sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Nietzsche e a Moral Cristã – A Interpretação Dominante do Mundo Ocidental


A moral cristã é produto de um determinado tipo de homem, um homem: fraco, incapaz de assumir a vida na sua complexa união de sofrimento e prazer, criação e destruição, nascimento e morte, horror e alegria. O que Nietzsche, em geral, critica nessa moral é o fato de ela corromper e atrofiar a vida humana. Eis os pontos essenciais da sua crítica:
  • A moral cristã é decadente porque dignifica os falhados da vida.
  • É imoral porque transforma em dever a vontade do nada, a negação da vontade de viver plenamente “esta vida”.
  • É criminosa porque declara que é preciso matar as paixões, os instintos. Esta moral é antinatural, declara guerra à natureza.
  • É doentia porque exige como condição da santidade, a mortificação e a crucificação da vida, do corpo.
  • É dualista porque é baseada na proliferação das antinomias: alma-corpo, aquém--além, céu-terra, profano-sagrado, etc. Este dualismo é empobrecedor porque transforma um dos termos, que é ilusório e fictício, em realidade, para tentar reduzir a nada o outro termo, que é real e efetivo.
  • É profana, não sagrada, porque declara como baixo aquilo que é supremo: o sim à vida na sua totalidade. Profana “esta vida” e proclama sagrado o que deriva desta profanação.
  • É niilista porque visa negar esta vida e este mundo. Nietzsche diz que o mundo que se inventou para dar um sentido a “este mundo” é um contra-senso porque não se dá sentido a este mundo negando-o e caluniando-o.
A Moral Cristã pretende ser uma moral de salvação, mas a “salvação” é a suprema perdição porque implica a mortificação, a castração dos instintos superiores de vitalidade. “Salvai-vos!” significa “Afundai-vos!”, “Perdei-vos para esta vida porque ela não merece ser vivida por si”. Há algo de fúnebre nesta receita “salvadora”.
Como é que esta visão moralista da realidade se tornou dominante? Como é que a moral que nega a vida, a moral dos fracos e vingativos, a moral cristã, se tornou a moral do homem ocidental? Como pode o fraco dominar o forte? Fazendo com que este prefira o que lhe é desfavorável, ou seja, conduzindo-o à depreciação dos instintos que o definem como forte. Numa só palavra, intoxicando-o, fazendo-o sentir a sua exuberância, a sua esplêndida harmonia com o caos da vida, como pecado, como privilégio indevido.

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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Nietzsche e o Padre Ascético – o agente da Intoxicação e da Corrupção Generalizada da Vida


