As palavras “ser” e “tempo”, utilizadas por Alfredo Bosi em sua obra, constituem-se em um verdadeiro jogo criativo da inteligência em movimento, alerta e sensível, no espaço que vai do geral ao particular; dos parâmetros da essência às formas de sua atualização histórica; do ser ao tempo da poesia. O ser da poesia, a imagem que “busca aprisionar a alteridade estranha das coisas e dos homens”; o som no signo, “a figura do mundo e a música dos sentimentos” recuperadas via linguagem; o ritmo da frase do discurso poético, “imagem das coisas e movimento do espírito”; esses são conceitos que Bosi nos transmite de forma brilhante. Alfredo Bosi é um grande divulgador das idéias estéticas do filósofo italiano, Giambattista Vico, que foi uma mente poética em tempos analíticos e investigou o ser da Poesia, em termos de linguagem, numa abordagem antecipadoramente estrutural.
Ao abranger o tempo da poesia, Vico, analisa a resposta dos poetas ao estilo capitalista e burguês de viver, desde “o autismo altivo” do “símbolo fechado” à paródia negativista que “brinca com o fogo da inteligência”; os valores religiosos, éticos e políticos da ideologia a fundarem de perspectiva.
O interesse de Bosi é pelo “Ser” e a “Origem” da Poesia. Ele busca salientar o primado da linguagem poética numa nova ordem de valores. Bosi faz uma analise da orientação pedagógica de Vico, que apelava para que a Filosofia não se isolasse em “puras abstrações lógicas”, mas que ela tivesse interesse, desenvolvesse interesses, também, no campo de outros “produtos culturais, como a literatura. Era preciso dar destaque à arte da invenção, tendo em primeiro plano a arte poética e o espírito platônico”. Segundo o filosofo Vico, seria uma “pretensão quimérica”, querer, com a lógica, explicar todas as realizações humanas, como a poesia, que não pode ser demonstrada logicamente, não tendo assim nada a ver com as “verdades matemáticas”.
Segundo o comentário do professor Bosi, Vico distingue a “linguagem mítica da linguagem silogística”. Na “linguagem mítica”, está contida a mimese de Aristóteles, ou seja, a verossimilhança da Arte, que não é a realidade pura e simples, mas algo semelhante a realidade à realidade. Na linguagem silogística está amarrada a sentenças precisas. O único modelo do saber, o lógico, está ultrapassado, e torna assim a Filosofia impraticável numa conversação em que entrasse a experiência da Poesia. Não haveria diálogo entre mimese e logicidade. A redução do conhecimento à razão seria como reduzir o sensível, inteiramente, ao sentido.
Portanto, em seu livro “O Ser e o Tempo da Poesia”, Alfredo Bosi, constrói uma teoria/crítica que focaliza a Literatura, mas também dá destaque a erudição e o interesse humanístico tornando-a transcende para todas as outras formas de arte e expressões da cultura humana: música, artes plásticas, religião, mitologia, filosofia, psicologia, antropologia e até mesmo a sétima arte, o cinema.
Bosi ressalta que Vico procura a união entre Filosofia e Filologia, isso porque ele considera a linguagem um repositório de mitos, de fábulas, o que chamam de “expressões do espírito”, a cuja vinculação se acha, de modo preponderante, a Poesia. O professor Bosi, desenvolve seu estudo no sentido de que não haja uma separação entre o sensível e o inteligente. Nos nossos dias, há também essa tendência entre a Filosofia e a Estética, em reconhecer os dois estados, o do sensível e o da inteligência. Tal postura, em relação à aceitação das duas categorias, separadamente, seria hierarquizar o saber, ou seja, o luminoso e o cego, o racional e o sensível, o lógico e o empírico. Portanto, os modos de dizer e de pensar unem o significante e o significado, e o lado sensível do ser humano adquiriria maior liberdade. Vico foi o fundador da Estética moderna, filosoficamente falando, como uma “fenomenologia do saber imaginário”, do fantástico. Ele monta a palavra “mitopoética” exatamente para indicar a origem sagrada das posturas antigas do “saber sensível”.
Neste artigo, procurarei ver como a construção de um poema aplica de maneira prática, e como os conselhos de Bosi são essenciais neste desenvolvimento. O poema utilizado será de Gilberto Mendonça Teles, de sua obra, “Fábula de Fogo” (1961), com o poema que se intitula: Poética. Trata-se de um “metapoema”, onde Gilberto Mendonça Teles, fala sobre a arte de fazer poema. Com seus versos curtos, composto de sestinas, ele nos explica como a construção de um poema pode ser comparado a construção da vida. Vejamos a seguir, o poema na integra, e logo após faremos uma analise utilizando os conceitos apresentados por Alfredo Bosi.
Poética
I
Resolvo o meu poema
Sob o silêncio neutro
Das palavras perdidas
Na paisagem dos signos.
Pois saibam todos que
Meu mundo tem raízes
Além da realidade.
Não dessa realidade
Contida num cristal,
Alegre e transparente
E sem tranqüilidade.
Mas desta que sustenta
O seu próprio realce.
Sossegada em si mesma
Mas pronta para o salto.
Às vezes moderada
E muda, mas presente.
Presente e tão constante
Na sua exatidão
Que chega a ser um campo
Como os demais. E chega
A ser apenas número
Sem forma e distinção,
Ou qualquer vegetal
Entre os outros vegetais,
Ou simples edifício
Plantado indiferente
No centro da cidade.
II
Não também esta real
Ou falsa coisa-pedra
Ou qualquer coisa mesma
Impalpável ou não.
Uma árvore sem caule,
Presa no ar, calada,
Gesticulando apenas
A sua discrição.
Ou pássaro prudente,
Tranqüilo no seu vôo,
Também suspenso e mudo
Nalguma solidão.
Nem rio que se faça
Em rio de brinquedo
Espada de aço impuro
Entre a prudência e a mão.
Espada de tão curva
Que o contato da tarde
Arqueia no horizonte,
Nada que só pudesse
Valer-se de seu pouso
Para lançar no espaço
Um cone de penumbra,
E que durasse apenas
O tempo de uma lâmpada
Acesa na memória.
III
Meu mundo tem raízes
Além da realidade.
Melhor dizer, aquém
Da própria realidade
Ou dentro dela mesma
No que ela tem de puro,
De triste, de tão sujo
Que nela se mistura
E se torna o sinal
Da antiga transparência
Daquilo que se sabe
Ser leve como a vida.
Ou seja, a própria vida
Que por ser vida é breve
E por ser breve em nada
Perturba a cor do tempo
Na sua eternidade.
Assim, meu mundo é o mundo
Com suas coisas todas.
Imagens retorcidas
Nas contrações do olhar
E reduzidas todas
Ao mais puro silêncio.
E que, por ser milhares,
Se juntam noutro mundo,
Noutra paisagem, dentro
Da nova realidade
Cuja face de sombras
Amanhece cantando
No poema.
Na primeira estrofe, da primeira parte, podemos perceber a orientação do autor em como se faz um poema.
Resolvo o meu poema
Sob o silêncio neutro
Das palavras perdidas
Na paisagem dos signos.
Segundo Bosi, existe uma “maleabilidade infinita” com que o homem pode trabalhar a matéria fonética, estabelecendo assim uma relação constante e congruente entre o som e o sentido. E até do silêncio, que parece puro vazio, ausência de som, o poeta arranca de lá um mar de significados. Assim, se completa o objetivo principal da nossa linguagem que é dar uma direção, suprir a ausência de pessoas, coisas e ações e conseguir assim extrair ou fazer com se exprima sentimentos e pontos de vista, relacionados com a experiência vivida.
Os primeiros homens, como se fossem crianças do gênero humano, não sendo capazes de formar gêneros inteligíveis das coisas, “tiveram necessidades naturais de imaginar os caracteres poéticos, que são gêneros ou universais fantásticos”. Assim a poesia foi fundada “nas exigências de simbolização, dos primeiros homens, e ela, a poesia, sobrevive por uma espécie de lei eterna”, porque, no ser humano, parece existir uma necessidade de criação simbólica, e esta pode ser encontrada até mesmo no silêncio, na ausência de som.
