A Arte de Inventar o Passado e o Testemunho da Memória

A Arte de Inventar o Passado e o Testemunho da Memória


O cidadão para poder se situar no presente, poder exercer seu papel como agente político, social e cultural, necessita conhecer o seu passado, estabelecendo com ele uma relação mediada pela crítica. Este papel é destinado socialmente ao historiador, é para isso e por isso que nossa profissão existe. O direito à memória, o direito a uma relação problematizadora com o passado é que faz do historiador um profissional indispensável à sociedade contemporânea e que exige que sua profissão seja reconhecida, institucionalizada e tratada com o devido reconhecimento legal e social.

Em nossa época perdura o embate entre História e Literatura. Os historiadores entendem como sendo seu dever a narrativa do passado. Para tanto, precisam se utilizar do gênero literário para assim poderem fazê-lo. Neste ponto enfrentam a dura critica dos cronistas que dizem que os historiadores não sabem fazer História. Em contra partida os historiadores replicam afirmando que os cronistas também não o sabem e ainda possuem o agravante de não terem o arcabouço teórico para perceber a importância da narrativa para contar o passado.

Em meio a esse impasse invocamos o raciocínio lógico e arrazador de Durval Muniz de Albuquerque Júnior, que assim como Foucault, é um desses “sujeitos” perturbadores da boa ordem científica, desses que se colocam entre o sono dogmático e a vigília epistemológica só para provocar a polêmica, e assim o faz no seu livro “História – a Arte de Inventar o Passado”. Na primeira parte deste livro, Durval Muniz diz que a História possui objetos e sujeitos porque os fabrica, inventa-os, assim como um rio inventa o seu curso e suas margens ao passar. Seguindo esta analogia podemos dizer que uma margem é composta pelos historiadores com suas metodologias e teorias, ferramentas que julgam habilitá-los para narrarem o passado, construindo assim uma narrativa direta e explicativa do que aconteceu. Os historiadores utilizam do discurso dando ênfase à razão, ao poder, a conquista e o domínio. Na margem oposta estão os literários das letras que utilizam as paixões, as dimensões poéticas da existência e o intuitivo em suas narrativas crônicas do passado.

Durval Muniz surpreende ao apresentar para uma alternativa que não se envolve na polêmica entre: narrativa histórica X narrativa literária. Utilizando da metáfora das margens, que supostamente limitam e contém o rio, ele busca uma terceira margem como possibilidade de análise. Outra margem, onde as duas anteriores se encontrariam e misturariam o seu fluxo, sofrendo uma purificação, uma racionalização, onde se daria atenção como um todo às ações e práticas humanas.

Em síntese, essa nova margem significa pensar que a História não se passa apenas no lugar da natureza, da realidade, do evento, nem tampouco do lado da representação, da cultura, da subjetividade, da idéia ou da narrativa. A História passa entre elas, no indiscernimento das divisões, na mistura dos variados elementos, conectadas e articuladas pela linguagem. A História se passa nessa terceira margem, a do devir, do fluxo. A História igual a um rio produz as suas margens.

Contudo, Durval Muniz, dá uma palavra de cautela ao se percorrer essa terceira margem; como historiadores não podemos nos esquecer de nosso compromisso com a produção metódica de um saber, com o estabelecimento de uma pragmática institucional e devemos continuar respeitando as regras para a produção deste conhecimento. Devemos articular essas duas áreas de conhecimento, pensar uma com a outra, sem, contudo, abrir mão da dimensão cientifica possuída pelos historiadores.

A polêmica, porém, não se dá só externamente; entre os próprios historiadores persiste uma diferença de opinião quanto a que teoria-metodológia deve se seguir. A segunda parte do livro de Durval Muniz, embora dedicada a Michel Foucault, faz também um contraposto com ideários de Edward P. Thompson. Essa comparação metodológica é interessante; feita através do conceito de experiência, centrado nos trabalhos historiográficos desses autores, apesar de eles, possuírem formações teóricas bem divergentes. Para Thompson, fazendo uma nova leitura da tradição Marxista, a História tem como pressupostos idéias de totalidade, de razão, de verdade, continuidade, essência e semelhança. Já para Foucault, ela busca dispersar as totalidades, inclusive a da razão. A História, segundo Thompson é realista, um discurso sobre o real. Na perspectiva de Foucault, ela é nominalista, ou seja, uma pratica discursiva, que emerge das lutas políticas, de embates, de poder presidido por estratégias e táticas. Enquanto Foucault evita essencializar as experiências históricas ao negar-lhes um caráter tão somente “fundante”; Thompson as limita, em última instância, a serem efeitos fundacionais das classes sociais.

Durval Muniz neste ponto ressalta que deve se evitar fazer analogias objetivando desqualificar o autor por meio de adjetivos que combatam antes a pessoa do que suas idéias. Segundo ele, no meio acadêmico deve se evitar personalismos, antipatias e os amores pessoais. Ele destaca também, apesar de sua preferência por Foucault, que o trabalho de Thompson tem sim o seu valor.