No princípio era a força bruta, a bestialidade. A violência pura e simples presidia às relações entre os homens. Os senhores primitivos manifestavam o seu ser na dominação brutal e selvagem dos que a eles se submetiam. Era o reino do ferro e do sangue, da pura força instintiva. Como se dá a passagem do estado animal ou estado natural ao estado social?
Os mais fortes, os dominadores, os conquistadores, constrangem os mais fracos a respeito de determinadas regras de vida. A força fez deles organizadores natos. A organização das relações sociais não nasce, portanto, de um contrato, mas sim de um constrangimento. A lembrança do ferro e do sangue transforma os fracos em seres obedientes, capazes de obedecer, força-os a criar a consciência do dever. O temor da punição obriga o fraco a renunciar à satisfação imediata dos seus desejos, a respeitar a ordem estabelecida pelo forte, a saber, cumprir as exigências da vida social. Esta repressão dos instintos, necessária à organização da vida em sociedade, está na origem da “má consciência”. Ela surge primeiramente no fraco, no escravo, que, incapaz de se impor ao senhor, interioriza a sua agressividade, dirige-a contra si mesmo, recrimina-se, sente como uma “falta” a exteriorização e expansão dos seus instintos. Os senhores estabelecem o seu ser como ponto de referência de toda a ação e de toda a valoração. O que entrava a afirmação do seu ser e do seu agir é considerado “mau”. A sua moral baseia-se no orgulho, na independência a respeito de toda e qualquer norma exterior. A dúvida - será que estou a proceder bem? - não faz parte da sua moral. Esta consiste na criação de valores que se fundam na espontaneidade agressiva da sua ação, uma espontaneidade que não sabe o que é a falta. Confiantes, inocentes opressores - porque não sabem o que é a “falta” -, são violentos nas suas obras e nos seus gestos porque a natureza assim faz os fortes e os senhores.
Das considerações já expostas podemos perspectivar o tipo de operação que permitirá ao fraco submeter o forte: dar a este má consciência, ou seja, impedi-lo de satisfazer os seus instintos agressivos, conduzindo-o à introversão, à interiorização dessa agressividade.
Contudo, para que isso aconteça, o conceito de “má consciência” vai sofrer uma transformação religiosa: nascendo no escravo como consciência de estar em falta quando não cumpre a ordem estabelecida pelo senhor, a má consciência vai transformar-se em pecado, em falta livremente cometida contra a vontade de Deus. Veremos que a tentativa de generalização da má consciência, entendida como consciência pecadora, é a forma de o ressentimento característico do escravo triunfar. O fraco vive ao mesmo tempo a experiência da interiorização, da introversão dos seus instintos, e a do ressentimento, da inveja daquele que é e age plenamente. Trata-se de envenenar o forte, intoxicá-lo aproveitando de algum modo o abalo que nele provoca a passagem brusca do estado animal ao estado social. Com efeito, a vida em sociedade determina que no forte a consciência gradualmente se imponha ao instinto como princípio do agir. A entrada em sociedade é uma armadilha para o forte. A perda da inocência que progressivamente se verifica conduzirá ao extremo da consciência de si como pecador.
O agente, o promotor desta intoxicação, segundo Nietzsche, é o “padre ascético”. A sua ação é complexa, pois capta o ressentimento da massa dos fracos, inverte a direção deste ressentimento - assim surge a má consciência como pecado - com a finalidade de sutilmente contaminar os fortes e sãos, que sentem alegria e empenho em viver. Desmontemos, nos seus momentos essenciais, este processo:
a) A fase do ressentimento
O ressentimento surge naquilo que Nietzsche chama de “fase judaica da moral ocidental”. Os judeus representam, em termos históricos, a figura da revolta contra os senhores. Os judeus são, não por determinismo genético, mas por conjuntura histórica, o “gênio vingativo” por excelência. Tendo a sua raiz num tipo de vida enfraquecida, débil e impotente, o ressentimento exprime-se do seguinte modo: aquele que é forte é a causa da minha fraqueza, aquele que afirma a vida é a causa do meu desgosto dela. Em suma: “Eu sofro, logo a culpa é deles”. (Nietzsche, A Genealogia da Moral, vol. III)
b) A mudança de direção do ressentimento
Corresponde à fase propriamente cristã da moral, à valorização do espírito e à desvalorização do corpo. A mudança de direção do ressentimento consiste na sua interiorização. O padre ascético transforma o “Eu sofro logo a culpa é deles” no “Eu sofro logo a culpa é minha”.
“Eu sofro: alguém deve ser a causa — assim raciocinam todas as ovelhas doentes. Então, o pastor, o padre ascético, responde-lhe: — É verdade minha ovelha, alguém deve ser a causa disso: mas és tu, tu mesmo, que és causa de tudo isso”. (Nietzsche, A Genealogia da Moral, vol. III)