Na segunda estrofe, da primeira parte, há uma busca do além físico, ele, o poeta, passa a considerar os efeitos que o tempo teve sobre o seu entendimento da vida e consequentemente em sua forma de fazer poesia. Assim, o poeta passa a recordar uma realidade já vivida, que por ser uma recordação, essa realidade já está no coração e, portanto, nem é mais uma realidade e sim uma invenção.
Pois saibam todos que
Meu mundo tem raízes
Além da realidade.
Não dessa realidade
Contida num cristal,
Alegre e transparente
E sem tranqüilidade.
Nesta busca que o poeta faz do além físico, há uma “retração decidida da linguagem para si e em si própria”. Ele atinge uma liberdade tal, na forma de colocação de seu poema, que se sente a vontade para mover o seu campo de aplicação do campo histórico e político para um espaço intratextual cujo referente é uma entidade metafísica, maiúscula (a Sensação, o Belo, o Ser, o Nada) ou a própria letra. Veja que ele alcança a partir desse momento histórico, um grau muito alto de autonomia, e o que no parnasianismo, era pensado como adequação da linguagem às coisas, passa a ser visto como inerente aos materiais do poema: os sons, os ritmos, as imagens verbais.
Mas a verdade dessa posição, ou desse recordar, é uma meia verdade, uma invenção. Entre a primeira formulação do poema e a essa segunda aparição, pela recordação do signo, o tempo passou, correu. Segundo Bosi, “O tempo é que faz crescer a árvore, rebentar o botão, dourar o fruto”. A recordação, a volta, não reconhece apenas, o aspecto das coisas que voltam, ela abre também o caminho para sentir o seu ser. A palavra que retorna pode dar à imagem evocada a aura do mito. A volta é um passo adiante na ordem da conotação, logo na ordem do valor. Então o que antes não tinha tanto sentido, passa a ter, o que antes tinha uma carga sentimentos, passa a não ser diferenciado das coisas do cotidiano. Ou seja, o mesmo movimento que permite o sossego do retorno pode aceder à diferenciação para a frente do discurso.
Passando para a terceira estrofe, da primeira parte, nota-se que o poeta se concentra na busca de uma realidade estética. Ele está ciente de que a linguagem verbal está ligada a visão, enquanto que nosso pensamento está vinculado aos sons, tanto que não conseguimos pensar em algo que não tem nome. O texto que, ora está parado, pode de repente saltar diante de nossos olhos e assim fazendo tem o poder de mudar nossos sentimentos mudando o ritmo de nosso coração.
Mas desta que sustenta
O seu próprio realce.
Sossegada em si mesma
Mas pronta para o salto.
Às vezes moderada
E muda, mas presente.
Presente e tão constante
Na sua exatidão
Que chega a ser um campo
Como os demais. E chega
A ser apenas número
Sem forma e distinção,
Ou qualquer vegetal
Entre os outros vegetais,
Ou simples edifício
Plantado indiferente
No centro da cidade.
A uma comparação do poema com a paisagem. Se o que compõe a paisagem são os vegetais, da mesma forma, o que compõe o poema são as palavras. Um poema não é feito de idéias, um poema é feito de palavras. Havendo uma interação das palavras é formada uma imagem perceptível e as imagens aparecem ao olho como algo de firme, de consistente.
A teoria da forma ensina que a imagem tende, para nós, ao estado de sedimento, de quase-matéria posta no espaço da percepção, idêntica a si mesma. Nós acreditamos fixar o imaginário de um quadro, de um poema, de um romance. Quer dizer: é possível pensar em termos de uma constelação, se não de um sistema de imagens, como se pensa em um conjunto de astros. Como se objeto e imagem fossem entes dotados de propriedades homólogas.
Mas somos advertidos do perigo do engano, mesmo que parcial, que a identificação pode supor. A imagem não decalca o modo de ser do objeto, não há uma reprodução exata do ser, ainda que de alguma forma essa identificação nos ajude a apreender o objeto. Isso se dá, porque o imaginado é, ao mesmo tempo, dado e construído. Dado, enquanto matéria. Mas construído, enquanto forma para o sujeito. Dado: não depende da nossa vontade receber as sensações de luz e de cor que o mundo provoca. Mas construído: a imagem resulta de um complicado processo de organização perceptiva que se desenvolve desde a primeira infância.
O paladar, o gosto muda com o tempo. Quando criança, a nossa preferência era certamente por coisas doces e coloridas, agora como adultos já somos capazes de comer verduras, inclusive jiló, e até apreciarmos o seu amargo. O mesmo se dá com os sentidos, a medida do tempo, vamos fazendo uso de um, de outro, de outro e com o passar dos anos, a junção destas sensações, destes sentidos formam a realidade para nós naquele presente no tempo. Ou como nos diz Bosi, nós, submetemos a matriz imagética a uma bateria de relações que excitaram os poderes diferenciadores do enunciado. A um movimento das relações de modo, tempo, número, pessoa, causa, inclusão, oposição e contradição.
Neste ponto somos levados a considerar a potência expansiva do discurso, a reflexão filosófica tem de ser aplicada junto à formação das imagens, para que se chegue a uma formação da realidade. Se pegássemos apenas a imagem absoluta, sem a reflexão filosófica do discurso, ou a potência expansiva, esta nos daria a sensação de algo empedrado: “o meio do caminho o meio do caminho o meio do caminho a selva a selva a selva”. Quando se faz uma fragmentação da imagem pela reflexão filosófica, esta se revelará neste processo expansivo, com um grande poder de antecipação.
A seguir, passemos para a primeira estrofe da segunda parte, onde o poeta estabelece um diálogo com o leitor, nas suas considerações sobre os efeitos do ritmo, relacionado com os sons, no entendimento poético.
Não também esta real
Ou falsa coisa-pedra
Ou qualquer coisa mesma
Impalpável ou não.
Uma árvore sem caule,
Presa no ar, calada,
Gesticulando apenas
A sua discrição.
Ou pássaro prudente,
Tranqüilo no seu vôo,
Também suspenso e mudo
Nalguma solidão.
Para o entendimento da poesia a um andamento, uma movimentação rumo a formulação da realidade, isto é feito por se usar palavras que alterem o ritmo do poema, assim o leitor é movidos a buscar uma posição, a assumir qual lado assumirá nesta reflexão filosófica a que é submetido o poema.
O andamento da poesia é um efeito móvel da compreensão. É o modo sonoro pelo qual se dá a empatia entre o leitor e o texto. Neste andamento se conjugam fôlego, intenção, duração. Dele dependem, na leitura e na execução musical, as medidas internas do ritmo. O andamento é o tempo qualificado. É necessário apreciar na sua justa medida o poder semântico do andamento. Ao se visualizar e ler um texto poético é preciso fazer uma interpretação dos acontecimentos, vivenciar o andamento do poema, desta forma se consegue perceber em qual sílaba se deve concentrar o apoio do sopro vocal, e que sílabas devam rolar vibráteis e brandas pelo intervalo que separa os momentos fortes do período.
Nesta estrofe é sintetizada a filosofia de Saussure, em que ele afirma que a Linguagem humana é “pensamento-som”. O interessante é que o pensamento e o som, não se comunicam entre si, mas já aparecem na sociedade, reunidos em articulações que se chamam signos. Novamente reafirmamos o fato de o homem ter vinculo entre o pensamento e o som, não se consegue pensar em algo que não se tenha nome. Para Saussure, nada há de verbal aquém da síntese pensamento-som, nem além dela. O som em si e o pensamento em si transcendem a língua. A experiência, porém, mostra que a poesia vive em estado de fronteira, entre o pensamento e o som. No poema, força-se o signo para o reino do som.
Constitui um fenômeno histórico e social, a conjunção de certos pensamentos a certos sons. Na teoria de Saussure, isto é chamado de “arbítrio”, ou seja, sem um aviso prévio o signo pode se tornar irreconhecível, ou pode permanecer em um estado por um longo tempo. Bosi, diz que o signo não se comporta como uma espécie fixa do mundo vegetal, como por exemplo, uma samambaia, que se reproduz idêntica em nosso planeta há trezentos milhões de anos. O seu valor apura-se exato em um contexto. E as conotações que o penetram são, quase sempre, ideológicas.
