segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Cartas Chilenas - Carta 8ª

Lamentando o triste fato de que “Fanfarão” distorce as Leis que foram criadas para a proteção dos fracos, para impedir que gananciosos e avarentos se aproveitem dos de menos posses, Critilo, na sua 8ª carta, faz um desabafo a seu amigo Doroteu: Gostaria que Minésio, o Fanfarão, tivesse recebido instrução, instrução escolar, enquanto criança, pois assim, quem sabe, este poderia ter desenvolvido um pouco de justiça em sua pessoa.

Que não busque cobri-los com tal capa,
Que inda se persuada que os mais homens
Lhos ficam respeitando como acertos?

“Que não busque cobri-los com tal capa, ” – que não os esconda com uma falsa aparência. Com essas palavras, Critilo, relata que no governo de Minésio, tudo se faz uma farsa. Os atos de corrupção de Minésio e dos seus lacaios, são como que cobertos por uma capa de justiça e retidão.

Maldito, Doroteu, maldito seja
O pai de Fanfarrão, que deu ao mundo,
Ao mundo literário tanta perda,
Criando ao hábil filho numa corte,
Qual morgado, que habita em pobre aldeia!

Critilo acredita que se Minésio tivesse o conhecimento das palavras, poderia recorrer aos altos das leis, em que vários pobres, foram beneficiados. Esses relatos, em que se fez justiça aos de condição humilde, poderia mover Minésio a praticar, pelo menos um pouco de justiça. Porém, Fanfarão, não recebera instrução literária, mas fora criado nos meios políticos, em que se tem uma noção totalmente desvirtuada do poder de um governante, atuando antes como um poderoso imperador que busca seu próprio deleite e satisfação.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Cartas Chilenas - Carta 7ª

Critilo inicia a 7ª carta comparando a riqueza e a boa vida que os nobres desfrutam em Portugal, aqui chamada de Espanha. Os nobres são possuidores de fazendas com palácios e muitos servos. Porém, longe do reino de nossa majestade, aproveitadores, como Minésio, desfrutam de regalias destinadas aos nobres, contudo, ele e seus lacaios, se possuem riquezas são as extorquidas das pessoas de bem e em geral dos mais pobres.

Assim os generais da nossa Chile
Têm diversas fazendas: numas passam
As horas de descanso; as outras geram
Os milhos, os feijões e os úteis frutos
Que podem sustentar as grandes casas. (p.112)

“Que podem sustentar grandes casas”. – Em Vila Rica há grandes proprietários que possuem pelo menos duas terras. Uma para divertimento e outra que gera lucros tão altos que podem sustentar várias famílias ou casas luxuosas.

Indigno, indigno chefe! Tu não buscas
O público interesse. Tu só queres
Mostrar ao sábio Augusto um falso zelo;
Poupando ao mesmo tempo os devedores,
Os grossos devedores, que repartem
Contigo os cabedais, que são do Reino. (p. 120)

A política de Minésio é de pura exploração dos pobres e favorecimento dos ricos, com interesses em propina, é claro. Desta forma, os de poucos meios tem sido duramente penalizados e os cofres de nossa majestade, o Rei de Portugal, tem sido esvaziados.

Amigo Doroteu, o nosso chefe
Patrocina aos velhacos, que lhe mandam,
Para que mais lhe mandem. Prende e vexa[549]
Aos justos, que entesouram[550] suas barras,
Para ver, se oprimidos se resolvem
A seguir os caminhos dos que largam. (p. 122)

Cartas Chilenas - Carta 6ª

Na 6ª carta, Critilo, conta sobre os andamentos da festa, em que os membros antigos e de prestígio da cidade são deixados de lado, para que Minésio possa receber toda a atenção. Em meio a todo aqueles acontecimentos que estão envoltos de corrupção e obscenidades, Critilo avista no camarote de Minésio, sua doce amada Nise. Neste momento seu coração para, ele não quer acreditar no que seus olhos lhe revelam. Como se não fosse suficiente, ver sua amada entre aqueles abusadores do poder, Critilo, ainda vê sua amada ser cortejada por um dos lacaios de Fanfarão. Neste instante, sua ira é tanta que ele pega sua espada disposto a traspassa-la ao meio, por tamanho afronte. Quão aliviado fica ao perceber que aquela cena fora apenas um sonho ou melhor um pesadelo!

