quinta-feira, 23 de agosto de 2012

A Curiosidade Matou o Gato


Sofia, impaciente, perambulava pela casa enquanto o técnico instalava o seu novo olho mágico. O olho mágico anterior, não era tão avançado quanto este, lhe permitindo ver somente até a porta em frente, onde vivia Jonas, um aborrecido viúvo, pensava Sofia.
Uns dias antes, Sofia havia escutado as vizinhas conversando no corredor. Elas comentavam sobre uma formosura de mulher que havia se mudado para o 3º D. Sofia se deu conta imediatamente que se tratava do apartamento ao lado do seu, e reparou no tom empolgante com que as vizinhas haviam dito “formosura”.  Sofia completava 50 anos e já fazia uns 20 anos que raramente saia de casa, tudo por conta de uma fobia que desenvolvera, ela tinha pavor de deixar seu apartamento, temia tudo, era como se o mundo lá fora lhes fosse letal, só se sentia protegida dentro de casa. Se não saía de casa, tampouco falava com alguém, com exceção de Valdemar, seu santo marido. Homem único, ele era a bondade em pessoa, católico ortodoxo e suportava as fobias e as manas de Sofia sem nunca ter reclamado, sempre firme, meigo e carinhoso, muito carinhoso. Valdemar não era dado a vícios, era um trabalhador incansável e fiel como nenhum outro no mundo. Sofia sentia que tivera muita sorte de encontrar um homem assim. Mais do que amor, Sofia tinha uma verdadeira devoção por Valdemar.
___Senhora, já está pronto! __gritou o técnico.
            Sofia se aproximou emocionada, ansiosa, definitivamente o olho mágico era sua única janela para o mundo.
___E você me garante que com esse olho mágico eu poderei ver todo o corredor?
___Sem dúvida, olhe e comprove a senhora mesma.
            Com o coração acelerado aproximou-se, levantou-se um pouco, porque era de baixa estatura, e colocou seu olho naquele instrumento tão moderno.
___Maravilha! __exclamou.
___Eu lhe disse, é um pouco caro porque é importado dos Estados Unidos, mas é de uma visibilidade total. Bom, já vou indo. Se a senhora tiver algum problema é só me avisar. Até logo.
            Sofia se despediu do técnico e foi rapidamente para trás da porta, estava feliz e desejosa de saber o que acontecia no 3º D.
            Durante vários dias não viu nada. Ninguém entrava nem saía. Certa manhã, sem esperar, conseguiu ver uma garota. Mas... formosura? Onde estava esta formosura toda, como haviam dito as suas vizinhas... Era uma mulata, mas sem essa pompa toda que haviam dito. Altíssima, cabelos encaracolados. Vestia um short curto, curtíssimos, deixando amostra um interminável par de pernas cor de chocolate com leite e na parte de cima uma camiseta amarrada, deixando a mostra sua barriga carente de gordura e estrangulando seus grandes peitos.   Sofia se retirou do olho mágico assustada, confusa com aquela visão. A mulher não tinha formosura... Estava mais pra uma piranhinha de quinta categoria, pelo menos foi isso que ela pensou. Purificou-se muitas vezes e rezou com devoção, o demônio havia se instalado no seu prédio.
            Passaram-se os dias, Sofia não conseguia esquecer o que havia visto. Não se atreveu, no entanto, a contar a Valdemar, não quis escandalizá-lo. Ele não estava acostumado com aquelas coisas e também conversará com ela, lhe disse várias vezes que não era uma atitude cristã ficar espiando os vizinhos pelo olho mágico, isso era pecado. Ela tentava distrair-se com seus afazeres, mas a cada dois ou três dias olhava por aquela janela mágica que tanto lhe tentava, resistia, encomendava-se para todos os santos e novamente repetia o ato insensato de espionar pelo olho mágico.
            Uma noitinha, enquanto assistia à novela na TV, pareceu escutar vozes no corredor. Sua primeira intenção foi sair correndo até o olho mágico, mas se controlou. Não podia fazer aquilo. Poucos segundos depois, as risadas que ouvia, foram lhe atiçando a curiosidade até que não mais resistiu. Com uma ponta de medo e curiosidade se levantou, chegou-se ao olho mágico... e... Ali estava Valdemar, o seu Valdemar, seu SANTO Valdemar; abraçado com a mulata, com as mãos correndo em seu corpo moreno e estacionando em seus seios grandes. O coração de Sofia deu um arranco e parou. Caiu ao chão, desacordada. O barulho alertou a Valdemar que se apressou a abrir a porta. Esticado no chão, inerte, estava o corpo sem vida de Sofia.
___A curiosidade matou o gato __disse Valdemar se dirigindo a mulata ___ Seu plano saiu uma perfeição, até que enfim me livrei desta cruz.
___Eu te disse meu amorzinho, era infalível...

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

...Sobre Calor e Loucura.