Na segunda estrofe, da segunda parte, Gilberto Mendonça Teles, faz alusão ao trabalho do poeta, este não é simples, é árduo, é sofrido, precisa-se esperar o seu tempo determinado, não a como se apressar uma poesia, contudo sem a pesquisa, sem se perscrutar os caminhos sinuosos das palavras, não se consegue chegar a trabalho satisfatório.
Nem rio que se faça
Em rio de brinquedo
Espada de aço impuro
Entre a prudência e a mão.
Espada de tão curva
Que o contato da tarde
Arqueia no horizonte,
Nada que só pudesse
Valer-se de seu pouso
Para lançar no espaço
Um cone de penumbra,
E que durasse apenas
O tempo de uma lâmpada
Acesa na memória.
“O tempo de uma lâmpada acessa na memória”. Quanto trabalho, quanta pesquisa foram necessários para se chegar a este exato momento, em que o poeta é recompensado pelo seu diligente trabalho, a composição da poesia. O poeta obter esta imagem no poema, que nada mais é do que uma palavra articulada, a síntese do signo. Desta forma, a matéria verbal se enlaça com a matéria significada por meio de uma série de articulações fônicas que compõem um código novo, a linguagem.
O valor da escuridão, de angústia ou da morte não se produz apenas no som da vogal, mas em todo o processo de sonorização do tema, que enlaça o jogo de ecos e contrastes, o ritmo, o metro, o andamento da frase e a entoação. Um poema não se torna trágico somente por se incluir a palavra morte de uma forma isolada, como também não se tornaria um poema de amor somente por constar neste texto a palavra amor, ou beijar ou se abraçarem. Para que haja um sentimento, para as palavras evoquem o poder dos sentidos é necessário toda uma construção sonora e reflexiva no poema. Não dar essa base para que as palavras assumam seus significados com vigor, seria o mesmo que querer começar a construção de um edifício pelo último andar, isso não será com certeza possível, somente depois de toda uma estrutura de base estar pronta é que pode atingir o clímax, o último andar.
No poema, deve-se evitar forçar o sentido das palavras, ou não se pode torcê-las para que dêem um resultado desejado. Quando falta um esforço integrador, resultam pobres não poucas análises apenas fonológicas; e dessa carência vem o “sentimento de forçar a mão que tantas vezes inspiram”, nos diz Bosi.
Na primeira estrofe, da terceira parte, Gilberto Mendonça Teles, descreve um acordo subjetivo entre as reações globais. Ele nos mostra que esta em andamento uma construção e reforça ainda mais a necessidade de se reforçar as estruturas desta construção. Mas que construção está sendo erguida? Como a idéia de imagem, vem completar esse quadro da realidade? O poeta, nos faz pensar em quando olhamos para as nuvens nos céus e conseguimos visualizar um cachorrinho, ele está lá, lindo, fofinho, mas no momento seguinte, quando desviamos nosso olhar por alguns segundos: Puft! Sumiu! O cachorrinho desapareceu, e em seu lugar surge outra personagem qualquer. O signo pode também mudar o seu sentido, quase como num estalar de dedos, ou pode se manter em uma forma estável por um período grande.
Meu mundo tem raízes
Além da realidade.
Melhor dizer, aquém
Da própria realidade
Ou dentro dela mesma
No que ela tem de puro,
De triste, de tão sujo
Que nela se mistura
E se torna o sinal
Da antiga transparência
Daquilo que se sabe
Ser leve como a vida.
Ou seja, a própria vida
Que por ser vida é breve
E por ser breve em nada
Perturba a cor do tempo
Na sua eternidade.
Vemos destacado pelo poeta a importância dos sentidos em se estabelecer a realidade. Neste ponto, me lembro do conceito de Santo Agostinho, para ele o olho é o mais espiritual dos sentidos. E, por trás de Santo Agostinho, todo platonismo reporta a idéia de visão. Conhecendo por mimese, mas de longe, sem a absorção imediata da matéria, o olho capta o objeto sem tocá-lo, degustá-lo, cheirá-lo, degluti-lo. Intui e compreende sinteticamente, constrói a imagem não por assimilação, mas por similitudes e analogias. Daí, o caráter de hiato, de distância, terrivelmente presente às vezes, que a imagem detém; daí, o fascínio com que o homem procura achegar-se à sua enganosa substancialidade.
Bosi nos diz que mineradores do Id, tais como Freud e bacherlad, tentam neste ponto construir uma ponte entre a imaginação “ativa” e o poema. Porém, deve-se evitar pular da imagem diretamente ao texto, é preciso atravessar o curso das palavras, o seu discurso.
A imagem é influenciada por forças ópticas e psíquicas. A uma carga de tensão em cima da palavra “imagem” e do que ela representa, supõe claramente que se admite um caráter motivado nos processos semânticos, em jogo. Este é realmente um critério válido, segundo Bosi, para se acentuar as virtudes miméticas ou expressivas da onomatopéia e da metáfora, mas sempre é discutível quando este processo parece confundir a natureza lingüística das figuras com a matéria mesma, visual ou onírica, da imagem.
O caráter motivado está presente também nas palavras. Portanto, Bosi nos diz que há palavras que são ditas motivadas, há na verdade, um acordo subjetivo entre as reações globais, sensoriais e emotivas, e o modo de articulação de um determinado som.
Bosi vai ao ponto de dizer que o limiar da expressão, supõe movimentos internos ao corpo. Ou seja, os signos de maior dose de motivação seriam portadores de certas sensações que integram experiências fundamentais ao corpo humano. É claro, que estes “signos motivados”, não fazem uma “pintura” de objetos exteriores, como se os reproduzissem na integra. Não, mas, esse movimento de construção se faz dentro do organismo em ondas movidas pelo poder de significar.
Em alguns casos, nos parece que o signo lingüístico esta mais colado à coisa representada, o que acontece muitas vezes na poesia, e então acontece como que uma operação expressiva organizada em resposta à experiência vivida. Nessa operação o som já é um mediador entre a vontade-de-significar e o mundo a ser significado.
As aparências mais superficiais já são efeito de grau de estruturação que supõe a existência de forças heterogêneas e em equilíbrio. Os grandes teóricos da percepção procuram entender o movimento que leva à forma, e concluíram que os caracteres simétrico/assimétrico, regular/irregular, simples/complexo, claro/escuro, das imagens dependem da situação de equilíbrio, ou não, de forças óticas e psíquicas que interagem em um dado campo perceptual.
Finalmente, na segunda e última estrofe, da terceira parte, o poeta nos mostra que tira o seu poema da realidade, e com a aplicação dos gêneros poéticos, passa a criar uma nova realidade. Ele eterniza essa realidade a transformando em palavras, entrando de uma vez no mundo da poética. Por último também, o poeta destaca a presença do co corpo na produção do signo poético.
Assim, meu mundo é o mundo
Com suas coisas todas.
Imagens retorcidas
Nas contrações do olhar
E reduzidas todas
Ao mais puro silêncio.
E que, por ser milhares,
Se juntam noutro mundo,
Noutra paisagem, dentro
Da nova realidade
Cuja face de sombras
Amanhece cantando
No poema.
Vico afirma: “O trabalho mais sublime da poesia é dar senso e paixão às coisas sem sentido”. Mas também Vico reconhece de maneira dinâmica não só as diferenças entre modos de se enfrentarem “palavra e realidade”, mas, sobretudo, o seu tenso convívio. Ele também, Vico, fala em sabedoria poética, como a de alguns poetas, que usaram tons irracionalistas, palavras míticas carregadas de significados. Já havia um distanciamento em relação ao lógico das coisas, a ser retomados pelas futuras gerações de poetas.
