“O Queijo e os Vermes”, as evidências da circularidade nas “classes Subalternas”

Resenha de “O Queijo e os vermes” de Carlo Ginzburg

“O queijo e os vermes” foi publicado por Carlo Ginzburg em 1976, a partir de documentos do Santo Ofício, em que o autor conta a história de Domenico Scandella, conhecido por Menocchio, um moleiro que viveu em Montereale na região da cidade do Friuli e que foi julgado duas vezes pela inquisição e terminou condenado e queimado na fogueira. O interesse por Menocchio se deu ao acaso. Enquanto Ginzburg pesquisava sobre bruxaria e a Inquisição encontrou um processo de sentença extremamente longo. Uma das acusações que chamou atenção de Ginzburg foi a de que o réu sustentava que o mundo tinha sua origem na putrefação.

[...] "Eu disse que segundo meu pensamento e crença tudo era um caos, isto é, terra, ar, água e fogo juntos, e de todo aquele volume em movimento se formou uma massa, do mesmo modo como o queijo é feito do leite, e do qual surgem os vermes, e esses foram os anjos.” (Ginzburg, 2006 p.36)

Ginzburg surpreende em sua obra ao mostrar uma tenaz perspicácia em buscar pistas e dicas que revelem a historicidade do seu objeto de estudo. Ao fazer uso de expressões marxistas como “classe subalterna[1]” e aceitar questões e abordagens do chamado “paradigma pós-moderno” o autor mostra que, ele, não se permite fazer um fácil enquadramento teórico metodológico.  “O queijo e os vermes” contém elementos como a noção de mentalidades, de discurso e da retórica. Embora Ginzburg não se prenda a uma ortodoxia de paradigmas, em sua obra ele procurou resistir aos ataques e moldes do pós-estruturalismo.

A obra de Ginzburg possui uma complexidade perceptível, especialmente no que diz respeito a encontrar vestígios de uma cultura baseada apenas na oralidade e na continuação da transmissão de valores e conceitos apenas por meio das gerações, onde não havia registro das ações das “classes subalternas”, conforme nos mostra Ginzburg, e quando haviam estes registros escritos, normalmente eram feitos pela elite letrada, que podia distorcer os sentidos originais dos depoimentos adaptando-os à sua própria visão de mundo. A afirmativa do autor lança luz nesta perspectiva distorcida:

[...] "As raízes de suas afirmações e desejos estão fincadas muito longe num estrato obscuro, quase indecifrável, de remotas tradições camponesas.” (Ginzburg, 2006 p.23)

“[...] Respeitar o resíduo de indecifrabilidade que há nela e que resiste a qualquer analise não significa ceder ao fascínio idiota do exótico e do incompreensível significa apenas levar em consideração uma mutilação histórica da qual, em certo sentido, nós mesmos somos vítimas.” (Ginzburg, 2006 p.26)

A especialidade de Ginzburg é a Europa pré-industrial, onde ele pesquisa sobre feitiçaria e bruxaria em meio à cultura popular, as “classes subalternas”, da Europa Ocidental.

A obra de Carlo Ginzburg possui prefácio para a edição inglesa e para a edição italiana, nestes prefácios é possível vermos diferenças nítidas. No prefácio para a versão inglesa o autor, em poucas linhas e palavras fáceis, se preocupa basicamente em apresentar a obra, o lugar do seu nascimento, como se deu a sua pesquisa e os personagens da trama. O autor destaca ainda um único conceito, o da circularidade, e para isso recorre a Mikhail Bakhtin, não se preocupando, porém em refutar outras teorias existentes sobre o assunto. No prefácio da versão italiana, Ginzburg, se preocupou em debater as teorias conflitantes, refutou as outras perspectivas, analisou obras anteriores e apresentou os desafios de se fazer uma pesquisa histórica e produção historiográfica. E também se preocupou em mostrar como se pode superar a idéia de que as “classes subalternas” apenas fazem um acumulo de fragmentos de idéias, crenças, visões de mundo que são elaboradas pelas classes dominantes. Ginzburg promove no prefácio da versão italiana uma discussão sobre a relação entre cultura das “classes subalternas” e das “classes dominantes” (p.12).

