UM "RIO CHAMADO ATLÂNTICO".


Alberto da Costa e Silva, no seu livro “Um Rio Chamado Atlântico”, apresenta uma visão excepcional sobre a relação Brasil/África. Do lado da “outra margem do Rio Atlântico”, seja do lado ocidental ou do lado oriental, semelhanças entre brasileiros e inúmeros povos africanos são bem visíveis.
            Com base no texto de Costa e Silva e alçado nas discussões e debates em sala de aula, procurarei encontrar elementos culturais que ligaram o Brasil e a África.
            O autor nos mostra que o Brasil teve uma contribuição cultural nada desprezível com elementos que contribuíram para a união Brasil/África. Essa contribuição brasileira não se deram só pelo volume e categoria dos escravos que retornaram ao continente de origem, mas também em como o tráfico desempenhou um papel importantíssimo nas ligações orgânicas entre as duas margens do “Rio Atlântico”.
            Houveram trocas culturais nas duas direções. A África recebeu e africanizou a rede, o milho e a mandioca. O Brasil por outro lado, utilizou o Dendê, a Malagueta e a Panaria da Costa. Reis e nobres, que chegaram ao Brasil na condição de escravos, buscaram, algumas vezes, reconstruir o pouco que podiam das estruturas políticas, religiosas e culturais da terra de onde haviam partido.
            Quando houve uma redução na mineração de diamante e ouro no Brasil, e consequentemente uma redução no numero de europeus que pra cá vinham com o objetivo de extração mineral, houve um aumento nas ligações Brasil/África.
            Com um vasto território para povoar, o Brasil passa a ver na África o seu principal provedor de material humano. Os africanos mesmo oprimidos, humilhados e reduzidos na sua humanidade, pela escravidão, tem um papel fundamental na ocupação do território brasileiro.
            Alberto da Costa e Silva nos apresenta uma visão de cultura como sendo elementos presentes na comida, na religião, na arte e até mesmo na linguagem. Estes são responsáveis por aproximarem os dois continentes e mereceu a menção ou comparação a um “Rio, o Atlântico”.
            No ano de 1835, ocorreu à guerra do malês, na Bahia, o que ocasionou o degredo de muitos ex-escravos ao continente africano. Entre os que retornaram estavam: negros nascidos no Brasil, mulatos, mamelucos, cafuzos, negros nascidos na África e levados como escravos ao Brasil e dele expulsos ou alforriados. Assim, muitos regressaram por vontade própria, outros movidos por outras forças fizeram o trajeto inverso, rumo ao continente africano.
            Ao retornarem, alguns se fixaram em terras distantes das de origem. Mas, mesmo os que retornaram para sua terra natal, encontraram ali uma cerrada estrutura cultural, com costumes e tradições a que não se sentiam mais vinculados. Portanto, procuraram se associar com os seus iguais, que também tinham sido abrasileirados no cativeiro e formaram assim comunidades próprias.
            Desde o começo, essas comunidades chamaram a si de “brasileiros”, e assim são conhecidos até hoje. Este fato foi notado pelos colonizadores e houve por parte do ingleses uma tentativa de desvincular a África do Brasil, mas sem sucesso. Até mesmo nas correspondências oficiais com os colonizadores, os abrasileirados, referiam a si como brasileiros e assim também o fizeram seus filhos e seus netos.
            Formaram-se bairros próprios de brasileiros como o “Brazilian Quartier”, o “Quartier Brésil” e o “Quartier Marô”, em Ajudá. Em Acra, a comunidade conhecida como povo “Tá Bom” tinha um bairro próprio. Esses bairros existem até hoje em regiões como Benin, Togo, Nigéria e Gana. Alguns dos “Brasileiros” destas regiões tiveram até mesmo participação de destaque na política, na cultura e na arte.
            Na ordem inversa, os Iorubás, e os Jejes difundiram fortemente sua cultura na Bahia. Os Congos e os angolanos tiveram grande influência em todo o território brasileiro.
            Alberto da Costa e Silva cita Gilberto Freyre que diz que os africanos ficaram “abaianados, acariocados e pernambucanizados”. Nas suas danças e folguedos na África era comum o uso do bumba-meu-boi e também as mascaradas carnavalescas. Na comida utilizam o feijão de leite de coco, a cocada, o pirão, a muqueca de peixe e o cozido.
            Na religião, divulgaram o culto a nosso senhor do Bonfim e a são Cosme e Damião. Na arquitetura impuseram os sobrados neoclássicos com seu estilo barroco. Influenciaram o estilo das estátuas em cemitérios e nas figuras de animais em louça e gesso.
            Uma forte influência cultural ocorreu especialmente nos muçulmanos brasileiros. Estes estavam mais para católicos no seu comportamento do que para maometanos. Em alguns lugares, como em Porto Novo, eram chamados de “muçulmanos Crioulos”, para os diferenciarem. Muitos deles se casaram com moças católicas, estabelecendo assim uma ponte entre o cristianismo e o Islame. Alguns de seus famosos templos como a mesquita Shitta e a mesquita Central, em Lagos, foram feitas em estilo brasileiro.
            Estas trocas culturais promoveram uma união entre o Brasil e a África, transformando o “Atlântico em um Rio”, fácil de ser cruzado. Embora larguíssimo, as “duas margens do Rio Atlântico” estavam unidas, e se confundiam no seu jeito e na sua maneira de ser.
            O Brasil se tornou extraordinariamente africanizado. A África está presente nos gestos, na maneira de ser e de viver e no sentimento estético brasileiro. Do outro lado do Atlântico é fácil ver os brasileirismos, como diz Costa e Silva. Há comidas africanas no Brasil, assim como há comidas brasileiras na África. As danças, as tradições, as técnicas de trabalho, os instrumentos musicais, as palavras, o comportamento social brasileiro, estão todos bem visíveis no dia-a-dia da África. Os escravos ficaram dentro de todos nós, seja qual for a nossa origem, Aproximando até hoje as “duas margens do Rio Atlântico”.

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