Continua, porém, de pé a pergunta, a inquieta busca que a leitura poética sugere a cada passo: os movimentos, de que os fonemas resultam, não são, acaso, vibrações de um corpo em situação, ex-pressões de um organismo que responde, com a palavra, a pressões que o afetam desde dentro? Esta pergunta nos remete a incancelável presença do corpo na produção do signo poético.
Então, baseado, em Alfredo Bosi, Gilberto Mendonça Teles, Giambatista Vico e Saussure, Fica bem nítido o peso do “Ser” e o “Tempo”, realçando o trabalho incansável dos poetas, que acima de tudo “dão sentido ao que não tem sentido”.
Referências
BOSI, Alfredo, 1936 - O Ser e o Tempo da Poesia. São Paulo, Cultrix, Ed. Da Universidade de São Paulo, 1977. 1. Poesia 2. Teoria literária I.
Fábula de Fogo. São Paulo: Revista dos Tribunais. 1961. Prêmio Leo Lynce, da Uniâo Brasileira de Escritores, Seção de Goiás. TELES, Gilberto Mendonça.
Neste blog deixo registrado o que penso, o que sinto e o que não gostaria de sentir. As vezes posso parecer complicado, então olhe mais de perto e você verá que sou igual a você. Se você se aceita, me aceite também.
sábado, 29 de janeiro de 2011
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
O Que é Poesia - Fernando Paixão
Este resumo faz parte de uma avaliação do curso de Verão, Literatura Brasileira I. Juntamente com minha colega Silvânia Sousa Lima, procuramos neste resumo entender o que é poesia, conforme a visão brilhante do poeta Fernando Paixão.
Como o uso da subjetividade se tornou essencial para a criação e inovação da poesia? O que é mais importante para o poeta? Como o poema pode se tornar uma fonte de prazer? e por fim, porque há tantas dificuldades, hoje, para se entender a poesia moderna? Estas são perguntas que procuraremos responder neste resumo.
_______________________________________________
“Um poema começa com um nó na garganta.” (Roberto Frost)
Fernando Paixão, em seu livro “o que é poesia” diz que a “poesia se caracteriza essencialmente pelo uso criativo e inovador que se faz das palavras, expressando a subjetividade”.
Em outras palavras, Paixão mostra o relacionamento entre a linguagem e a sociedade, analisa também a função do tempo, a poesia e o seu ritmo, a imagem poética e o poema como fonte de prazer, ele procura nos passar a idéia de como acontece o momento da poesia e o efeito que ela tem sobre o poeta e as pessoas a sua volta.
Fazendo um regresso ao passado, Fernando Paixão, analisa a seleção intima e histórica, depois ele menciona que há uma mudança em como se encara a poesia, ela será usada como ampliador dos limites da experiência humana. Neste ponto ele cita como exemplo a letra da musica de Raul Seixas, em que ele se vale da poesia de Cervantes, que diz que sonho que se sonha junto é realidade.
As palavras são a união de letras sensíveis, assim começa o capitulo intitulado “Linguagem tem preço”. O autor faz uma análise sobre as palavras, elas não têm conteúdo concreto, mas abrem caminhos pelo pensamento humano. Em ambos os casos, é certo, há um conhecimento que está sendo transmitido; aliás, a poesia, tanto quanto a filosofia, a história e as artes bélicas, são também uma forma de conhecer e intervir sobre a realidade.
A atitude do poeta com as palavras é sempre imprevisível. Ele escreve um poema para expressar seus sentimentos e este pode ser longo ou pode conter apenas dois versos fulminantes que resumido consegue impactar o leitor fazendo os seus pensamentos seguirem outra direção.
O que é importante para o Poeta? A veracidade e a verdade dos fatos? De modo algum. O que importa para o poeta são seus sentimentos que expõem sua visão de mundo, e ele fará isso recriando o significado das palavras, retirando-as do seu cotidiano e colocando-as em um contexto diferente e, portanto não usual.
Então, o que marca a poesia são o uso criativo e inovador das palavras, e a expressão da subjetividade como marca registrada. As palavras tinham um uso de caráter poético no passado, porém com a divisão dos homens em escravos e senhores ou em classes sociais, forçou-se a poesia a se restringir ao domínio dos poetas.
Todos esses acontecimentos levaram a sociedade a mudar a sua visão e o uso das palavras. A palavra passa a ser usada na política e na propaganda que busca sempre resultados econômicos e sociais. A linguagem poética fica desvalorizada. No entanto, os poetas continuam a mostrar em suas palavras o desejo de liberdade, o desejo de vivenciar pessoas livres socialmente.
O prazer buscado pelo poeta, sua inspiração, é caracterizada justamente na hora em que suas idéias são expressas, no momento em que ele coloca os seus sentimentos de forma vil ou importante, ele consegue atingir o clímax de sua busca. Portanto para o poeta, o instante criador é um momento único. Longe de renunciar a vida, o poeta moderno, luta por ela, procura combater a repressão, a alienação e as injustiças sociais e ele faz isso mesmo tendo que às vezes usar a morte como sua temática.
Paixão apresenta a seguir o que ele considera como sendo uma grande dificuldade da sociedade atual, que é entender a poesia moderna. Isto se dá pelo fato das pessoas lerem poemas como se lê um jornal ou como se estuda um livro didático. Esses materiais impressos lidos pela maioria são como formas de dominação, onde se dita o que se deve e o que não se deve fazer, qual proceder é mal visto, qual a forma de se vestir, que tipo de personalidade deve-se ter, qual a comida que devo consumir e assim por diante. Com a sua letargia mental, acostumados a que os ditadores de normas os conduzam pelas trilhas do viver, se espantam ao perceberem que a poesia fala sobre dúvidas, sobre o incerto e usa expressões de subjetividade. Aterrorizam-se de verem que a poesia, embora tenha toda uma coisa de sucessão de imagens, não conduzem a um aprendizado direto, mas estimulam o uso das faculdades do pensar e procuram aguçar o senso crítico do ser que deveria ser pensante e deveria poder fazer da subjetividade o seu impulso em busca de melhorias.
Mas, o grande causador de tal situação atual se dá ao fato de as pessoas não terem acesso a poesia, estando disponível a uma pequena parcela privilegiada da população, tende-se assim a formar o quadro social poético que Fernando Paixão nos apresenta.
De forma muito interessante, o autor apresenta quatro tempos que se cruzam no momento do poema, revelando a sua concepção na questão temporal. Paixão nos fala sobre o tempo histórico-social presente no contexto ideológico do poema; o tempo pessoal do individuo do poeta, com suas experiências, existências e a sua vivencia na linguagem, que tem sido acumulado durante os anos; o tempo das imagens que aparecem no poema, onde aos poucos são revelados que o poeta tem um universo simbólico; e por ultimo o tempo rítmico da frase, onde o leitor é estimulado a um movimento imaginário no pensamento.
Fazendo uso da subjetividade, o poeta estabelece uma ponte entre ele, com seu universo simbólico e o real. Percebemos ai que todos os tempos, através do uso da subjetividade, passam a se relacionar simultaneamente dentro da realidade, possibilitando que o poeta faça a combinação dos quatro tempos, sintetizados através do tempo poético, apresentando na idéia geral do poema a união desses tempos determinantes.
O papel importante do devaneio, também é apresentado pelo autor, mostrando que através deste o poeta tem liberdade para passar entre as idéias e as coisas da realidade, sem ter que manter uma pré-organização e nem a mesma ordem temporal fixa.
O autor termina o livro dizendo que o ser poético não equivale somente a ter sabedoria para arranjar palavras, organizar versos, mas principalmente saber britar e jardinar fenômenos no mundo da vida: amizade, diferenças, solidariedade, amor, ou seja, uma possibilidade que esteja ao alcance de todos.
Referências
PAIXÃO, Fernando. O Que É Poesia. Editora Brasiliense S.A. São Paulo – Brasil.
Como o uso da subjetividade se tornou essencial para a criação e inovação da poesia? O que é mais importante para o poeta? Como o poema pode se tornar uma fonte de prazer? e por fim, porque há tantas dificuldades, hoje, para se entender a poesia moderna? Estas são perguntas que procuraremos responder neste resumo.