A obra de Ginzburg discorre sobre a vida de um moleiro[2] de nome Domenico Scandella, conhecido por Menocchio. O período em que se passa à narrativa é o século XVI onde a igreja Católica perdia o monopólio da salvação das almas para as igrejas que vinham do movimento de reforma, tais como a Luterana, a Anglicana e a Calvinista. Frente a tais acontecimentos a Igreja Católica passou a intensificar a repressão aos que aderiam a Reforma, utilizando especialmente a inquisição como meio repressor das idéias divergentes. Também a classe letrada, composta na sua maioria por clérigos, perde o monopólio do saber para a imprensa, após a invenção da prensa por Gutenberg[3].

Ginzburg cita que este moleiro de origem simples tinha uma considerável vantagem sobre os demais camponeses, pois este sabia ler, escrever e contar. Isto para o Século XVI era uma raridade entre os camponeses e até mesmo entre os senhores. Esta habilidade proporcionou ao moleiro o acesso a várias obras literárias e religiosas da época, tais como: O Decameron, A Divina Comédia, As Viagens de Mandeville e até o próprio Alcorão.

A leitura que Menocchio fazia desta vasta literatura era submetida a um filtro gerenciado por uma espécie de “chave de leitura” que era capaz de produzir na mente do moleiro uma nova concepção sobre a origem da vida e sobre as orientações religiosas que deveria seguir ou abandonar. Este fato revela que havia um contato com a cultura dominante, mas esta estava em interação com a cultura das “classes subalternas”.

“[...] Confrontando, uma por uma, as passagens dos livros por ele citados com as conclusões às quais chegava [...] nos vemos às voltas, invariavelmente, com lacunas e deformações, às vezes profundas. [...] mais do que o texto, portanto, parece-nos importante a chave de sua leitura, a rede que Menocchio de maneira inconsciente interpunha entre ele e a página impressa – um filtro que fazia enfatizar certas passagens enquanto ocultava outra, que exagerava o significado de uma palavra, isolando-a do contexto, que agia sobre a memória de Menocchio deformando sua leitura. Essa rede, essa chave de leitura, remete continuamente a uma cultura diversa da registrada na pagina impressa: uma cultura oral”. (Ginzburg, 2006 p.72)

No contexto histórico do século XVI, como era possível que um camponês pobre tivesse acesso a esta literatura, que por vezes era alvo da repressão da igreja Católica? Ginzburg nos diz que provavelmente existia na Itália, de então, uma considerável rede de leitores, que incluíam nobres, clérigos e alguns populares. O autor chega a essa conclusão diante de algumas afirmações de Menocchio nas quais ele cita que conseguia os livros através de contatos, e que alguns destes incluíam membros da própria igreja Católica.

Referente à eclesiologia de Scandella, Ginzburg cita que esta é uma junção de princípios luteranos, anabatistas e da própria mitologia camponesa. Por exemplo, quando ele afirma que o mundo teve origem na putrefação e faz uma associação do mundo a um queijo, que após qualhar dá origem a vermes, Menocchio faz alusão a uma crença comum da época, de que os seres vivos têm sua origem na natureza inanimada. Portanto, vemos que esta característica do pensamento do moleiro é fruto do cotidiano, dos hábitos e práticas, fazendo uma tentativa de racionalizar o mundo, no que diz respeito a sua origem.

Vale dizer que Carlo Ginzburg procura nesta obra não limitar o texto ao personagem. O autor monta um cenário contextual que se torna “palpável” ao leitor. O cenário em que ocorre a trama é de crise e efervescência. A sociedade tentava por um lado manter as características feudais e por outro lado procurava buscar os avanços proporcionados pelas cidades e pelo comércio. Ginzburg dá destaque a essa efervescência de idéias, a Reforma, o Renascimento, os árabes, etc. O autor com sua obra desconstrói os mitos antigos que a historiografia tradicional havia criado, no caso, o de que havia uma homogeneidade e cumplicidade entre os membros da classe dominante. Também não havia homogeneidade entre as “classes subalternas”, conforme nos diz Ginzburg.

