segunda-feira, 9 de julho de 2012

Coração Alado


Eu tenho sonhos, e neles te vejo... Sempre!

Vejo-te sempre em meus sonhos como uma pomba branca que vem comer em minhas mãos. Essa imagem que tenho de ti, me agrada me faz feliz, porque te vejo em minhas mãos, tão tranqüilo, toda branca, com um arrolhar suave, enquanto eu, calado, apenas me atrevo a te olhar, apenas respiro quando esta bem perto. Por várias vezes quis que minha mão livre te buscasse e tocasse suas penas brancas, mas me detive por medo de assustar-te e lamentando, não te toquei! Nem uma só vez!

Como Estou? Como esta minha mão, aquela que dava de comer? Deveria ter fechado minha mão e não te receber? Deveria ter te assustado, ter te tocado? Mesmo hoje não sei dizer. Deixastes de estar em minhas mãos e hoje me encontro só, com as mãos vazias. Por quê?

Nunca poderei saber... só sei que hoje não sou mais o mesmo, passou muito tempo, me falta algo, eu sinto, eu sei cada vez que vejo perto de mim uma pomba branca voando, minha mão quer voltar a abrir-se, acreditando que te vejo, num impulso de nostalgia e saudade, desejando que venha novamente para minhas mãos e como antes me faça sonhar. Mas é tudo em vão, já é tarde, já não pode ser... E fico com o braço extendido, só, triste, recordando!

De repente, me sinto revoltado, protesto, me queixo pra ninguém e começo a gritar desesperado, sinto que nada irá me consolar, aperto os punhos com raiva, renego meus sentimentos e começo a perguntar-me: Por quê existe sentimentos tão profundos? Por que existem pombas brancas? Por que tem que haver mãos que se fecham?

Não sei. Só sei que houve uma pomba branca em minha vida, que comia em minhas mãos, que essas mãos se fecharam uma vez e desde então vivo só, com uma só pergunta a me afligir, uma pergunta que nada me diz, mas tanto me tortura: Por quê?
Não sei. Nunca hei de saber. Seguirei minha vida recordando-te, não podendo te esquecer, nem querendo te esquecer. Seguirei perguntando-me enquanto estiver vivo: Por que tem que haver pombas brancas? Por que sentimentos profundos? Por que mãos que se fecham? Por quê? Por quê? Por quê? …





Recordações


Sempre me lembro de você, não posso te esquecer... Nem querendo!
Há muitos pensamentos em minha mente e necessito pensá-los para colocá-los em ordem, quando os pensamentos estão entrelaçados, quando ajuntam em uma forma tão carinhosa e complexa, é necessário voltar ao começo de tudo e ali me deixo ir, para que tudo comece de novo, em ordem... Recordando!

Recordar é uma forma de querer que tudo se repita. Porém, se tudo se repetir, se voltarmos a viver tudo novamente, ainda que somente uma segunda vez, nada mais do que uma segunda vez, correremos o risco que, por repetir tudo, tudo posso se tornar comum, e tudo que vivemos, não foi nada comum.
Voltaremos a viver tudo outra vez? Não!

Entre nós houve sentimentos tão ternos, tão carinhosos, que não deveriam nunca serem despertos, nem por uma vez sequer, deveriam ficar pra sempre no mundo das ilusões, pois assim não fariam sofrer e nunca teriam fim. Mas, tudo aconteceu. Todos os sentimentos existiram para que pudéssemos recordar e por mais triste, por mais amarga, por mais que faça sangrar, é uma recordação minha... Nossa!

Acaso não é melhor recordar sempre o que se viveu, do que voltar a viver sempre o que se recorda?
Prefiro recordar, porque sei que a intensidade de minhas recordações são garantias de que um dia, nós, vivemos um grande amor, hoje distante, mas sempre presente em meus pensamentos... Não posso esquecer!