Perguntando pela causa do seu sofrimento, o fraco procura, perante o seu pastor, um responsável para se vingar. Baseado no dogma do pecado original, o “padre ascético” diz-lhe que o seu sofrimento é o resultado de um castigo divino provocado por uma falta livremente cometido contra a “Sua Vontade”. Ao homem doente que procura uma explicação para o seu sofrimento, um sentido para a realidade, o padre ascético pinta o quadro de uma humanidade enraizada no mal, infeliz, porque originariamente pecadora. A sua capacidade em compreender o pessimismo, o desencanto do fraco, é profunda: o ódio a esta vida, determinado pela incapacidade de dela triunfar, só poderá ser aplacado com a invenção de um reino onde todos os males serão curados.
 Encarnação do desejo de viver noutro lado, no Além, ou seja, do ideal ascético, o padre, o pastor do enorme rebanho dos falhados, acrescenta ao dogma do pecado original o dogma da redenção dos pecados. De algo que simplesmente destruía o sofrimento torna-se meio de salvação ou redenção. Do “Eu sofro” passamos ao “Eu quero sofrer”, esta vida é um “vale de lágrimas”, mas devemos suportá-la para merecer a outra vida, a “verdadeira vida”. O “padre ascético” declara o homem radicalmente culpado, fala seriamente de um Deus juiz, que pune e castiga o pecado e que exige submissão e obediência.
c) A contaminação dos fortes
A má consciência, a consciência de si como pecador, apesar de poder parecer o contrário, não favorece os senhores, melhor dizendo, não conduz os escravos à humildade e obediência. Estas agora só têm sentido perante Deus, aquele perante o qual, como ensina o padre ascético, estamos em falta.
O ressentimento, a vontade de vingança e de triunfo sobre os valores dos fortes, é o que determina a intervenção do pastor do rebanho dos fracos. A má consciência - o sentir-se culpado, originariamente culpado - acaba por envenenar o forte, que, na passagem à civilização, à organização social, vê progressivamente a consciência sobrepor-se ao instinto. Da consciência passa-se à má consciência. De orgulhoso nos seus instintos agressivos e sãos, o forte, impressionado com o semblante sério e com o aparente autodomínio do padre ascético, passa a sentir-se culpado, a perder a confiança nos seus valores. O poder espiritual do pastor abala a confiança que ele tinha em si e no seu corpo e, julgando o seu privilégio o resultado de uma, qualquer, ação maldosa ou faltosa, o forte é enfraquecido pela culpabilidade. “Há vergonha em ser feliz perante tanta miséria e sofrimento”. (Nietzsche, A Genealogia da Moral) 
O padre ascético é o agente da intoxicação e da corrupção generalizada da vida. É um fraco, um homem que, consumido pelo desejo do Além, despreza esta vida, julgando-a inferior, mas é também determinado pelo desejo de exercer um ascendente sobre os homens.
É essa vontade de domínio que o liga à terra. O pecado e o ressentimento dos “pecadores” a respeito desta vida são os “filões” dos quais não pode prescindir. Só pode conservar o seu poder envenenando, ao mesmo tempo em que cura. “Os teus pecados estão perdoados, mas tu continuas a ser, em virtude do Pecado Original, um pecador”. Tornados todos os homens pecadores, o padre ascético está em condições de exercer o seu domínio sobre os homens. Ele tem a receita que visa salvar os pecadores da perdição. Essa receita de salvação é a moral cristã.
A vitória do ideal ascético, a venenosa transformação do homem em pecador e em penitente, corresponde a uma perversão da moral dos nobres, dos fortes; transforma-se em virtude a incapacidade de viver, a renúncia à vida, considera-se forte aquele cuja alma, desejosa de comunhão com Deus, luta penosamente contra os instintos, as paixões, contra o corpo.
Os valores resultantes desta inversão perversa são determinados pela vontade de poder vingativa dos falhados e invejosos, conduzidos pelos inimigos mais maldosos da vida: os padres. O que era considerado bem se torna mal. A força, a agressividade tornam-se injustiça, a coragem dos fortes torna-se brutalidade, a sua alegria de viver, gozo egoísta e deboche. Exalta-se a fraqueza, a impotência, a mansidão.
Infiltrando a ideia de pecado original na consciência humana em geral, fazendo de cada homem um pecador que deve penitenciar-se mediante a luta contra os afetos, as paixões e tudo o que o prende à terra, ao sensível, o padre ascético homologa o ressentimento dos fracos e faz com que os seus valores triunfem. Apresentando uma doutrina que corresponde à vontade de vingança dos doentes e dos vencidos da vida, o austero pastor satisfaz ao mesmo tempo a sua vontade de domínio sobre a vida dos homens. São estes impotentes astutos, estes homens cansados do real e intoxicados de Ideal, que determinam a figura que o homem ocidental, segundo Nietzsche, apresenta.
“Homens não suficientemente aristocratas para perceber a hierarquia dos seres e o abismo que se estende entre um homem e outro, eis os homens que, com a sua 'igualdade perante Deus', reinaram até aos nossos dias sobre o destino da Europa, até finalmente obterem uma espécie em estado de menoridade, quase risível, um animal gregário, qualquer coisa benevolente, doentia, medíocre, o Europeu de hoje”. (Nietzsche, Para além do Bem e do Mal)
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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Nietzsche e o Niilismo Ativo: a “morte de Deus” como grande vitória


Depois de falar contra o “Niilismo passivo” do “último homem” e do “homem superior”, Nietzsche faz a defesa do “Niilismo ativo”. Por esta expressão deve entender-se a consciência de que os antigos valores que serviram de fundamento à vida humana não caíram por si, mas por obra de uma vontade que já não conseguia suportar a calúnia e o desprezo acerca desta vida e deste mundo.
O “Niilismo ativo” não consiste em dizer não pura e simplesmente, mas em negar aquilo que negava a vida, propondo novos valores em harmonia com a realidade, uma nova atitude perante a vida. Aquele que se alegra com a “morte de Deus”, que a saúda como uma Boa Nova, não o faz por ressentimento, para se vingar dos que intoxicaram a humanidade. Esmagado sob o peso de valores e de instituições que revelaram o seu fundamento ilusório, o homem da vontade de poder afirmativa sente abrir-se e expandir-se o horizonte da sua ação. Os valores supremos perdem a sua validade, o seu caráter intocável e puro, e mostra a baixeza, a “imoralidade” que está na sua origem.

“O Niilismo é então a consciência de um enorme desperdício de forças, a tortura do 'em vão', a vergonha de si mesmo, como se tivéssemos mentido a nós mesmo demasiado tempo”. (Nietzsche, A Vontade de Poder, vol. i, § 12)

