverte. Neste momento é a filosofia que se revela histórica. O historiador passa a ter uma nova atitude, positiva e critica. Abandona-se a ontologia e adota-se um proceder epistemológico. Passa-se a observar os fatos através de uma atitude realista. Acreditou-se que o conhecimento histórico tinha se estruturado em bases positivas ao encontrar um método seguro, objetivo, confiável, empírico.
            A seguir, José Carlos Reis, mostra como a história-ciência sofre uma poderosa derrota quando ocorre a 2ª guerra mundial. A história-cientifica que assumiu ares de salvadora da humanidade, agora é descartada como não servindo para o bem. Depois de 1945, com a Europa derrotada, com os dois novos vitoriosos a leste e oeste, que eram inimigos em uma “quentíssima Guerra Fria”, a historiografia européia tinha de se reconstruir para apoiar a Europa em sua reconstrução. A escola dos Annales era a historiografia adequada à “reconstrução da Europa”. Reis resume a importância da escola dos Annales por citar que ela foi tão revolucionária quanto à burguesia depois da Revolução Francesa, ou seja, inovava para se antecipar a mudança, mudava para não desaparecer, para permanecer.
            Por fim, Reis, passa a analisar o momento atual em que a história se encontra. Segundo ele, desde 1989, com o fim da Guerra Fria, a história mundial mudou a sua direção. A história da história se articula à história vivida. Hoje, predomina a chamada “história cultural” e as abordagens micro do social, que defendem teses como: “o sistema não existe”, “não há confrontos estruturais”, “o que os homens são é tal como se representam”, “o que o mundo social é depende das representações que os indivíduos e grupos fazem dele”, “os indivíduos se apropriam de linguagens dominantes para se integrarem à ordem” etc. A direção é: que cada um se adapte, que cada um se integre, que cada um negocie e crie estratégias para vencer, que crie novas identidades, que, se vencedoras, irão revigorar a ordem. Viva o presente e lute para fortalecer-se nele. Olhando ainda mais para os nossos dias, alguns historiadores têm formulado a existência de um pensamento pós-moderno, onde haveria uma ruptura com o projeto moderno. Esse pensamento pós-moderno substituiria a Razão e a metafísica. A história não salva e ninguém se nutre de sonhos utópicos. É real a existência desse pós-modernismo? Quais são suas reais bases? O que o futuro pode nos apontar? São reflexões feitas por José Carlos Reis e abordadas nestes capítulos que procuramos aqui resenhar.
            Vale dizer nesta resenha, que a analise feita por José Carlos Reis, demonstra de forma interessante o desenvolvimento e a queda da historiografia e consequentemente sua luta para não desaparecer, para se adaptar aos novos tempos. Ao citar filósofos de nome como: Weber, Nietzsche, Hegel, Foucault, Dilthey, Marx, P. Burke e outros; ele tenta mostrar como sua analise esta bem embasada e representa o pensamento filosófico em vigor.
            Por ter uma “vocação filosófica”, como ele mesmo refere a si, José Carlos Reis, defende em demasia o retorno da história-conhecimento, que foi utilizada amplamente no século XVIII, e que tem como meta a compreensão do mundo por meio do estudo da Razão, utilizando a filosofia como base das reflexões. Mas como diz Tzvetan Todorov: “A aquisição dos conhecimentos só faz aproximar da verdade quando se trata do conhecimento daquilo que se ama e em nenhum outro caso” (L’enracinement, p. 319). Ou seja, não se pode ter uma compreensão plena de algo se não estivermos vivendo esse algo, pois, sem a emoção, sem o sentimento da vivenciação, da experiência pessoal, tudo se degeneraria em escolástica, e assim traria satisfação apenas às instituições burocráticas, que adoram os dados quantitativos. Uma história feita em bases filosóficas, poderia se tornar rapidamente uma história empírica, o que foi amplamente criticado por Reis, quando utilizada pela história-ciência.
            Ao tecer duras criticas aos métodos científicos em que a história-ciência se alicerçou, Reis, deixou de analisar como esses métodos foram úteis em se criar uma “estrutura lógica”, fundamentada, para se fazer história. É claro que, os pensamentos de radicalistas históricos, que introduziram o pensamento cientifico e suprimiram a filosofia da história, cometeram um erro de falta de equilíbrio. Porém, Reis, cai em um erro similar ao defender a introdução da filosofia na história e a total supressão dos métodos científicos. É preciso ter um equilíbrio, utilizar o melhor dos dois mundos seria o mais sensato, é preciso evitar o radicalismo histórico.
            Eu considero a idéia do texto resenhado muito boa para a utilização nas faculdades, entre os iniciantes em graduação de história. Não é segredo que a história passou por várias mudanças e que atualmente a uma indefinição quanto ao momento em que se vive e quanto a que caminho seguir. Porém, a forma como Reis apresenta esse momento dá uma visão realista de três séculos de conflitos historiográficos. Os iniciantes de graduação em história poderão assim ter visão apurada do desenrolar histórico.
            O professor José Carlos Reis é um dos historiadores mais conhecidos no Brasil. Autor de algumas das melhores obras de teoria e historiografia (História & Teoria; A Escola dos Annales: a inovação em História; Identidades do Brasil I e II; Tempo; História e Evasão entre outros). Fez o curso de história na Fafich/UFMG (1978/81). Sua pós-graduação foi em departamentos de filosofia. Fez mestrado na UFMG, sob a orientação de Ivan Domingues, com a dissertação “Marx e a História”. Fez doutorado no instituto superior de Filosofia, da Universidade Católica de Louvain (Bélgica), sob a orientação de André Berten, com a tese “O tempo e o lugar epistemológico dos Annales”.