Há coisas que nunca morrem, não devem morrer. Apegamos-nos a elas e as levamos conosco, como que gravadas em nosso peito, em nossa mente, ainda que doam que façam sangrar, que provoquem um temporal, são capazes de nos dar paz, são capazes de nos fazer sonhar. São sonhos, nada mais!

terça-feira, 3 de julho de 2012

Nietzsche e a imoralidade da moral cristã


“É preciso destruir a moral para libertar a vida”. (Nietzsche, Vontade de Poder, vol. I)
            Para Nietzsche todo e qualquer sistema moral (há morais e não a moral) é determinado por um conjunto de instintos que se definem em dois tipos: afirmativos e glorificadores da vida ou negativos e caluniadores. A moral, seja ela qual for, tem um fundamento psicofisiológico, ou seja, é a partir do corpo do sujeito que julga e da forma como este com aquele se relacionam que se constitui a perspectiva sobre a vida chamada valor. A moral, nas suas diversas formas, é manifestação ou sintoma de uma determinada espécie de vida: ascendente ou descendente.
Quando Nietzsche usa o termo “Destruir a moral”, ele quer dizer que se deve destruir certa espécie de moral, deve-se mostrar a sua imoralidade, deve-se mostrar que moral é falsa e que ela foi cria ou inventada para satisfazer os instintos de ódio, vingança e ressentimento que são em si, contraditórios aos próprios princípios pregados pela moral. “Libertar a vida” significa libertar certa forma de vida de uma moral que a intoxica, a denigre e impede a sua plena manifestação.
            Os Gregos na sua filosofia deram inicio a esse pensamento racionalista que se desenvolveu até chegar a essa forma Ocidental de pensar. Mas Sócrates e Platão são apenas o começo — o que já não é pouco — dessa interpretação racionalista ou idealista (débil) da realidade. É o cristianismo que vai adaptar, desenvolver e popularizar o legado socrático-platónico.
Nietzsche diz que aquilo que o Ocidente se acostumou a considerar como a verdadeira realidade, que na linguagem cristã terá o nome de “reino de Deus” ou “vida eterna”, é ao final a miserável invenção de vontades fracas e impotentes, o produto do delírio doentio daqueles que nada mais são do que realidades falhadas, seres impotentes e débeis. Poderíamos comover-nos com este desejo de estabilidade e de paz, mas, o “outro mundo” não é inventado simplesmente para consolar, mas para satisfazer uma vontade de vingança, um ressentimento mesquinho em relação ao único mundo real.
A moral cristã é, para Nietzsche, a forma acabada de decadência, de promoção de instintos baixos e nocivos a uma relação saudável com a vida. Através do platonismo foi criado o dogma do “pecado original” para transformar em “mau” o que é saudável e que corresponde aos instintos primordiais da vida. O ódio ao sensível é o seu “ideal”.             

Débeis mas astutos, os padres intoxicaram com a ficção do “pecado original” todos os homens: fracos e fortes. Fizeram com que os fortes avaliassem a sua força inocente na perspectiva dos fracos, tornando-se assim culpados. Em conseqüência deste pensamento “há vergonha em ser feliz no meio de tanta desgraça”. Os pais se sentem culpados de que seus filhos tomem três refeições por dia, enquanto crianças na África passam fome. A partir do momento em que o forte se rende ao juízo do fraco, pensando “Tu és mau, logo eu sou bom”, dá-se o triunfo da “moral” dos fracos, a baixeza transforma-se em nobreza. O cristianismo perverte o significado da palavra “bom”. Esquece-se de que a palavra “bônus” em latim significava também “o guerreiro”. A resignação e a renúncia tornam-se virtudes.
São valores antinaturais que acabam por triunfar através da casta sacerdotal (dos padres), que vão erigir como verdadeira moral o desprezo por tudo o que é sensível e natural, acabando por intoxicar com essa mensagem o homem ocidental. Enquanto o homem não se aperceber de que o “outro mundo” nada vale e que só este é que conta, a sua relação com a vida será doentia, enquanto o homem não se aperceber de que onde cresce a dor e o sofrimento também crescem a felicidade e a alegria, continuará a ser uma realidade doente.

VIGIAR E PUNIR. MICHEL FOUCAULT. RESENHA

Michel Foucault Vigiar e punir – Nascimento da prisão FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir : nascimento da prisão; tradução Raquel Ramalh...