Ele sempre teve problemas com os contrários... Bruce, não conseguia entender muito bem o porquê de existir opostos, o branco e o negro, o bom e o mal, o doce e o salgado, o claro e o escuro, alegre e triste, frio e calor, amor e ódio... Tudo isso fazia sua cabeça rodar e rodar... E como que preso em uma melodia telefônica interminável vinha àquela ânsia de tirar aquilo da cabeça.
Bruce fazia sempre o contrário do que lhe diziam. Tinha sempre uma resposta negativa sobre todos os questionamentos da vida... Talvez assim pensasse que pudesse ser um espírito livre, vivendo sempre as margens das normas que a sociedade tentava lhe impor... Sentia mesmo que era diferente, que não pertencia aquele lugar, que não conhecia aquele mundo... De fato, o seu mundo, era só seu... O seu mundo era extraordinário, onipotente, delirante, apaixonante... Mas era só seu aquele mundo.
Bruce vivia em um palácio de gelo, enquanto lá fora, longe de sua esfera, a realidade alcançava quarenta graus, em um calor causticante, sufocante, capaz de derreter qualquer traço de compaixão e misericórdia que talvez ainda restasse aos pobres e insensatos seres do calor, que vagavam sem uma esperança, como almas penadas no calor abrasador do seol.
Protegido por um grosso cassaco de lã, com um gorro a cobrir sua cabeça e orelhas, luvas nas mãos, solitário e pensativo, Bruce vagava pelas ruas desertas, nas horas de maior calor. Sempre ao seu lado havia uma linda senhora vestida de branco, com um andar gracioso, mas que só fazia parte de sua imaginação... Ou pelo menos aquela doce criatura não quisera sair da proteção do palácio de gelo para se perder em um mundo que se esqueceu de tudo que se passou... A linda mulher de branco trazia sempre consigo um raio de sol e queria ser recebida no palácio de gelo. Bruce sabia, no entanto, que não poderia convidá-la a entrar, pois se isso acontecesse com certeza seu mundo seria destruído, toda sua proteção e refrigério cessariam de vez.
As explicações, longas explicações, já não convenciam mais aquela linda mulher que vestia branco e portava sempre um raio de sol... Restava a Bruce uma alternativa, somente uma alternativa,...  Ele então correu com todas as suas forças, correu como quem quer alcançar um rápido antílope, correu como quem é livre, como quem busca a paz...
Ao cair à noite um casal de idosos, que passeavam pelo parque, encontraram Bruce, caído junto a uma fonte quase seca, desidratado, abandonado, moribundo. Com uma fagulha de voz, de uma boca semicerrada e ressequida, ainda puderam ouvir um sussurro que dizia: “Não deixe que me apliquem a Injeção...”

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A Morte do Zé Arara


A Morte do Zé Arara[1]
A viola produzia sons desvairadamente fortes, agitada pelos grossos dedos do Aniceto.
E logo em seguida uma estrophe bem rimada elle atirava aos ouvidos dos seus companheiros de festa.
O sapateado daqueles filhos do sertão fazia um barulho ensurdecedor, e as palmas batidas ao mesmo tempo e sem discrepância de compasso, produziam echos que se perdiam pelas quebradas das mattas.
O Germano com uma toalha enrolada no pescoço trazia uma peneira transbordando de grossos e amarellos biscoutos de polvilho, que elle ia oferecendo aos convidados.
Todos se regosijavam na festa de S. João, naquelle dia.
Só o Zé Arara não parecia estar tranqüilo!...
O seu insticto perverso e a sua má conducta o tornaram um rapaz desconfiado.
A sua ousadia o fazia temido pelas famílias honestas.
Os homens o detestavam, porque sabiam que elle, por sua brutalidade, coragem e valentia era, capaz de fazer saltar os miolos do seu próprio pae, se este tentasse contrariá-lo.
Por felicidade não tinha matado o Jeronymo do Miguelinho, com quem tivera uma discussão por causa de uma linda mocinha, por quem ambos estavam perdidos de amores.
Porem ella só correspondia ao Jerominho (como ella o chamava) rapaz de bons sentimentos e que pouco apreço dava a sua vida, em se tratando da defesa da sua honra ou daquelles por quem tinha verdadeiro afecto.
E naquella noite, os dous mais aterrados inimigos daquella zona deviam se encontrar e ao Zé Arara quando tinha ódio ninguém era capaz de tolher o caminho.
Súbito, ouve-se um tiro e mais outros, sendo respondido pelo festeiro, que não queria ficar queimado.
O Jeronymo estava chegando.
Conforme o uso da terra, aquelle que desse o último tiro entre festeiro e recém chegado, ganhava o combate e era isto motivo de bastante alegria.
O Jeronymo não queria perder naquelle dia.
E de fato os últimos três tiros foram dados por elle e o Zé, que aguardava aquelle momento para o desenlace de sua questão, julgando-o desprevenido, foi logo lhe atirando palavrões insultuosos esquecendo-se talvez de que todo homem sertanejo nunca esquece em casa a larga e afiada faca.
O Jeronymo, de um salto, enterrou a sua até ao caba no peito do seu inimigo, dizendo ao mesmo tempo: “Toma e vae sombrá o Zidoro”!...
Elle dava já os últimos suspiros na ancia da morte.
Todos os seus inimigos presentes detonavam sobre seu corpo as suas armas.
A Onça daquelas redondezas não tivera tempo nem sequer de sacar a sua velha e inseparável chumbeira.
Uns trinta tiros elle havia recebido na cabeça quando um dos seus mais acérrimos inimigos, que estava na cosinha, ouvindo os tiros e gritos, correra para a porta da tolda gritando ao mesmo tempo: “Não atira no falo do bicho qu’eu quero o cuaio”. .......................................
No outro dia, ao romper d’aurora, dous negros atiravam o corpo do Zé Arara em uma sepultura feita a margem da estrada, à beira da mais próxima cabeceira.
É verdade, compadre João, dizia um delles, este rapais foi um doido maginava que podia cum todo mundo!...
Ora ocê já num viu falá que nunca viu arraia de valente e que sipultura tem muita?...
O echo das últimas palmas do cateretê ainda se fez ouvir naquelle momento.
Rio Verde, 26-7-1922


[1] Extraído do periódico “O Picapau”, da cidade de Jataí, publicado em 6 de agosto de 1922.

VIGIAR E PUNIR. MICHEL FOUCAULT. RESENHA

Michel Foucault Vigiar e punir – Nascimento da prisão FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir : nascimento da prisão; tradução Raquel Ramalh...