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“Um poema começa com um nó na garganta.” (Roberto Frost)
Fernando Paixão, em seu livro “o que é poesia” diz que a “poesia se caracteriza essencialmente pelo uso criativo e inovador que se faz das palavras, expressando a subjetividade”.
Em outras palavras, Paixão mostra o relacionamento entre a linguagem e a sociedade, analisa também a função do tempo, a poesia e o seu ritmo, a imagem poética e o poema como fonte de prazer, ele procura nos passar a idéia de como acontece o momento da poesia e o efeito que ela tem sobre o poeta e as pessoas a sua volta.
Fazendo um regresso ao passado, Fernando Paixão, analisa a seleção intima e histórica, depois ele menciona que há uma mudança em como se encara a poesia, ela será usada como ampliador dos limites da experiência humana. Neste ponto ele cita como exemplo a letra da musica de Raul Seixas, em que ele se vale da poesia de Cervantes, que diz que sonho que se sonha junto é realidade.
As palavras são a união de letras sensíveis, assim começa o capitulo intitulado “Linguagem tem preço”. O autor faz uma análise sobre as palavras, elas não têm conteúdo concreto, mas abrem caminhos pelo pensamento humano. Em ambos os casos, é certo, há um conhecimento que está sendo transmitido; aliás, a poesia, tanto quanto a filosofia, a história e as artes bélicas, são também uma forma de conhecer e intervir sobre a realidade.
A atitude do poeta com as palavras é sempre imprevisível. Ele escreve um poema para expressar seus sentimentos e este pode ser longo ou pode conter apenas dois versos fulminantes que resumido consegue impactar o leitor fazendo os seus pensamentos seguirem outra direção.
O que é importante para o Poeta? A veracidade e a verdade dos fatos? De modo algum. O que importa para o poeta são seus sentimentos que expõem sua visão de mundo, e ele fará isso recriando o significado das palavras, retirando-as do seu cotidiano e colocando-as em um contexto diferente e, portanto não usual.
Então, o que marca a poesia são o uso criativo e inovador das palavras, e a expressão da subjetividade como marca registrada. As palavras tinham um uso de caráter poético no passado, porém com a divisão dos homens em escravos e senhores ou em classes sociais, forçou-se a poesia a se restringir ao domínio dos poetas.
Todos esses acontecimentos levaram a sociedade a mudar a sua visão e o uso das palavras. A palavra passa a ser usada na política e na propaganda que busca sempre resultados econômicos e sociais. A linguagem poética fica desvalorizada. No entanto, os poetas continuam a mostrar em suas palavras o desejo de liberdade, o desejo de vivenciar pessoas livres socialmente.
O prazer buscado pelo poeta, sua inspiração, é caracterizada justamente na hora em que suas idéias são expressas, no momento em que ele coloca os seus sentimentos de forma vil ou importante, ele consegue atingir o clímax de sua busca. Portanto para o poeta, o instante criador é um momento único. Longe de renunciar a vida, o poeta moderno, luta por ela, procura combater a repressão, a alienação e as injustiças sociais e ele faz isso mesmo tendo que às vezes usar a morte como sua temática.
Paixão apresenta a seguir o que ele considera como sendo uma grande dificuldade da sociedade atual, que é entender a poesia moderna. Isto se dá pelo fato das pessoas lerem poemas como se lê um jornal ou como se estuda um livro didático. Esses materiais impressos lidos pela maioria são como formas de dominação, onde se dita o que se deve e o que não se deve fazer, qual proceder é mal visto, qual a forma de se vestir, que tipo de personalidade deve-se ter, qual a comida que devo consumir e assim por diante. Com a sua letargia mental, acostumados a que os ditadores de normas os conduzam pelas trilhas do viver, se espantam ao perceberem que a poesia fala sobre dúvidas, sobre o incerto e usa expressões de subjetividade. Aterrorizam-se de verem que a poesia, embora tenha toda uma coisa de sucessão de imagens, não conduzem a um aprendizado direto, mas estimulam o uso das faculdades do pensar e procuram aguçar o senso crítico do ser que deveria ser pensante e deveria poder fazer da subjetividade o seu impulso em busca de melhorias.
Mas, o grande causador de tal situação atual se dá ao fato de as pessoas não terem acesso a poesia, estando disponível a uma pequena parcela privilegiada da população, tende-se assim a formar o quadro social poético que Fernando Paixão nos apresenta.
De forma muito interessante, o autor apresenta quatro tempos que se cruzam no momento do poema, revelando a sua concepção na questão temporal. Paixão nos fala sobre o tempo histórico-social presente no contexto ideológico do poema; o tempo pessoal do individuo do poeta, com suas experiências, existências e a sua vivencia na linguagem, que tem sido acumulado durante os anos; o tempo das imagens que aparecem no poema, onde aos poucos são revelados que o poeta tem um universo simbólico; e por ultimo o tempo rítmico da frase, onde o leitor é estimulado a um movimento imaginário no pensamento.
Fazendo uso da subjetividade, o poeta estabelece uma ponte entre ele, com seu universo simbólico e o real. Percebemos ai que todos os tempos, através do uso da subjetividade, passam a se relacionar simultaneamente dentro da realidade, possibilitando que o poeta faça a combinação dos quatro tempos, sintetizados através do tempo poético, apresentando na idéia geral do poema a união desses tempos determinantes.
O papel importante do devaneio, também é apresentado pelo autor, mostrando que através deste o poeta tem liberdade para passar entre as idéias e as coisas da realidade, sem ter que manter uma pré-organização e nem a mesma ordem temporal fixa.
O autor termina o livro dizendo que o ser poético não equivale somente a ter sabedoria para arranjar palavras, organizar versos, mas principalmente saber britar e jardinar fenômenos no mundo da vida: amizade, diferenças, solidariedade, amor, ou seja, uma possibilidade que esteja ao alcance de todos.
Referências
PAIXÃO, Fernando. O Que É Poesia. Editora Brasiliense S.A. São Paulo – Brasil.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
As Origens do Pensamento Grego
Jean-Pierre Vernant, ao escrever o livro “As Origens do Pensamento Grego”, procura resgatar um aspecto social que muita falta tem feito no mundo atual: “O Humanismo”. É digno de nota que entre o pensamento grego havia valores que determinavam o que é cultura. Hoje, a ausência desses valores e do humanismo tem gerado uma “sociedade tecnocrata”. Neste procurarei através do pensamento de Vernant, entender o pensamento grego, suas origens e como esse pensamento pôde influenciar de modo positivo uma sociedade.
Entre os séculos VII e VIII surge a polis grega, ou as cidades-estado. Essa foi uma invenção que teve um aspecto social inteiramente novo entre os gregos.
Um primeiro aspecto de influência da polis se dava ao fato de haver uma superioridade da palavra sobre outros instrumentos do poder. Os gregos transformaram o uso da palavra em uma verdadeira divindade. Raciocinam que esse poder das palavras já é sentido nos rituais religiosos e nos decretos reais. Agora desejam levar essa importância da palavra ao povo em comum, que poderá através da exposição de discursos, atuarem como juízes assegurando a um dos lados a vitória.
Em segundo lugar a polis apresenta a oportunidade de um domínio público, em oposição a processos secretos. Isso se faz por haver discussões em pleno dia, onde todos podem avaliar o conjunto das condutas, dos processos, dos conhecimentos. Os gregos adotaram um sistema totalmente democrático, dando acesso a todos ao plano intelectual. Portanto, quem se impunha pela força, agora deverá fazer uso da dialética para que seja aprovado.
Entre os gregos a vida política era marcada pela palavra falada e agora a palavra escrita passa a marcar a vida intelectual. Através da palavra escrita se faz a redação das leis. O que é garantia de permanência e acessibilidade de todos. De modo que “dizer” o direito se torna o bem comum, a regra geral. É claro que em certos aspectos o caráter divino das leis ainda permanece, mas agora um divino modificável e mais perto das pessoas.