Ainda no campo da narrativa do passado, uma das grandes discussões teóricas que se têm imposto a várias gerações de historiadores é o debate sobre a relação entre História e Memória, pois essa discussão estrutura os fundamentos e objetivos do fazer histórico. A Memória não pode mais ser vista como um processo parcial e limitado de lembrar fatos passados, de valor apenas acessório para as ciências humanas. Na verdade, ela se apóia na construção de referenciais de diferentes grupos sociais sobre o passado e o presente, respaldados nas tradições e ligados a mudanças culturais.


Sobre os caminhos da memória podemos recorrer a Márcio Seligmann-Silva, que em seu livro “História, Memória, Literatura – o Testemunho na Era das Catástrofes” usa a literatura de testemunho, que se configura como literatura menor porque traz a voz dos excluídos, dos marginalizados. Os testemunhos acerca da Shoah (termo que se adota no lugar de holocausto) aparecem como prova de que as atrocidades que pareciam ter caráter irreal realmente existiram, e seus sobreviventes estão ai para ajudar a escrever a História. Na América Latina, a luta é a mesma: lutar contra o esquecimento, contra o apagamento da pagina cruel que foi a ditadura na vida dos que testemunharam a tortura, ou denunciar a exploração e a submissão da população em países periféricos como o México, Bolívia, Cuba, Brasil e outros mais.

Seligmann-Silva mostra que a memória é uma questão fundamental, essa memória que não pode ser apagada, uma que gera sofrimento, dor ou vergonha, e que entra numa relação dialética entre memória e História, numa nova relação com o passado. O testemunho, para preservação desta memória, surge como uma necessidade do sobrevivente narrar sua experiência para poder recompor os fragmentos de se “eu”.

Paul Celan disse: “Ninguém nos corta a palavra da parede-do-coração”. Quão bem essas palavras descrevem a situação do sobrevivente, do sujeito testemunhal, que guarda em si, simultaneamente uma necessidade e uma impossibilidade de narrar um passado traumático. Esse sentimento dual, segundo Seligmann-Silva, se dá pelo fato de às cicatrizes do trauma terem sido profundas e por um lado precisam narrar a experiência vivida para que essas cicatrizes melhorem, contudo lhes falta uma percepção lingüística diante dos fatos, que são “inenarráveis” e ao mesmo tempo há uma “inverossimilhança”.

O dilema trágico que as testemunhas tem de enfrentar os coloca em situação de nova tortura, eles se encontram no lugar do mártir, do que sofreu, mas sobreviveu. O sobrevivente, aquele que viveu o trauma, repete constantemente a cena violenta, o choque, e ainda sente a culpa por ter sobrevivido, encontra-se num lugar de exceção. O problema de consciência que ronda os torturados na América Latina é que: “quem sobreviveu não é humano, igual ao torturador”, por isso, Seligmann-Silva, cita a importância de não deixar essa memória ser apagada.

Seligmann-Silva mostra que essa memória do trauma vive “encapsulada numa cripta” e não consegue sair deste invólucro para se relacionar com o novo presente. Essa memória é algo próximo, mas ao mesmo tempo inacessível. Some-se a isto os transtornos causados pela mídia, que tem sido usada pelos “colonizadores” modernos destes países para passarem uma idéia de que esses traumas ligados ao regime militar já foram superados nos países Latino-americanos. Citam que já houve uma exposição ou cultuação dessa violência, e, portanto estão resolvidos os traumas.

Para Seligmann-Silva, mesmo quando se faz uma volta ao tema da ditadura e da tortura, se faz apenas uma revisitação histórica sem crítica, objetivando apenas apagar a importância dos fatos, como que dizendo: “Pronto! Já falei sobre isso, eu admito minha culpa, agora vamos pôr uma pedra em cima do assunto e dá-lo por encerrado”. Mas, em vez de eliminar o trauma, essa ação calculada serve apenas para deixar o sobrevivente numa condição de eterno revolucionário que se apodera de um discurso panfletário.

Este uso da memória, do testemunho dos sobreviventes, é muito importante para a História de todos os países que passaram por regimes totalitários, por guerras civis, massacres, uma vez que fazendo esse resgate do passado, salvando essas memórias do esquecimento se faz segundo Seligmann-Silva, um ataque ao inimigo, denunciando suas atrocidades e barbáries e ao mesmo tempo é uma reconstituição dos rostos desfigurados dos mortos, que foram aniquilados no passado.

Nas considerações finais desta análise de Durval Muniz de Albuquerque Júnior e Márcio Seligmann-Silva, fica explícito o papel importante do historiador na reconstrução social. O historiador deve ser militante na luta pela abertura de todos os arquivos, na luta pelo direito à informação. Ser historiador implica tomar posição diante dos arquivos e das memórias, diante do que se deve ou não lembrar, sobre o que se deve ou não esquecer, monumentalizar, guardar ou destruir. Tudo que se refere ao caráter temporal ou a historicidade das coisas é território do historiador, que deve afrontar-se com o presente que dirige nosso olhar sobre o passado.

Referências:

ALBUQUERQUE JUNIOR, Durval Muniz de. História: a Arte de Inventar o Passado. Ensaios de Teoria da História. Bauru, SP: Edusc, 2007.

SELIGMANN-SILVA, Márcio. História, Memória, Literatura: o Testemunho na Era das Catástrofes. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2003.

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