A “hora do grande desprezo” por si mesmo é uma hora estimulante, porque, envergonhado com a sua mediocridade o homem sente que é imperativo ultrapassar-se a si mesmo. O homem que tem vergonha de se assemelhar ao homem do dualismo moralista é aquele que nega o que foi em favor do que será. Descobre que a destruição e o declínio são condições de passagem a uma vontade de poder construtiva. No seio do grande desprezo abriga-se a grande veneração.
A morte de Deus clarifica o que se pretendia ocultar - que o Ideal é uma mentira - e entrega o homem a si mesmo e à realidade que durante tanto tempo foi negada. Todo o reino dos valores supra-sensíveis, na perspectiva da vontade de poder criadora, desaparece e, com ele, as normas e os fins que orientaram até agora a existência humana. A ideia de outro mundo, superior ao do devir, lugar onde imperam eternamente o Bem, a Verdade e a Justiça, é uma ilusória projeção dos nossos desejos mais inconfessáveis. O mundo além da morte, da mudança, da dor e do engano é um simples nada, um ideal vazio, uma mentira confeccionada pela inversão das características do mundo real, que consideramos indigno de ser vivido por si mesmo. A mesquinha origem dos valores supremos não deve conduzir-nos ao pessimismo, ao niilismo passivo, que consiste em julgar que o mundo perdeu o seu sentido, se desvalorizou radicalmente. Ao olhar desencantado que vê o sentido da realidade desvanecer-se deve sobrepor-se uma atitude que compreende a negação daquilo que nega a vida - Deus, a Verdade, o Ideal - como condição da afirmação desta.
Nietzsche faz uma constante critica as “verdades” da metafísica tradicional, não por estas serem falsas ou ilusórias, mas por serem erros nocivos, que não estão a serviço da vida ascendente.
A vontade de poder afirmativa deve, para evitar que a culpabilidade e a desvalorização do mundo, da Terra, subsistam mesmo depois de desaparecido o Deus que as justificava, constituir como seu imperativo o advento do super-homem. O super-homem é aquilo que o homem pode e deve ser. O Super-Homem é aquele que recusa Deus, não acredita no além, mas simplesmente na terra. As esperanças supra terrestres são a forma de sobrevivência de seres fracos e rancorosos.

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quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Nietzsche e o Niilismo Passivo – O aparecimento do homem superior e do último homem


Para Nietzsche a “Morte de Deus” causou profundas transformações no homem. Contudo, estas mudanças nem sempre produziram um homem melhor. Com a “morte de Deus”, surge o Niilismo – ausência de valores absolutos – que gerou de certa forma um novo homem. Nietzsche fala sobre o Niilismo Passivo e o Niilismo Ativo. Com o Niilismo Passivo surgem dois tipos de homem, o “homem superior” e o “último homem”. Vejamos como Nietzsche descreve esse dois tipos de homem, resultado do Niilismo Passivo, que Nietzsche não vê com bons olhos.

O “Homem Superior” – a continuação do homem anterior

Nietzsche apresenta o “homem superior” como àquele que age como se nada tivesse acontecido, ou seja, ele recebe a notícia da morte de Deus, mas continua a agir como se os valores dos quais ele era o fundamento não morressem com ele. O “homem superior” ainda acredita em valores absolutos, objetivos. A moral do “homem superior” é o produto irrisório de um ser débil que, morto o Pai, não deixou de ser o “menino de Deus”.
O “homem superior” já não acredita em Deus, mas, contudo, não se libertou totalmente da dependência em relação ao Ser Supremo. Com efeito, paira sobre os seus atos a sombra de Deus. O “não” ao ilusório “outro mundo” não se transforma em “sim” à terra. Certo “instinto teológico” continua a envenenar a sua relação com o mundo, com a realidade em devir ou em mudança. Não se apercebendo de que com Deus morreu o Absoluto, a sua metafísica mantém os traços de uma teologia mascarada. Vive ainda segundo os pressupostos da metafísica que o Deus extinto fundamentava, ou seja, continua a desvalorizar o mundo do devir, a segregar o veneno do ressentimento. A “sombra de Deus” encobre a sua existência e estendem-se sobre os novos ídolos, os novos absolutos — a Razão, o Estado, a Pátria, a Justiça — que permitem ao homem desprezar o devir.
Desaparecido o Senhor, este homem não abandona totalmente o papel de escravo. É demasiado débil para estar à altura de um acontecimento enorme no qual participou: a morte do Deus da culpa e do ressentimento. De tal modo assim é que o ressentimento define a sua relação com o devir, fonte de todo o sofrimento porque condena a vida ao desgaste, à insatisfação, à imperfeição. A sua procura do absoluto, mesmo sob forma não religiosa, é ainda o sintoma de uma vontade de poder negativa, que se recusa a dar valor próprio a “este mundo”. Desconhecendo ou escondendo a si mesmo que nenhuma moral absoluta é possível sem Deus, o Absoluto, o “homem superior” revela-se como uma suprema decepção, um ateu débil e inconsequente. É incapaz de assumir o destino grandioso que a morte de Deus exige do homem, é impotente para levar às suas últimas consequências criadoras à denúncia da “mentira sagrada” ou “teológica”. A sua negação de Deus é uma manifestação de impotência porque, para se proteger da realidade temível do devir, abriga-se à sombra de Deus, seguindo, em termos gerais, o tipo de moral que nele se fundava.
A sua conduta é ambígua: acredita no Diabo, não compreendendo que este só existia em relação a um Deus que morreu. Acreditar no Diabo significa que, apesar de derrubado o fundamento dos antigos valores “sagrados, celestes”, estes permanecem sob uma forma laicizada “terrestre, humana”. Como a sombra não é senão a projeção de uma determinada realidade, a sombra de Deus, morto Deus, é uma ficção, uma ilusão maior do que o próprio Deus.

