segunda-feira, 19 de junho de 2017

Cartas Chilenas - Carta 11ª

Uma pessoa que diz brejeirices pode ser alguém que tenha uma origem simples e um linguajar comum. Contudo, ao iniciar a décima primeira carta, Critilo, narra as brejeirices de Minésio, não no sentido de um indivíduo brincalhão, engraçado, simples. Mas, sim, no sentido de uma pessoa desonesta nas palavras e nas ações, um homem que não possui honradez; um sujeito biltre; um patife.

Aqui, aqui de tudo se murmura:
Só se livra da língua venenosa,
O que contrata em vendas de despachos,
E quem se alegra ao ver que a sua moça
Ajunta pela prenda um par de oitavas:
Que os membros do Congresso são prudentes
 Não querem que alguns dos companheiros
Tomem essa conversa em ar de chasco. (p.159)

A corja desprezível de lacaios de Fanfarrão se junta para caçoar das pessoas de bem e para se gabarem de suas peraltices, que nada mais são do que maldades contra o povo simples e comum. Critilo denuncia que, a maioria dos servidores de Minésio pessoas sem caráter, sem nenhuma nobreza, apenas ostentam uma aparência. Já no caso do governante impiedoso, apesar de sua origem casta, seus feitos não se tornam admiráveis, ao contrário são desprezíveis.

[...]
Por isso, às vezes, nascem os mochilas
Com brios de fidalgos; outras vezes
Os nobres com espíritos humildes,
Só dignos de animarem vis lacaios.
O nosso Fanfarrão, prezado amigo,
Vos dá mui boa prova: não se nega
Que tenha ilustre sangue; mas não dizem
Com seu ilustre sangue as suas obras. (p.160)

Com o mal exemplo de Minésio, prevalecia em toda Chile a exploração nos diversos níveis da vida. O autor, Gonzaga, queixa-se da ganância da prostituta Olaia: “Maldita sejas tu, Harpia Olaia, que enquanto não abria a minha bolsa, não mostrava também alegre os dentes!” (p.164). AS Harpias, que significa arrebatadoras, eram criaturas representadas ora como formosas e sedutoras mulheres com longas unhas, ora como terríveis monstros com corpo de ave de rapina, rosto de mulher e seios. Elas raptavam o corpo dos mortos para usufruir de se amor, por isso eram representadas nos túmulos como se estivessem à espera do morto, sobretudo dos jovens para arrebata-los. Eram cruéis e violentas, sendo relacionadas aos ventos destruidores, aos ciclones e às tormentas. Por onde passavam, as Harpias causavam a fome arrebatando a comida das mesas e espalhando um cheiro pestilento que ninguém conseguia retornar por onde elas tivessem passado. Difundiam a sujeira e a doença; era inútil afugentá-las pois elas voltavam sempre.

Critilo, por fim, completa sua denúncia contra Minésio, o Fanfarão:

[...]
Agora inquirirás, prezado amigo,
Se é este sábio bispo aquele mesmo,
Que o bruto Fanfarrão um certo dia
Meteu na sua sege do lado esquerdo.
É este, sim, senhor, o mesmo bispo,
A quem o nosso chefe desalmado,
Enquanto governou a nossa Chile,
Já dentro de palácio, e já na rua
Tratou como quem trata um vil podengo (p.167).

Por dizer que o bispo fora tratado como um vil podengo, Critilo, se referia à forma como se trata um cachorro. Um podengo, era uma espécie de cachorro que caça coelhos, uma espécie pequena de cachorro.
Portanto, como se vê, o governador de Chile, com seus desacatos formais, de ordem externa, demonstra uma consciente mentalidade anticlerical, concebida e desenvolvida pela leitura dos corifeus da incredulidade, principalmente os enciclopedistas, como parece acontecer com esse desabusado “libertino”, que se mostrou ser, Minésio. Um chefe cruel que não demonstra respeito nem aos homens, nem aos céus.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Cartas Chilenas - Carta 10ª


“Para onde quer que me volte, só vejo a morte”. Estas palavras desesperançosas de Ovídio, célebre poeta latino (43 a.C. – 18 d.C.), ilustram muito bem os sentimentos de Critilo derramados na sua 10ª carta a Doroteu.

Critilo inicia sua nova lista das peripécias de Minésio, o Fanfarrão, fazendo alusão às elegias, que são poemas de cunho melancólicos, eróticos ou de exaltação de personagens ilustres.