Até mesmo no aspecto religioso o pensamento grego, conforme gerido pela polis, tem a ampla influência. Anteriormente os sacerdotes tinham como propriedade particular a proteção divina, tinham como que um “parentesco especial com esse poder divino”. A polis confisca esse relacionamento particular, pessoal, com o poder divino, e o transforma em acesso público em benefício da população comum. Objetos que eram sacros e eram mantidos em secreto se tornaram imagens que servem para serem vistos e para darem um espetáculo de “ensinamento sobre os deuses”.
Com o surgimento da polis e a mudança do pensamento grego, a sociedade se vê sempre confrontada com dois caminhos a seguir sempre. Havendo assim uma divisão de opiniões e esta não será recusada devido ao fato de ser uma promoção dos gregos. Por exemplo, com o surgimento da filosofia a duas posições a adotar, ou se aceita os mistérios ou se aceita que o mundo seja aberto em todos os aspectos. Os filósofos vivem em conflitos, em uma hora se imaginam iluminados, como todas as respostas e em outra ocasião se retiram do mundo, fechando em si.
Então o pensamento grego trouxe o “prestígio para a palavra”, bem como o desenvolvimento das práticas públicas, e em outro aspecto trouxe também a “semelhança” do povo grego. Embora cada um tenha sua origem, sua função, sua classe, parece que de certa maneira há uma “semelhança” de uns e outros. Esta semelhança produz a unidade da polis.
Com o desenvolvimento democrático da polis grega, há uma rejeição da aristocracia, pois esta reforça o individualismo e assim causa desigualdades sociais, o que seria prejudicial à unidade. Desta forma, este pensamento grego dá o devido valor ao humanismo o que garante no mínimo uma boa convivência entre semelhantes.
A Cidadania entre os Romanos
“ROMA”... Esse nome com certeza evoca a idéia de um império poderoso e duradouro. Não só o poderio militar de Roma era imponente, mas também sua política e sua cultura. Como era tratado o ser individual neste império? O texto de Pedro Paulo Funari nos apresenta o mundo romano que criou sistemas, filosofias e idéias que até hoje são perseguidos.
Funari mostra logo no começo do seu texto que devido à diversidade de povos existentes em Roma, uma característica desta cidade era a liberdade que se tinha ao seguir sua cultura pessoal, seus costumes religiosos e de ter direitos básicos a cidadania. Diferente dos gregos, que tinham a polis em primeiro lugar e só depois vinha o cidadão, para os romanos era o conjunto que formava a coletividade.
As instituições e formas de governos romanos originais foram estabelecidas pelos etruscos, que eram os principais invasores. Neste sistema havia uma divisão de grupos: a nobreza e o restante da população. Da mesma forma duas divisões existiam entre os romanos: os patrícios e os plebeus. Também se pode destacar o papel feminino na sociedade. Havia uma grande participação das mulheres na elite romana, o que era surpreendente, pois no mediterrâneo as mulheres tinham pouco ou nenhum destaque.
Durante a república romana, especialmente nos séculos IV e V, houve uma grande luta interna entre duas classes existentes em Roma, que eram os patrícios e os plebeus. Os patrícios eram os proprietários rurais, que formaram uma oligarquia. Eram eles que ocupavam os cargos públicos e religiosos, detinham também um grande poder militar. Esses patrícios eram os únicos cidadãos de pleno direito. Os plebeus abrangiam o restante da população, a massa de pessoas que não possuíam propriedades rurais. Esse grupo da plebe era composto por camponeses livres, artesãos urbanos e os comerciantes. O que incluía também descendentes de estrangeiros residentes em Roma.
Somados aos patrícios e aos plebeus existia mais duas classes que eram os clientes e os escravos. Os clientes eram agregados a serviço dos “homens bons”, os patrícios. Eles mantinham uma relação de fidelidade ao patrono a quem deviam serviços e apoios e de quem recebiam terra e proteção. Entre estes havia uma mobilidade social, podiam ganhar a liberdade e integrarem a plebe como também poderiam perder a liberdade e retornarem a condição de clientes. Os escravos por sua vez eram domésticos e faziam parte da propriedade dos patriarcas. Não havia, portanto, entre eles essa mesma mobilidade que existia entre os clientes.
A sociedade romana passa por grandes transformações a partir do momento que uma parte da plebe urbana consegue acumular riqueza, no entanto, continuam sem ter igualdade de direitos em relação aos patrícios. Assim, os plebeus urbanos buscavam os direitos de cidadão, queriam votar, ocupar cargos públicos, ter direitos políticos e sociais. Ao mesmo tempo os plebeus rurais iniciavam um movimento pelo fim da escravidão por dívida e queriam parte nas terras conquistadas de outros povos.
Com a expansão romana, havia a necessidade cada vez maior de contingente humano, para completar as fileiras militares. Desta forma, os plebeus tinham um poder maior de barganha, ou seja, lutavam no exército em troca de terem direitos políticos, sociais e acesso a terra. A união entre a plebe urbana e a plebe rural fortaleceu o movimento e provocou grandes mudanças na sociedade romana. No século III a.C, as camadas plebéias superiores passaram até mesmo a integrar a elite aristocrática.
Foi durante o século III a.C. que Roma passou por uma grande expansão territorial. Primeiro houve a expansão pela Itália antiga e logo a seguir a segunda guerra Púnica. Essa expansão militar trouxe benefícios e conseqüências para a sociedade romana. Em primeiro lugar aumentou-se grandemente o numero de escravos que eram os prisioneiros de guerras e também aumentou o numero de terras a serem distribuídas entre os patrícios e os plebeus. Mas, como conseqüência pode-se citar o esmagamento da pequena agricultura. Desta forma, a expansão propiciava a riqueza a alguns e levava outros milhares à pobreza, em especial os que tinham pequenas propriedades. Neste cenário não demorou muito para que novas lutas pelos direitos civis fossem desencadeadas.
Entre expansão militar, luta interna pelos direitos, mobilidade social, conquista de direitos e perda da liberdade, foi se formando uma sociedade que apresenta um aspecto público diversificado. Para os romanos a cidadania esta ligada a participação de todos nos assuntos que o império romano. Por exemplo, surge no cenário romano o conceito de opinião (opinio). Assim, os cidadãos romanos podiam concordar ou discordar de algo, tornando assim notória a participação de todos nos assuntos romanos, ou pelo menos estes tinham essa sensação de participação.
Havia também entre os romanos o conceito de “humanidade”, que tinha conotações que ultrapassava a “urbanidade”. As arenas eram um marco para separar os “civilizados”, que freqüentavam espetáculos, dos bárbaros. É claro que nem todos tinham o mesmo conceito a respeito destes espetáculos, mas de qualquer forma eram os cidadãos romanos que dava a palavra final sobre o assunto.
Roma, além de poder militar, legou ao mundo uma cultura ainda hoje admirada e em alguns aspectos ainda seguida em alguns lugares. Roma foi pioneira em dar valor ao individuo como cidadão e inovou ao estabelecer um governo com participação popular.
sábado, 25 de dezembro de 2010
UM "RIO CHAMADO ATLÂNTICO".
Alberto da Costa e Silva, no seu livro “Um Rio Chamado Atlântico”, apresenta uma visão excepcional sobre a relação Brasil/África. Do lado da “outra margem do Rio Atlântico”, seja do lado ocidental ou do lado oriental, semelhanças entre brasileiros e inúmeros povos africanos são bem visíveis.
Com base no texto de Costa e Silva e alçado nas discussões e debates em sala de aula, procurarei encontrar elementos culturais que ligaram o Brasil e a África.
O autor nos mostra que o Brasil teve uma contribuição cultural nada desprezível com elementos que contribuíram para a união Brasil/África. Essa contribuição brasileira não se deram só pelo volume e categoria dos escravos que retornaram ao continente de origem, mas também em como o tráfico desempenhou um papel importantíssimo nas ligações orgânicas entre as duas margens do “Rio Atlântico”.
Houveram trocas culturais nas duas direções. A África recebeu e africanizou a rede, o milho e a mandioca. O Brasil por outro lado, utilizou o Dendê, a Malagueta e a Panaria da Costa. Reis e nobres, que chegaram ao Brasil na condição de escravos, buscaram, algumas vezes, reconstruir o pouco que podiam das estruturas políticas, religiosas e culturais da terra de onde haviam partido.