O “Último Homem” – um ser desprezível

O “último homem”, segundo Nietzsche, faz uma entrega complacente e desprezível à ausência de qualquer sentido ou valor, ou seja, rejeitam-se quer os antigos valores quer a necessidade de criar um novo sentido para a vida. Para ele Deus era um senhor demasiado exigente, que impedia um sono tranquilo, uma existência confortável, sem deveres pesados. Não quer fardos antigos nem novos. O “último homem” é o homem sem qualquer valor, o homem que quer dormir tranquilo e viver longe de qualquer tarefa pesada ou grandiosa.
O “último homem” é o mais desprezível dos homens, porque rejeita quer os valores antigos quer a criação de novos valores. Nele a humanidade atinge o extremo da mediocridade e da degradação. Se o “homem superior” sucumbia ao fascínio da consolação da moral teológica, o “último homem” não quer carregar o fardo dos antigos valores nem trilhar a via árdua da criação de uma nova axiologia “de novos valores”.
Se acolhermos a “morte de Deus” como uma espécie de novidade milagrosa cujas razões nos escapam, podemos ser niilistas passivos, como é o caso do “último homem”, diz Nietzsche. O “último homem” interpreta a “morte de Deus” como sinônimo de desaparição de qualquer ideal e de qualquer valor. Não se empenha em dar um novo sentido à vida, desresponsabiliza-se, fazendo desse ato o seu valor supremo. O “último homem” é o homem sem qualquer valor, sem qualquer finalidade a não ser uma existência tranquila e fácil no meio desse agradável vazio criado pela “morte de Deus”.
Neste tipo de homem — último porque é o tipo mais baixo de humanidade — a mediocridade atinge o seu extremo. Deus era invenção de medíocres e de falhados, mas mais vil do que o “sentido” nocivo que o crente dava à vida é a vontade de não lhe dar sentido nenhum.
Deus era um Senhor demasiado severo que, exigindo que o homem vivesse à sua imagem, impedia um sono tranquilo, uma existência confortável, sem responsabilidades. O desvanecimento do Ideal é interpretado pelo mais desprezível dos homens como manifestação do contra-senso de qualquer ideal. É o homem que com um riso cínico se entrega a um prazer e a uma “felicidade” à sua altura, ou seja, mesquinhos.

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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

NIETZSCHE E O NIILISMO: O GRANDE PERIGO


Nietzsche analisa que a morte de Deus, a boa nova, pode de acordo com o tipo de vida que a interpreta dar lugar a diferentes, a opostas formas de comportamento. O niilismo será interpretado de forma negativa ou de forma positiva de acordo com a realidade (intérprete fraco — intérprete forte) daquele que avalia esse evento. Assim, a morte de Deus encerra as mais altas promessas e os mais temíveis riscos.
A negação de Deus é acompanhada pela preocupação de permitir a expansão da vontade criadora do homem. Se Deus existisse, existiria uma ordem de valores absolutos que seriam dados objetivos que a vontade humana encontraria já estabelecidos. O homem, que Nietzsche concebe como criador de valores veria a sua criatividade atrofiada e negada por Deus. Ora, saber estar à altura desse enorme acontecimento, desse ato tremendo que é a morte da fé no Absoluto, exige que o homem se torne diferente do que tem sido até agora. Esta transfiguração do homem, que cria novos valores e se supera a si mesmo tornando-se vontade que afirma plenamente esta vida, tem como símbolo o super-homem.