Silvon Alves Guimarães
“Acadêmico do curso de História da Universidade Federal de Goiás, Campus Jataí”.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Por que meu Pai entrou na Geladeira?


Geladeira! Esta sim foi uma invenção que mudou o mundo. O que seria do mundo moderno sem a geladeira? E como era o mundo antes da invenção dela? Acho que o mundo pode ser dividido em antes e depois da geladeira. Mas, se pensarmos bem, a noção de geladeira sempre existiu. Em cada época tinha a sua maneira, mas do seu jeito cada povo teve a geladeira que merecia. Eu, pessoalmente, acho a geladeira, a maior invenção do homem, superior até a descoberta do fogo, muito mais importante do que a ida a lua, só empata com a invenção da esfera de tungstênio, que são aquelas bolinhas que ficam na ponta das canetas esferográficas, que muitos chamam de Bic, e que fazem a tinta sair na medida exata para se escrever. Pense em como era difícil a escrita com as canetas tinteiros, ou com as penas... Iiihhh... A pessoa tinha que ser um verdadeiro artista.

Mas, deixando de lado as esferas de tungstênio, voltemos à geladeira, que terá logo mais sua importância supervalorizada. Estudiosos dizem, e eu não duvido, que quando os antigos romanos precisavam guardar algum alimento que necessitasse de refrigeração, como o leite, por exemplo, normalmente eles procuravam as cavernas próximas de seus domus (casa em latim). Com o passar do tempo, eles passaram a construir em suas casas, espaços destinados exclusivamente a esta finalidade, ou seja, cômodos especiais que eram covas de gelo que, em geral, ficavam próximas aos porões.

Com certeza, essas covas, nada mais eram que enormes geladeiras, capazes de armazenar suprimentos para o ano todo. As mulheres, donas de casa operosas e praticas, viam neste modelo primitivo de geladeira um empecilho muito grande, pois não se podia mudar a geladeirona de lugar e nem tão pouco lavar o congelador com a mangueira de jardim ou coisas assim.

Na era contemporânea, pode-se dizer que as primitivas geladeiras domésticas surgiram pela primeira vez nos Estados Unidos, em 1850. Elas nada mais eram do que um armário de madeira forrado de ardósia por dentro. No inverno, os blocos de gelo eram cortados dos rios e lagos congelados e armazenados nestas geladeiras.

Entretanto, foi apenas em 1910 que as geladeiras começaram a tomar a forma como as conhecemos atualmente. Nesta época, a eletricidade passou a desempenhar um papel fundamental no princípio da conservação da temperatura no interior da geladeira, assim como o freon, um composto não tóxico e não inflamável presente hoje em geladeira e aparelhos de ar condicionado.

Alguns, porém, preferem a versão de que a primeira geladeira teve sua invenção ocasionada pela cerveja. Cansados de tomar o produto quente ou no máximo em temperatura ambiente, australianos, em 1856, contrataram o também australiano James Herrison para elaborar um sistema que refrigerasse e mantivesse a temperatura do produto baixa, usando o princípio da compressão de vapor. Mas essa versão não se sustenta, quando se leva em conta que os inventores seriam australianos e não brasileiros, que são os maiores consumidores de cerveja do mundo, e com certeza inventariam qualquer coisa pra manter o produto na temperatura ideal, ou seja, pra manter a “Loira Gelada”!