Soberbo e louco chefe, que proveito
Tiraste de gastar em frias festas
Imenso cabedal, que o bom Senado
Devia consumir em coisas santas?
Suspiram pobres amas e padecem
Crianças inocentes, e tu podes
Com rosto enxuto[517] ver tamanhos males?
Embora! Sacrifica ao próprio gosto
As fortunas dos povos que governas;
Virá dia em que mão robusta e santa,
Depois de castigar-nos, se condoa[518],
E lance na fogueira as varas torpes.
Então rirão aqueles que choraram;
Então talvez que chores, mas debalde:
Que suspiros e prantos nada lucram
A quem os guarda para muito tarde.
(Versos 516b-518)

Assim como Minésio age, se divertindo e provocando o mal, ele há de ser tratado. Deus em sua misericórdia há de suscitar um salvador que ponha fim a todos os abusos de Fanfarão e seus lacaios.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Cartas Chilenas - Carta 5ª


Na 5ª carta, Critilo, conta as desordens feitas nas festas, caras festas, que são um claro desperdício de dinheiro público. Em tais festas, todos os lacaios de Fanfarrão e pessoas ligadas ao poder público têm participação. O desperdício de recursos com festas que além de onerosas, só servem para satisfazer os desejos de Minésio, faz com que Critilo teça uma interessante comparação entre o infame governante e o imperador Romano do passado:

Quem pode, Doroteu, zombar, contente

Do César dos Romanos, que gastava

As horas, em caçar imundas moscas?

Apenas isto lemos, o discurso

Se aflige, na certeza de que um César,

De espíritos tão baixos, não podia

Obrar um fato bom, no seu governo.

(Cartas Chilenas, p. 38)
Um César de espírito baixo, que gasta seu tempo a caçar moscas! Com essas palavras Critilo deixa bem claro seu total desacordo com o estilo ostentoso de vida que o governante leva. Além de tudo, existe o total desrespeito às tradições da igreja. Minésio não respeita nem a autoridade do idoso bispo da cidade. Que tempos são esses?! Esse clamor ecoa entre as vozes dos oprimidos.

Cartas Chilenas - Carta 4ª (reeditado)





Critilo maldiz o seu coração de poeta, que não o deixa aproveitar a vida, que exige dele que complete logo a sua história. Para escrever outra carta para Doroteu, Critilo dispensa banquete na casa de Alceu. Na sua 4ª carta, Critilo continua discorrendo sobre a construção onerosa da cadeia pública, em que escravos e presos tem de trabalhar todos os dias sem nenhum descanso semanal.

Responde, louco chefe, se podes

Tais violências fazer. Não era menos

Lançares sobre os povos um tributo?

Os homens que tem carros e os que vivem

De víveres venderem são, acaso,

Aos mais inferiores nos direitos?

Esta cadeia é sua, porque deva

Sobre eles carregar tamanho peso?

(versos 230 a 237)
O grande chefe não cansa de suas peraltices. Manda confiscar o carro usado na construção de um templo religioso, mantido por esmolas dos devotos e dos que pelas bênçãos do Cristo foram atendidos. Como justificativa, Fanfarrão, diz que quando Cristo esteve na terra mandou que Pedro pagasse o imposto por ele, portanto, não devia a imagem do Cristo, também continuar no mesmo proceder do seu real?

 



Cartas Chilenas - Carta 3ª (reeditado)

As injustiças e violências de Fanfarrão são por motivos de somenos importância. Critilo diz que Minésio tem tudo para ser um bom “chefe”, mas ele não tem nenhum “sistema”. Fanfarrão toma por empreitada a construção de uma suntuosa cadeia. Critilo chega até mesmo a comparar, a obra da cadeia com as grandes obras faraônicas. Tal obra custosa serve para prender os negros que devem e que não devem e na falta de negros outros quaisquer que se enquadrem nos termos de vadios, são logo lançados na prisão.
Prepara o branco lenço, pois não podes
Ouvir o resto, sem banhar o rosto
Com grossos rios de salgado pranto.
Nas levas, Doroteu, não vêm somente
Os culpados vadios; vem aquele
Que a dívida pediu o comandante;
Vem aquele, que pôs impuros olhos
Na sua mocetona e vem o pobre,
Que não quis lhe emprestar algum negrinho,
Para lhe ir trabalhar na roça e lavra.
Estes tristes, mal chegam, são julgados
Pelo benigno chefe a cem açoites.
(versos 229 a 240)
As injustiças que Fanfarrão comete, são prontamente copiadas pelos seguidores e lacaios, que querem se parecer com o chefe que a tudo pode. Assim a corrupção, a injustiça, os desmandos vão se tornando a ordem do dia. Esta situação corta o coração dos que habitam Santiago (Vila Rica), alguns como Critilo, não dormem a noite, desejando encontrar uma solução para tanta opressão.
 