Quando houve uma redução na mineração de diamante e ouro no Brasil, e consequentemente uma redução no numero de europeus que pra cá vinham com o objetivo de extração mineral, houve um aumento nas ligações Brasil/África.
Com um vasto território para povoar, o Brasil passa a ver na África o seu principal provedor de material humano. Os africanos mesmo oprimidos, humilhados e reduzidos na sua humanidade, pela escravidão, tem um papel fundamental na ocupação do território brasileiro.
Alberto da Costa e Silva nos apresenta uma visão de cultura como sendo elementos presentes na comida, na religião, na arte e até mesmo na linguagem. Estes são responsáveis por aproximarem os dois continentes e mereceu a menção ou comparação a um “Rio, o Atlântico”.
No ano de 1835, ocorreu à guerra do malês, na Bahia, o que ocasionou o degredo de muitos ex-escravos ao continente africano. Entre os que retornaram estavam: negros nascidos no Brasil, mulatos, mamelucos, cafuzos, negros nascidos na África e levados como escravos ao Brasil e dele expulsos ou alforriados. Assim, muitos regressaram por vontade própria, outros movidos por outras forças fizeram o trajeto inverso, rumo ao continente africano.
Ao retornarem, alguns se fixaram em terras distantes das de origem. Mas, mesmo os que retornaram para sua terra natal, encontraram ali uma cerrada estrutura cultural, com costumes e tradições a que não se sentiam mais vinculados. Portanto, procuraram se associar com os seus iguais, que também tinham sido abrasileirados no cativeiro e formaram assim comunidades próprias.
Desde o começo, essas comunidades chamaram a si de “brasileiros”, e assim são conhecidos até hoje. Este fato foi notado pelos colonizadores e houve por parte do ingleses uma tentativa de desvincular a África do Brasil, mas sem sucesso. Até mesmo nas correspondências oficiais com os colonizadores, os abrasileirados, referiam a si como brasileiros e assim também o fizeram seus filhos e seus netos.
Formaram-se bairros próprios de brasileiros como o “Brazilian Quartier”, o “Quartier Brésil” e o “Quartier Marô”, em Ajudá. Em Acra, a comunidade conhecida como povo “Tá Bom” tinha um bairro próprio. Esses bairros existem até hoje em regiões como Benin, Togo, Nigéria e Gana. Alguns dos “Brasileiros” destas regiões tiveram até mesmo participação de destaque na política, na cultura e na arte.
Na ordem inversa, os Iorubás, e os Jejes difundiram fortemente sua cultura na Bahia. Os Congos e os angolanos tiveram grande influência em todo o território brasileiro.
Alberto da Costa e Silva cita Gilberto Freyre que diz que os africanos ficaram “abaianados, acariocados e pernambucanizados”. Nas suas danças e folguedos na África era comum o uso do bumba-meu-boi e também as mascaradas carnavalescas. Na comida utilizam o feijão de leite de coco, a cocada, o pirão, a muqueca de peixe e o cozido.
Na religião, divulgaram o culto a nosso senhor do Bonfim e a são Cosme e Damião. Na arquitetura impuseram os sobrados neoclássicos com seu estilo barroco. Influenciaram o estilo das estátuas em cemitérios e nas figuras de animais em louça e gesso.
Uma forte influência cultural ocorreu especialmente nos muçulmanos brasileiros. Estes estavam mais para católicos no seu comportamento do que para maometanos. Em alguns lugares, como em Porto Novo, eram chamados de “muçulmanos Crioulos”, para os diferenciarem. Muitos deles se casaram com moças católicas, estabelecendo assim uma ponte entre o cristianismo e o Islame. Alguns de seus famosos templos como a mesquita Shitta e a mesquita Central, em Lagos, foram feitas em estilo brasileiro.
Estas trocas culturais promoveram uma união entre o Brasil e a África, transformando o “Atlântico em um Rio”, fácil de ser cruzado. Embora larguíssimo, as “duas margens do Rio Atlântico” estavam unidas, e se confundiam no seu jeito e na sua maneira de ser.
O Brasil se tornou extraordinariamente africanizado. A África está presente nos gestos, na maneira de ser e de viver e no sentimento estético brasileiro. Do outro lado do Atlântico é fácil ver os brasileirismos, como diz Costa e Silva. Há comidas africanas no Brasil, assim como há comidas brasileiras na África. As danças, as tradições, as técnicas de trabalho, os instrumentos musicais, as palavras, o comportamento social brasileiro, estão todos bem visíveis no dia-a-dia da África. Os escravos ficaram dentro de todos nós, seja qual for a nossa origem, Aproximando até hoje as “duas margens do Rio Atlântico”.
domingo, 19 de dezembro de 2010
O MUNDO BIZANTINO
"Bizâncio", este nome com certeza inspira, nos estudiosos, uma verdadeira admiração, pois através de uma cidade, um império ficou fortemente estabelecido. O objetivo deste texto é falar um pouco sobre o império que até os dias de hoje tem sua influência. Alguns chegam ao ponto de dizerem que o império diversificou mas que nunca chegou ao seu fim completo. o fato é que na época este era o centro do universo. Vejamos, então, um pouco deste universo de poder e glória.
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Bizâncio era uma antiga cidade estado, uma polis, situada às margens do Bósforo. Sua importância era pequena no cenário político da época. Porém, quando Constantino (306-37), escolheu esta cidade para se tornar a nova capital do Império, ela passou de uma cidade sem expressão para o “centro do universo”. Constantino rebatizou a cidade com o nome de “Constantinopla”, em homenagem a ele próprio. Tudo indica que sua escolha se deu devido ao ponto estratégico da cidade, que facilitava a vigilância nas regiões do Danúbio e do Eufrates.
Houve empenhos para que esta cidade se tornasse o ponto de unidade do império romano. Justiniano I (527-65) fez esforços concentrados com esse objetivo e tentou estabelecer ali em Bizâncio uma nova Roma. Contudo, o que se podia ver era o surgimento de uma nova entidade e embora chamassem o império de império romano e a si de romanos, as diferenças eram bem nítidas, especialmente no que tange a capital do império.
Os imperadores romanos procuravam dar a cidade de Constantinopla o Status patriarcal. Eles adotaram a “filosofia Judeu-romana de povo eleito”, os “novos israelitas”, e a cidade de Constantinopla seria a “Nova Jerusalém”. Com seu passado romano-judeo-grego, Bizâncio se torna imperial, cristã e metropolitana.
Durante o governo de Teodósio I (379-95) a cidade alcançou o Status patriarcal que buscava. Este período foi marcado por um grande crescimento. Constantinopla, embora nunca possa ser comparada com Roma, ninguém pode negar que na época ela se tornou o “centro de gravidade do império”, transferindo assim as atenções do ocidente para o oriente. O fato é que a parte ocidental ficou fraca e a mercê dos inimigos. No começo os imperadores bizantinos cumpriam com a sua obrigação para com o ocidente enviando ajuda militar, que culminou na grande expedição de Leão I, ao norte da África para tentar livrá-los dos Vândalos.
A estrutura da cidade era em torno de uma praça, onde ficava o “Foro de Teodósio”. Era também uma cidade composta de bairros. Normalmente estes bairros cresciam em volta de casas de pessoas influentes, onde se buscava uma proteção para si e sua família, por estarem ali próximos destas pessoas influentes. Tudo indica que se criou uma espécie de “clientelismo”, onde o povo comum esperava obter proteção e em troca ofereciam seus préstimos aos nobres e de destaque.
Criou-se também um sistema monástico urbano na cidade de Constantinopla. Os monges urbanos adotaram uma filosofia que os tornava diferentes dos monges do deserto. Eles não queriam se isolar, mas procuravam a vida em comunidade e para serem aceitos, utilizaram a caridade. Os monges urbanos sempre tiveram grande influência no império, tinham poder para se oporem aos imperadores ou aos patriarcas.