Mas este não é o caso, australianos, americanos, ingleses, japoneses, ou seja, lá quem tenha inventado a geladeira, essa foi de longe a idéia mais brilhante do milênio. A geladeira deslumbrou o mundo e mudou a rotina em milhões de lares modernos. Em 1927, a “General Eletric”, lançou um modelo que vendeu de uma tacada só, mais de um milhão de geladeiras, tornando popular o produto. Outras fábricas também tiveram uma participação na popularização da geladeira, tais como a Electrolux e Frigidaire.

Na década de 70, já era um produto comum em lares de classe média baixa, Como lá em casa, por exemplo. Tem um ditado que diz que a primeira geladeira ninguém esquece, e de fato eu me lembro até hoje de nossa primeira geladeira, uma Frigidaire amarelo ouro, com seu corpinho de uns 1,30m de altura, por 0,80m de largura e 0,70m de fundura, um verdadeiro caixotinho! Mas, por favor, não deixe meu tio Dimitrius ficar sabendo que falei isso! Deus me livre! Ele é capaz de brigar comigo. Isso seria uma ofensa a sua primeira paixão. O quê? Vocês não sabiam que a Frigidaire lá de casa foi à primeira paixão do tio Dimitrius? Aliás, acho que ainda é a única paixão dele.

Foi assim, nós éramos uma grande família de oito filhos, três homens e cinco mulheres. Meu tio Dimitrius, que era o caçula da família, veio morar conosco, para terminar os estudos e conseguir um bom emprego. Meus avôs moravam na fazenda e não queriam que o tio Dimitrius seguisse o mesmo caminho deles, ou talvez tenha sido o tio Dimitrius que não tivesse vocação pra trabalhos na fazenda... Não sei ao certo, mas o fato é que ele morava conosco por ocasião da compra da “Gertrudes”, nome carinhoso com que meu tio Dimitrius batizou a nossa primeira geladeira Frigidaire.

Foi paixão ao primeiro gole de água gelada! Ela era um sucesso! Mas, paixão por uma geladeira convenha que não fosse muito normal, e isso causou muitos problemas de relacionamentos na vida do meu tio. Em primeiro lugar, a paixão que ele sentia não era correspondida. A “Gertrudes”, por mais empatia que sentisse pelo tio Dimitrius, não deixava de sentir o mesmo por outras pessoas. Ela era sempre tão solícita, tão atenciosa, fornecia água gelada para todos e isso deixava o tio Dimitrius muito triste.

Também, sempre que meu tio tentava se aproximar de uma garota, ele começava a tratá-la como se ela tivesse que ser ligada em 220 v, e que fosse capaz de gelar água, uma loucura! As meninas, claro, pegaram trauma do tio Dimitrius, algumas tiveram que até fazer tratamento com psicólogo. Nem preciso dizer que meu tio nunca se casou e nem sequer arrumou namorada até hoje, e olha que ele é bem afeiçoado e educado.

Além do tio Dimitrius, toda nossa família tinha uma verdadeira admiração pela “Gertrudes”, nós crescemos tendo ela como referencial, ela influenciou nosso aprendizado e nos proporcionou muitos momentos felizes.

Lembrei-me de uma ocasião, que minha irmã caçula, de apenas quatro anos de idade, sumiu... Simplesmente não a encontrávamos em nenhum lugar, foi um desespero total. A criançada correu por toda a vizinhança, o tio Dimitrius desceu ao centro da cidade, com medo de que alguém a tivesse raptado. Na vizinhança, não a encontramos. Próximo de casa tinha muitos lotes vagos e o capim crescia muito, era uma verdadeira savana africana, eu e meus irmãos brincávamos muito ali, fazíamos trilhas, esconderijos, e nossa imaginação corria solta, imaginávamos estar na África e tínhamos que enfrentar vários animais perigosos. Uma aventura e tanto.

Rapidamente percorremos todas as trilhas, fomos a todos os esconderijos, e nada de encontrar a caçulinha. Onde teria se metido essa menina? Meus pais fizeram uma minuciosa procura em casa e também no quintal, mas nem sinal dela. Procuraram até no galinheiro, aonde todos os dias ela ia com minha mãe pra pegar ovos. Ela simplesmente não estava em nenhum destes lugares.