Nietzsche espera que a “morte de Deus” seja o começo de uma nova etapa da história. Chegou o momento de o homem ser o senhor de si mesmo. Há que fazer da “morte de Deus” um grandioso renascimento e uma contínua vitória sobre nós mesmos. Há que corresponder à grandeza desse ato. O homem, que assume a responsabilidade do ato que fez desaparecer o juiz absoluto do Bem e do Mal, vive o calafrio da liberdade, da inocência: esta vida não está sujeita a juízos morais absolutos, ela está para além do Bem e do Mal.
De fato, é justamente esse niilismo que Nietzsche chama de niilismo incompleto que domina a todos hoje, repleto de obscuras ameaças e perigos. Nietzsche diz ainda: “Ao valor do que permanece eternamente igual a si mesmo [...] contrapõe-se o valor do que é mais breve e fugaz, o sedutor brilho dourado no ventre da serpente vida”.
Esses “valores breves e fugazes” parecidos com o “sedutor brilho dourado no ventre da serpente vida” são aqueles ligados à “vontade de potência”, e, portanto constituem os antigos valores transvalorados segundo a doutrina nietzscheniana; mas em nada diferem dos disfarces niilistas dos antigos valores substituídos por novas máscaras multicoloridas, os quais, bem mais do que com o “fugaz brilho dourado no ventre da serpente vida”, se apresentam como “as sereias que encantam”, e que, vangloriando-se de ser portadores de salvação ou pelo menos de segurança, representam o perigo de arrastar de forma irreversível para o abismo do nada.
As causas profundas dos males do homem de hoje são justamente esses disfarces niilistas dos valores supremos que caíram (como tais) no esquecimento. A meu ver, tais males e os vários disfarces niilistas dos valores perdidos a eles vinculados podem ser resumidos nos dez itens apresentados a seguir:
1) o cientificismo e o redimensionamento da razão do homem em sentido tecnológico;
2) o ideologismo absolutizado e o esquecimento do ideal do verdadeiro;
3) o praxismo, com sua exaltação da ação pela ação e o esquecimento do ideal da contemplação;
4) a proclamação do bem-estar material como sucedâneo da felicidade;
5) a difusão da violência;
6) a perda do sentido da forma;
7) a redução do Eros à dimensão do físico e o esquecimento da “escala de amor” platônica (e do verdadeiro amor);
8) a redução do homem a uma única dimensão e o individualismo levado ao extremo;
9) a perda do sentido do cosmos e da finalidade de todas as coisas;
10) o materialismo em todas as suas formas e o esquecimento do ser, a ele vinculado.
Obviamente, cada um tem a liberdade de continuar a lista. Mas, ao fazê-lo é preciso que se faça uma profunda reflexão nas armadilhas do niilismo incompleto que, segundo Nietzsche, representa um grande perigo.
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quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

NIETZSCHE E O NIILISMO – AS TRANSFORMAÇÕES DA CULTURA OCIDENTAL


Para Nietzsche o niilismo surge como uma consequência da morte de Deus. O reino de Deus, a “outra vida”, era o Sentido, a bússola ou o centro de referência da vida humana. Deus era o fundamento dos valores essenciais que orientavam a vida humana. Morta a fé em Deus, os valores tradicionais perdem qualquer valor, a Terra deixa de estar ligada ao céu e a luz divina já não se projeta sobre a vida humana.
Uma vez perdido o seu Centro de referência ou o seu Sentido, a vida e o mundo parecem não ter sentido nenhum. A sensação de que já nada faz sentido, de que falta uma finalidade, de que tudo fica à deriva, corresponde à experiência do niilismo. Extinguindo-se a Luz e o Sentido, todos os valores tradicionais perderam a validade, a vida humana fica à deriva sem qualquer bússola que a oriente, sem qualquer Luz que a ilumine.
O niilismo significa, portanto, a desvalorização de todos os valores “superiores”, de todas as respostas que a metafísica ocidental deu ao problema do sentido do mundo. A expressão “a morte de Deus” resume esse acontecimento que é a perda dos valores fundamentais que até agora a cultura ocidental tinha promovido, dado que Deus era o fundamento último desse sistema de valores ou dessa interpretação dualista do mundo.
Contudo, o niilismo não é simplesmente algo que decorre da morte de Deus, porque ele significa não só a desvalorização dos valores da cultura européia como também a lógica interna do desenvolvimento dessa cultura. Com efeito, todos os valores criados pela cultura ocidental são falsos valores, é a negação da própria vida, é o resultado de uma vontade de nada. Assim, o niilismo pode ser visto como consequência da interpretação que ao longo dos séculos se deu do mundo e da vida. Os valores da cultura ocidental são niilistas e embora se tenha encoberto esse niilismo através de ideias como verdadeira vida, reino de Deus, etc., ele acaba por revelar-se completamente ao declarar-se incrível o Ser no qual todos os valores negativos e prejudiciais se fundamentavam.
Colocou-se o sentido desta vida numa outra, afirmou-se que a finalidade da existência terrena era o “reino dos céus”. Por isso, a “morte de Deus” revela não só que os valores tradicionais nada valiam, que eram prejudiciais, como também que a vida e o mundo humanos não têm um sentido em si mesmos. É preciso dar-lhe um novo sentido para ultrapassar o niilismo, que é uma consequência da visão doentia, racionalista, que se teve da vida humana.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

NIETZSCHE E O PERSPECTIVISMO: FORÇA E FRAQUEZA NA INTERPRETAÇÃO DO REAL



Para Nietzsche o perspectivismo é uma concepção segundo a qual não conhecemos a realidade em si: não há verdades absolutas, mas avaliamos sempre de um determinado ponto de vista. As nossas concepções podem resultar de uma grande variedade de motivações, a cada tipo de homem a sua verdade.

A verdade não é fixa, eterna ou absoluta, mas está ligada à realidade psicofisiológica do homem que avalia, isto é, que produz valores ou ideias. Assim, como na base dos nossos juízos e valores está um determinado tipo de vida e não um sujeito abstrato, uma visão global e única da realidade é uma ficção: quando julgamos, quando emitimos juízos, fazemo-lo sempre do nosso ponto de vista e por isso os nossos juízos são avaliações e não verdades absolutas.