 
 

Cartas Chilenas - Carta 2ª (reeditado)




 

Mal se põe nas igrejas, de joelhos,
Abre os braços em cruz, a terra beija,
Entorta o seu pescoço, fecha os olhos,
Faz que chora, suspira, fere o peito,
E executa muitas outras macaquices
Estando em partes onde o mundo as veja.
(versos 85 a 90)
Quem ousa falar contra Minésio, rapidamente é acusado de um crime qualquer e se vê fechado na cadeia. Também nesta situação, Fanfarrão se faz de vitima, um justo sendo caluniado, mas diante seu acusador, mostra ter compaixão estando disposto a esquecer toda “calúnia” feita contra ele e perdoa o acusado desde que este se comprometa a não mais lhe insultar. Não é por nada que o autor destas cartas fizesse questão do anonimato, pois corria perigo sua vida.
Fanfarrão faz papel de juiz, o povo aflui a sua casa em busca de obtenção de vantagens. Fanfarrão, se faz de deus, concedendo a vontade de todos sem se importar se estes têm ao seu lado a justiça ou não. Assim a criminosos é concedido o perdão, aos malfeitores a razão, aos que cometem os mais diversos atos desonestos, é lhes concedido a virtude. Javé, o Deus soberano, tem de seguir regras para o bom andamento do universo, mas Peralta, não conhece restrições.
 

Cartas Chilenas - Carta 1ª (reeditado)



Critilo descreve a entrada de Fanfarrão, Minésio, no Chile, aparentando uma piedade da qual não é possuidor. Ele pede que Doroteu abandone o que estiver fazendo e dê atenção ao que ele irá lhe contar. Diante a conhecer as façanhas do D. Quixote às avessas, qualquer atividade que Doroteu esteja a realizar, são comparadas com sonhos desconecto da realidade, daqueles que se tem durante os sonos profundos.

Ah! Tu, Catão severo, tu que estranhas

O rir-se um cônsul moço, que fizeras

Se em Chile agora entrasses e visses

Ser o rei dos peraltas quem governa?

Já lá vai, Doroteu, aquela idade

Em que os próprios mancebos, que subiam

À honra do governo, aos outros davam

Exemplos de modéstia, até nos trajes.

(Versos 93 a 100)

Minésio, o governador dos peraltas, está rodeado de lacaios que estão a lhe aplaudir os atos e estes mesmos se empenham em engrossar a corrupção se comportando como verdadeiros senhores soberanos que a nada temem e a ninguém respeitam. Dentre estes se destacam Robério e Matúsio.

O comportamento de Fanfarrão é tão absolutista, que Gonzaga diz que os céus têm outra configuração, não se vê mais o Sol e a Lua, no lugar sobe um cometa que cobre toda a terra com sua cauda. Pobre Chile! Melhor seria se tivesse sido acometido pelas pragas do Egito. Depois que toma posse, Minésio, trata a todos com um desprezo que os faz sentirem saudades do governante anterior.

Cartas Chilenas - Introdução (reeditado)



A obra “Cartas Chilenas” é um texto satírico da literatura brasileira. Trata da corrupção de Luís da Cunha Meneses, governador da capitania de Minas Gerais entre 1783 e 1788. Nestas Cartas, “chilenas” querem dizer “mineiras”. Chile é Minas Gerais; Santiago, Vila Rica. Os personagens também despistam a inspiração: O governador ficou ilustrado por Fanfarrão Minésio; o autor se autodenomina Critilo; o destinatário das cartas chama-se Doroteu.
Escrito sobre anonimato, para se evitar represálias, sendo atribuída de consenso a Gonzaga, por volta de 1845. O autor expõe os costumes da cidade de Vila Rica de modo caricato e impiedoso, não perdoando, sobretudo os atos grosseiros e desmandos da aristocracia. Cada carta segue um enunciado onde se estabelece a temática da carta: a entrada de Fanfarrão no Chile; a fingida piedade deste a fim de conseguir negócios; suas violências e injustiças; o casamento do futuro rei D. João 60 e Carlota Joaquina; as desordens e brejeirices de Fanfarrão.

A influência dos iluministas franceses é bem evidente. Gonzaga teria se inspirado no estilo satírico de Voltaire e nas Cartas Persas (1721), do barão de Montesquieu (1689-1755), para intitular seu poema. A obra de Montesquieu se pauta na comparação entre culturas e costumes diferentes e usa a ironia como forma de denúncia. Nesta obra que se tornou um dos manuais do iluminismo, um persa visita a França e tenta entender os hábitos e as instituições do país.


A Inconfidência Mineira lutava, entre outras coisas, contra a cobrança abusiva sobre a exploração do ouro. Tomás Antônio Gonzaga teve participação ativa neste movimento, fazendo suas denúncias através dos seus escritos. Além de Cartas Chilenas, Gonzaga escreveu também as liras “Marília de Dirceu” que se enquadra no mesmo estilo e completam a alta produção do poeta.

VIGIAR E PUNIR. MICHEL FOUCAULT. RESENHA

Michel Foucault Vigiar e punir – Nascimento da prisão FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir : nascimento da prisão; tradução Raquel Ramalh...