O autor aprofunda-se nas pesquisas dos costumes populares e identifica que devido à cultura extremamente religiosas muitas funções, profissões, ou mesmo hábitos, tornava uma pessoa indesejada. O moleiro era uma destas pessoas, conforme o poema de André de Bergamo, muito popular na época, que diz que “um verdadeiro moleiro é meio luterano” (p.181), ou ainda em um canto popular da Toscana:

Fui até o inferno e vi o Anticristo [...]
Pela barba um moleiro segurava
E tinha um alemão por sob os pés
E um taverneiro e um magarefe presos:
Lhe perguntei qual era o mais malvado
E ele me disse: ‘Atenta que eu te mostro.
Vê bem quem é que com as mãos rapina:
O moleiro que mói a alva farinha.
Vê bem quem é que com as mãos agarra:
O moleiro que mói a farinha alva.
Da quarta parte salta o alqueire inteiro:
O mais ladrão de todos é o moleiro.
(Ginzburg, 2006 p.181)

Ginzburg cita que provavelmente este imaginário pesou para as denúncias e a subseqüente condenação de Menocchio.

Eu considero a obra “O queijo e os vermes” muito boa para a utilização nas faculdades, entre os graduandos de história. Carlo Ginzburg é um pesquisador de arquivos e mostra-se um verdadeiro historiador no pleno sentido da palavra. Sua obra nos motiva a estarmos alertas ao acaso que pode nos apontar uma intrigante história capaz de revelar o momento historiográfico.

Carlo Ginzburg é professor, escritor, historiador e arqueólogo. Nasceu na Itália em 1939, filho do professor e tradutor Leone Ginzburg e da romancista Natalia Ginzburg, estudou na Scuola Normale Superiore de Pisa, e em seguida no instituto Warbug em Londres; ensinou história moderna na universidade Bolonha e, em seguida na universidade Harvard, Yale e Princeton e na universidade da Califórnia, Los Angeles, onde ocupou por duas décadas, até 1988, a cadeira de história do renascimento italiano. Desde 2006, ele ocupa a cadeira de história cultural européia na Scuola Normale Superiore de Pisa. Ganhador de vários prêmios literários, conhecido como um dos pioneiros da micro-história.

Principais obras: “O queijo e os vermes”, “O fio e os rastros”, “Os andarilhos do bem”, “Nenhuma ilha é uma ilha”, “Histórias noturnas” e “Mitos, Emblemas e sinais”.

Referências:

GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
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[1] Ginzburg argumenta: “uso a expressão [...] ‘classes subalternas’ por ser suficientemente ampla e despida das conotações paternalistas de que está imbuída ‘classes inferiores’.” (p. 199)

[2] Moleiro (do latim molinarìus) é uma antiga profissão ligada à moedura de cereais, especialmente à do trigo para a fabricação de farinha. O termo moleiro denominava tanto trabalhadores braçais de um moinho, como o proprietário de uma moenda.

[3] Gutenberg foi o primeiro europeu a usar a impressão por tipos móveis, por volta de 1439, e foi o inventor global da prensa móvel. Sua invenção verdadeiramente memorável foi a combinação desses elementos em um sistema prático que permitiu a produção em massa de livros impressos e que era economicamente rentável para gráficas e leitores. O uso de tipos móveis foi um marcante aperfeiçoamento nos manuscritos, que era o método então existente de produção de livros na Europa, e na impressão em blocos de madeira, revolucionando o modo de fazer livros na Europa. A tecnologia de impressão de Gutenberg espalhou-se rapidamente por toda a Europa e mais tarde pelo mundo.





























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