A tradicional oposição entre verdade e erro reduz-se para o filósofo alemão a diferença de interpretação. Tudo é interpretação: “Não há fatos, somente há interpretações”. Estas são obra da vontade de poder, negativa ou positiva, daquele que interpreta. Há a interpretação do forte e a do decadente, a do senhor e a do escravo, a do criador e a do homem reativo, a do são e a do doente.

Se tudo é interpretação, nem todas as interpretações se equivalem. Certas interpretações são baixas, reativas, niilistas; outras são nobres, ativas, criadoras. Assim, a crença de raiz platônica num “mundo-verdade” é perversa porque provém não do instinto vital, mas do cansaço de viver; assim a ciência é plebéia e falsificadora porque provém da necessidade banal de manipular e de comunicar. Toda a interpretação provém dos instintos. Mas há bons e maus instintos: Todo o conhecimento é uma ilusão vital, verdadeiro porque útil a determinadas formas de vida. Contudo, há erros vis e servis e erros ou ilusões nobres que exprimem a exuberância da saúde e do “sim” a esta vida.

O valor de um conhecimento depende da nobreza do instinto e do tipo de vida que prefere aquele que interpreta e não do seu objeto. O conhecimento é um processo de interpretação que se funda nas necessidades vitais daquele que interpreta, melhor dizendo, na sua forma de encarar a vida.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

E tudo mudou...


O rouge virou blush 
O pó-de-arroz virou pó-compacto 
O brilho virou gloss 

O rímel virou máscara incolor 
A Lycra virou stretch 
Anabela virou plataforma 
O corpete virou porta-seios 
Que virou sutiã 
Que virou lib 
Que virou silicone 

A peruca virou aplique, interlace, megahair, alongamento 
A escova virou chapinha 
"Problemas de moça" viraram TPM 
Confete virou MM 

A crise de nervos virou estresse 
A chita virou viscose. 
A purpurina virou gliter 
A brilhantina virou mousse 

Os halteres viraram bomba 
A ergométrica virou spinning 
A tanga virou fio dental 
E o fio dental virou anti-séptico bucal 

Ninguém mais vê... 

Ping-Pong virou Babaloo 
O a-la-carte virou self-service 

A tristeza, depressão 
O espaguete virou Miojo pronto 
A paquera virou pegação 
A gafieira virou dança de salão 

O que era praça virou shopping 
A areia virou ringue 
A caneta virou teclado 
O long play virou CD 

A fita de vídeo é DVD 
O CD já é MP3 
É um filho onde éramos seis 
O álbum de fotos agora é mostrado por email 

O namoro agora é virtual 
A cantada virou torpedo 
E do "não" não se tem medo 
O break virou street 

O samba, pagode 
O carnaval de rua virou Sapucaí 
O folclore brasileiro, halloween 
O piano agora é teclado, também 

O forró de sanfona ficou eletrônico 
Fortificante não é mais Biotônico 
Bicicleta virou Bis 
Polícia e ladrão virou counter strike 

Folhetins são novelas de TV 
Fauna e flora a desaparecer 
Lobato virou Paulo Coelho 
Caetano virou um chato 

Chico sumiu da FM e TV 
Baby se converteu 
RPM desapareceu 
Elis ressuscitou em Maria Rita? 
Gal virou fênix 
Raul e Renato, 
Cássia e Cazuza, 
Lennon e Elvis, 
Todos os anjos 
Agora só tocam lira... 

A AIDS virou gripe 
A bala antes encontrada agora é perdida 
A violência está coisa maldita! 

A maconha é calmante 
O professor é agora o facilitador 
As lições já não importam mais 
A guerra superou a paz 
E a sociedade ficou incapaz... 

... De tudo. 