Todos nós, a criançada, o tio Dimitrius, meus pais, nos encontramos, em nosso Quartel General, na cozinha, ao lado da Gertrudes, para decidirmos o que fazer, e quão grande foi nossa surpresa quando o tio Dimitrius abriu a geladeira para pegar água e quem estava lá dentro? A própria caçulinha. Uuufffááá!!! Que alivio sentimos! Na correria, no desespero, ninguém prestou atenção que o nosso cachorrinho, o Xampu, estava o tempo todo ao lado da “Gertrudes”, ele não larga da minha irmã caçulinha. Com certeza ele viu quando ela se trancou na geladeira e ficou ali esperando ela sair e também para nos avisar que ela estava ali. Foram só risadas. Mas ninguém conseguiu até hoje explicar como uma criancinha de quatro anos conseguiu se trancar em uma geladeira, com uma porta tão pesada como a “Gertrudes”.
No começo dos anos 70, a geladeira chamava tanto a atenção das pessoas em nossa pequena cidade que alguns chegaram ao ponto de venderem gelo às crianças que não conheciam ou que não tivessem geladeiras. No país inteiro a popularidade da geladeira era enorme. Fizeram até uma música falando sobre a capacidade de fazer gelo da geladeira, era um dialogo entre pai e filho que dizia assim:

_ Tu tá comendo vidro, minino?
_ Não pai, eu tô chupando é pedra d’água!
 _ Joga esse troço fora, que isso dá dor de dente.
    Uma vez eu peguei numa, minha mão ficou dormente.
    Botei ela dentro do saco, veja só o que aconteceu,
    Molhou toda a farinha, viu?
    Fez a arte e sumiu.

Nós, lá de casa, achávamos muito legal essa musica que em partes era um elogio a inovação que trouxe a “Gertrudes”, quer dizer a geladeira.

Em 1982, durante a copa do mundo, realizada na Espanha, o Brasil comandado por Telê Santana, tinha um time que encantou o mundo com jogadores tais como: Zico, Sócrates, Falcão, Éder, Junior, Leandro e Cerezo. Contudo, quão grande foi a nossa decepção, quando um tal de Paolo Rossi, italiano, desclassificou o Brasil.

Meu pai, coitado, um torcedor fanático, ficou tão decepcionado que se trancou dentro da geladeira. Isso mesmo! Ele tirou as prateleiras de dentro e entrou lá. E o pior é que a geladeira estava ligada. Talvez meu pai quisesse apenas esfriar a cabeça. Mas, acho que ele, igual ao tio Dimitrius, via na “Gertrudes”, uma fonte de consolo, ela era uma mãezona, para eles. Mas, vou te contar, deu um trabalho pra tirar o velho lá de dentro, viu?

Recentemente eu estava vendo um noticiário que me fez lembrar este episódio. Um americano de nome David Horvitz, criou uma espécie de “seita virtual”, dos “cabeça dentro da Geladeira”. No dia 9 de abril, Horvitz tirou uma foto com a cabeça na geladeira e a publicou no Flickr.  No dia seguinte, ele divulgou o “manifesto” em seu blog: “tire uma foto de sua cabeça dentro do freezer. Publique a foto na internet. Marque o arquivo com o número 241554903.” Pronto! Bastou isso e milhares de pessoas se tornaram seguidores dele.

Dizem que a idéia surgiu quando Horvitz sugeriu a uma amiga que não estava se sentindo bem que colocasse a cabeça no freezer. Daí, tudo começou! O que Horvitz, não sabe é que quase trinta anos antes dele, meu pai já tinha tido essa idéia, não a de colocar a cabeça na geladeira, mas de entrar todo dentro dela. Será que a gente se sente melhor, mesmo? Se você experimentar me avisa, tá? Confesso, que até hoje meu pai não me falou.

São tantas histórias que eu poderia contar da nossa primeira geladeira, que vocês não fazem nem idéia. Ainda hoje, meus pais conservam a velha “Gertrudes”, embora agora ela fique relegada a um cantinho solitário na área de serviço. Cada um dos oito filhos seguiu seu caminho, moram em suas casas próprias e tem suas geladeiras. Nunca nenhum de nós esquecerá essa maior invenção do homem, a geladeira.

Ah! Deixa eu te falar, minha mãe me ligou agora a pouco e me disse que o tio Dimitrius arrumou uma namorada. Sério! Ele vai levá-la pra conhecer minha mãe e meu pai. Sabe qual é o nome dela? “Gertrudes”.

Por: Silvon Alves Guimarães
http://silvonguimaraes.blogspot.com

VIGIAR E PUNIR. MICHEL FOUCAULT. RESENHA

Michel Foucault Vigiar e punir – Nascimento da prisão FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir : nascimento da prisão; tradução Raquel Ramalh...