Quis, amigo, compor sentidos versos
A uma longa ausência e, para encher-me
De ternas expressões, de imagens tristes,
À banca fui sentar-me com projeto
De ler primeiramente algumas obras
No meu já roto, destroncado Ovídio.
Abri-o nas saudosas elegias; (p.146)

O temível governador de Chile, se vale de relatos, encomendados, que visam enaltecê-lo com uma glória que a ele não pertence. Pois, como pode um falastrão que não tem temor dos céus receber honrarias de homem abnegado e misericordioso?

Em vez de compará-lo aos personagens santos, citados nas Santas Escrituras, Critilo, compara, os feitos do poderoso chefe, aos feitos dos personagens das obras de Ovídio.

E quando me embebia na leitura
Dos casos lastimosos, que ele pinta
Na passagem que fez ao Ponto Euxínio,
Encontro aqueles versos que descrevem
As ondas decúmanas: de repente
Me sobe ao pensamento que estas eram
Do nosso Fanfarrão imagem viva. (p.146)

Ovídio, em seus poemas, usa seres imaginários parcialmente humanos, que nas suas ações e comportamentos lendários, descreve o lado bestial da humanidade. Despidos da razão e livres das convenções da sociedade humana, os seres mitológicos, podem se entregar aos seus instintos e vontades.

Como exemplo, podemos citar a descrição dos centauros, que compõem dois fragmentos de “Metamorfoses”, de Ovídio, na parte que é conhecida como a batalha com os Lápitas da Tessália na Grécia.

Pierre Grimal (1992), descreve os centauros como seres monstruosos, meio homem, meio cavalo. Têm busto de homem e às vezes, também as pernas, mas a parte posterior do corpo, a partir do busto, é de cavalo e, pelo menos na época clássica, têm quatro patas de cavalo e dois braços de homem. Vivem nas montanhas e nas florestas, alimentam-se de carne crua e têm costumes extremamente brutais. (GRIMAL, Dicionário da Mitologia, Difel, Lisboa, 1992).

Ao comparar Minésio a seres mitológicos, Critilo, faz uma denúncia do comportamento bestial que o governante corrupto adota, não respeitando os outros seres humanos, nem considerando as leis divinas.

Finalizando sua 10ª carta, Critilo prossegue com suas comparações:

Eu creio, Doroteu, que tu já leste
Que um César dos romanos pretendera
Vestir ao seu cavalo a nobre toga
Dos velhos senadores. (p.154)

A lembrança que surge na mente de Critilo, ao contemplar as ações exercidas por Minésio, o Fanfarrão, é a da figura do César Romano, Caio Calígula, que aos 25 anos recebeu o título de Augusto César. O governo de Calígula foi marcado por gastos exorbitantes, impostos altíssimos e a total falta de freios. Sua crueldade com os presos e os escravos era tão grande quanto sua depravação na vida sexual. Divertia-se fazendo torturar condenados na frente de seus familiares. Tomava as posses de suas vítimas e não admitia ser contrariado em nada.

Calígula nomeou senador seu cavalo, Incitatus, para quem construiu um palácio de mármore. Antes disso, havia nomeado um cavalo como sacerdote e designado uma guarda pretoriana para tomar conta de seu sono. Sua ideia era humilhar o Senado romano e mostrar que se podia nomear um cavalo sacerdote e senador, podia fazer qualquer coisa com a vida de qualquer pessoa. Calígula acreditava no terror como arma de poder e gostava de ser odiado, dizia: “Oderint dum metuant! ” (Que odeiem enquanto tremem de medo), referindo-se ao povo.

Esta história
Pode servir de fábula, que mostre
Que muitos homens mais que as feras brutos,
Na verdade conseguem grandes honras.
Mas ah! Prezado amigo, que ditosa
Não fora a nossa Chile, se antes visse
Adornado um cavalo com insígnias
De general supremo, do que ver-se
Obrigada a dobrar os seus joelhos
Na presença de um chefe, a quem os deuses
Somente deram a figura de homem! (p.154)

O povo preferia agora ser governado por um cavalo, ou seja, não ser governado, do que viver sob a tirania do chefe.

VIGIAR E PUNIR. MICHEL FOUCAULT. RESENHA

Michel Foucault Vigiar e punir – Nascimento da prisão FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir : nascimento da prisão; tradução Raquel Ramalh...