Inclusive de notar essas diferenças
Luis Fernando Veríssimo

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

NIETZSCHE E A DECADÊNCIA DA CULTURA OCIDENTAL EM SÓCRATES


Para Nietzsche, Sócrates (e Platão) é um momento decisivo no percurso cultural do Ocidente. Com ele acaba a grande época da tragédia grega — glorificação da vida mesmo nas suas dimensões dolorosas e sombrias — e começa uma época em que a tendência é a de procurar fugir às contradições, aos sofrimentos, a tudo o que a vida tem de sensível e de físico. Sócrates, no entender de Nietzsche, inventou a metafísica, transformou a filosofia na procura do inteligível e do eterno (supra-sensível) pregando a renúncia ao mundo sensível, ao mundo do devir e ao corpo, considerado como “o carcereiro da alma”.
Inaugura-se com Sócrates uma atitude que caracterizará, em geral, a cultura ocidental: a “calúnia do sensível”, a desconfiança em relação ao corpo e aos sentidos, o desprezo e a condenação de tudo o que é natural. Com Sócrates faz-se da vida aquilo que deve ser julgado em nome da razão, em nome de valores considerados “superiores”, tais como a Verdade e o Bem, identificados com o divino, o supra-sensível. A decadência, a atitude antivital ou antinatural surge claramente com Sócrates, que estabelecerá a distinção entre dois mundos, identificando o inteligível com o mundo real e verdadeiro e o sensível com o mundo ilusório e falso.
Sócrates sobrevalorizou o aspecto lógico-racional, fez da razão o centro de toda a interpretação da realidade e da verdade o valor supremo. Nele está a raiz dessa “venerável” tradição que se resume na fórmula: “Filosofar é procurar a verdade com toda a nossa alma”. Tudo submetendo ao juízo da razão, Sócrates vai, segundo Nietzsche, interpretar a arte trágica como algo irracional porque apresenta efeitos sem causas e causas sem efeitos. Por isso deve ser ignorada. As tragédias — os escritos e as peças de Esquilo e Sófocles — afastavam o homem do caminho da verdade, não obedeciam à razão, que tudo quer claro e distinto. Sócrates colocará a tragédia clássica na categoria das “artes aduladoras”, como conjunto de emoções agradáveis mas inúteis, “indignas de filósofos”. Sócrates é o radical oposto da concepção dionisíaca da vida, do homem trágico. Ele é o homem teórico.
Enquanto que em qualquer homem produtivo o instinto é uma força afirmativa e criadora e a consciência uma força crítica e negativa, em Sócrates o instinto torna-se crítico e a consciência criadora. Com a sobrevalorização do homem teórico abandonou-se o fenômeno do trágico, que exprimia a natureza profunda da realidade. Distinguir o verdadeiro do aparente — sublime ilusão metafísica — era, para Sócrates, a única atividade digna do homem. Querer a verdade, o conhecimento puramente racional, este era o lema de Sócrates. Nietzsche interrogar-se-á sobre o valor deste querer. Por que querer a verdade, a razão? O que é que em nós quer a verdade? Que vontade, que tipo de vitalidade, se manifesta neste querer a verdade?
Para Nietzsche, Sócrates, sob o nome de verdade, oculta e ao mesmo tempo manifesta o ódio ao sensível, ao corpo, às paixões, ao devir, em suma, a procura da verdade racional traduz-se numa desvalorização da vida. Com o racionalismo socrático-platónico começa a decadência. Em vez de confiar no corpo e nos instintos, Sócrates faz da razão a verdadeira realidade do homem, ó que consistirá em reprimir a natureza, os sentidos, os instintos, ou seja, em transformar a decadência num modelo de humanidade.
A razão vai condenar a vida, os sentidos, os instintos. O doente que não pode suportar a vida no que esta tem de sensível, de físico, vai vingar-se maldosamente, vai amaldiçoar o corpo e glorificar os argumentos da razão. Transformando a razão na “verdadeira força” do homem, o fraco, o homem de vitalidade débil e enfraquecida, vai afirmar-se pretensiosamente como superior rebaixando o seu adversário através da dialética, que é um discurso em que as teses do adversário são submetidas à tortura da negação racional. Nietzsche vê no diálogo socrático uma forma de o “homem da razão” ridicularizar o seu interlocutor.
O ataque de Nietzsche a Sócrates é, em alguns aspectos, grosseiro e injusto. O que nos interessa é, contudo, ver o sentido desse ataque. Para Nietzsche a filosofia não é um puro discurso, racional e objetivo: confiar na razão é também escolher certo tipo de combate que tem a ver com o tipo de homem que se é. Para Nietzsche, quando um homem decide escolher-se como ser racional e sobrevalorizar a razão é porque, muito provavelmente, tem necessidade de uma razão tirânica para reprimir e recalcar a desordem dos seus instintos, o seu desequilíbrio psicofisiológico.
Abandonar os instintos em favor de um mestre despótico, a razão, é, segundo Nietzsche, o sinal de uma vontade despótica, de um desejo de ser autoridade, de dominar-se a si mesmo e de dominar os outros: ser racional a todo o custo é, diz Nietzsche, expressão de uma vontade muitas vezes sádica de dominar por certos meios. Ora, estes meios são mais sintomas do que remédios, porque a razão pode ser um falso médico que torna o homem cada vez mais doente ao pretender salvá-lo. Vendo na dimensão sensível ou corpórea a fonte de todos os conflitos, desgraças e discórdias que, segundo ele, transformam a vida humana num inferno, Sócrates julga ver na razão, a dita fonte do consenso e da concórdia, o remédio para todos estes males. Mas acaba por transformar o homem num ser anêmico e mórbido, que deve auto-reprimir-se, calar completamente a voz dos instintos, chegando ao ponto de querer a morte do corpo para salvar a alma desta prisão. É preciso já estar muito doente para querer este remédio: a salvação é, no fundo, uma perdição, sintoma ou manifestação de uma vontade doentia.

VIGIAR E PUNIR. MICHEL FOUCAULT. RESENHA

Michel Foucault Vigiar e punir – Nascimento da prisão FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir : nascimento da prisão; tradução Raquel Ramalh...