Roma seguia a tradição helenística, que atribuía poder divino ao imperador. Agora com a conversão ao cristianismo houve a necessidade de fazerem uma adaptação. Constantino, por exemplo, tomou ação para deixar clara sua posição, ele se dizia “igual aos apóstolos” e “amigo de Jesus”. Tinha porém, pretensões nada modestas de construir o seu mausoléu na “igreja dos santos apóstolos”, cercado de relíquias dos santos.
Justiniano I realizou muito pelo império bizantino ao codificar as leis romanas, que foram terminadas em 533. Embora ele diga que a lei codificada por ele seja uma volta a lei romana clássica, houve sim, uma repaginação das leis.
A unidade no Mediterrâneo foi com certeza a pretensão de Justiniano, e ele muito fez para isso. Contudo, a os que dizem que durante o seu império, houve elementos que deram inicio a crise que desestabilizou o império bizantino. Após a morte de Justiniano, em 536, a região do Danúbio ficou desprotegida, o que facilitou a entrada dos Avaros que conseguiram preencher o território deixado vago pela confederação dos Hunos, cerca de um século antes.
O que podemos notar na trajetória da cidade de Bizâncio é primeiro uma cidade sem expressão, mas que se tornou o centro do universo e marcou um período de transição da era antiga para a medieval, desempenhando um papel fundamental para a sobrevivência de um poderoso império, o romano.
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Nos Braços da Morte: A Peste Negra no Limiar da Idade Média. baseado no Artigo da Profª Renata Cristina de Sousa Nascimento.
Este Texto esta baseado no Artigo “Nos Braços da Morte: A Peste Negra no Limiar da Idade Média”, da Profª. Drª. Renata Cristina de Sousa Nascimento, publicado no livro “História Medieval II: a baixa idade média”, organizado por José Carlos Gimenez, nas paginas 99 a 111.
“No ano do Senhor, 1348, aconteceu sobre quase toda a superfície do globo uma mortandade que raramente se tinha conhecido semelhante. Os vivos, de fato, não conseguiram enterrar os mortos, ou os evitavam com horror. Um terror tão grande tinha se apoderado de quase todo mundo, de tal maneira que no momento que aparecia em alguém uma úlcera ou um inchaço, geralmente embaixo da virilha ou da axila, a vítima ficava privada de toda assistência, e mesmo abandonada por seus parentes. O pai deixava o filho em seu leito, e o filho fazia o mesmo com o pai. Não é surpreendente, pois, que quando numa casa alguém tinha sido tocado por este mal e tinha morrido, acontecesse muito frequentemente, todos os outros moradores terem sido contaminados e mortos da mesma maneira súbita; e ainda mais, coisa horrorosa de ouvir, os cachorros, os gatos, os galos, as galinhas e todos os outros animais domésticos tiveram o mesmo destino. Aqueles que estavam sãos fugiram apavorados de medo. E assim, muitos morreram por descuido, os quais talvez tivessem escapado de outro modo. Muitos ainda, que pegaram esta doença e dos quais se acreditava que morreriam com certeza imediatamente sobre o chão foram transportados, sem a mínima discrição até a fossa de inumação. E assim, um grande número foi enterrado vivo. E a este mal se acrescentou outro: corria boato de que certos criminosos, particularmente judeus, jogavam venenos nos rios e nas fontes, o que fazia aumentar tanto a peste acima mencionada. È a razão pela qual tanto cristãos como judeus inocentes e pessoas irrepreensíveis, foram queimadas e assassinadas e outras vezes maltratadas em suas pessoas, mesmo que tudo isso procedesse da constelação ou da vingança divina. E esta peste se prolongou além do ano anteriormente dito, durante dois anos seguidos, espalhando-se pelas regiões onde primeiramente, não tinha acontecido. (Vitae Paparum Avenionensium Clementis VI, apud PEDRERO-SANCHEZ, 2000, p. 194-195).
As palavras deste documento traduzem com realismo a situação de calamidade que ocorreu nos séculos XIV e XV. Profundas crises estavam ligadas a guerra dos Cem anos, ao Cisma do Ocidente e especialmente a Peste Negra.
Os efeitos desta doença foram devastadores, provocando em torno de 80% da morte dos infectados. A disseminação era rápida e eficaz, afetando toda uma família e até os seus animais domésticos. Logo a doença se espalhou por todo o continente europeu. Alguns historiadores falam sobre perdas humanas no total de 2/3 ou 9/10 da população da época.
A crise gerada pela grande peste foi sentida em todos os segmentos da sociedade. Por exemplo, por causa da peste negra, ocorreu uma intensa migração. Primeiro a população rural achava que deveria ir para as cidades onde poderia contar com mais recursos para a sobrevivência. A população das pequenas cidades migrava para as grandes cidades por não contarem com recursos suficientes ali, nas cidades onde viviam. O fato, é que as migrações não trouxeram alívio a população. ao contrário, o acumulo de pessoas provocou uma rápida disseminação da doença, e o seu transporte era feito através, justamente destas movimentações.
Outra mudança que ocorreu na sociedade nos séculos XIV e XV, foi no estilo de vida. Alguns pensavam que deveriam levar uma vida bem regrada, moderada, e que somente assim poderiam se proteger contra tal doença, que muitos acreditavam ser uma espécie de castigo divino. Já outros, adotaram um comportamento totalmente contrário, pois, achavam que a doença de uma forma ou de outra os atingiria. Então nada mais restava a eles a não ser aproveitar todos os momentos, rindo, se divertindo, gozando dos oportunidades que ainda lhes restava. Gastava-se o tempo a procura de se obter satisfação pessoal.
Em meio a uma sociedade religiosa, cercada de superstições, era de se esperar que houvesse também uma busca de culpados pela crise que se instalou. Primeiro, os judeus foram acusados de trazerem esse castigo divino para a sociedade. Eram suspeitos de criminosamente envenenarem as fontes e poços de água, o que contribuíra para expansão da peste. Houve por conta destes boatos, perseguições, massacres nos guetos, e em certas regiões foram até mesmo queimados em praça pública. Também os vagabundos, os leprosos, os pobres, foram acusados de serem a causa primária da doença. Por isso a onda de violência aumentou vertiginosamente.
A doença encontrou nas comunidades pobres receptividade, devido ao fato de esta parte da população não ter recursos para uma boa alimentação, não dispor de condições adequadas de higiene, e não poder pagar pelos serviços médicos da época.
Neste cenário de caos, pessoas inescrupulosas se aproveitaram para buscarem o seu próprio benefício. Com isso, houve um acentuamento das condições sociais, os ricos que eram minoria, se tornaram ainda mais ricos e os pobres tiveram sua condição ainda mais rebaixada. As mudanças básicas foram: êxodo rural, aforamento de terras e subida geral de preços.
Por causa do êxodo rural, começou a faltar alimentos nas cidades, pois não havia quem os cultivasse. O governo adotou leis que visava sanar este problema. Eram leis que obrigavam o cultivo das terras e não permitia que famílias de agricultores mudassem de profissão. Bem como, estabelecia a obrigatoriedade dos trabalhos dos agricultores em outras propriedades, quando solicitados a isso.
Houve a criação das Sesmarias, com a intenção de obliterar o processo de transformação citadina que ocorria em detrimento da zona rural. Era uma tentativa de inversão do êxodo rural.
A professora Renata Cristina de S. Nascimento, de forma interessante, aborda esta temática da peste negra, mostrando os efeitos que esta epidemia tivera sobre a sociedade imediata e nos possibilitou uma reflexão sobre os efeitos desta em longo prazo.
Excepcional e quase poética, foi à citação que ela fez neste ponto, de Le Goff:
“A doença pertence não só à história superficial dos progressos científicos e tecnológicos como também a história profunda dos saberes e das práticas ligadas às estruturas sociais, às representações, às mentalidades.” (LE GOFF, 1990. P.7)
A professora Nascimento, cita Bastos, ao dizer que “mais do que um fator biológico, a doença é um elemento de cultura. Ela, a doença, é o que dela se diz ao longo do milenar contato do homem com os agentes patogênicos”.
Embora seja uma epidemia, e tenha resultado na perda de milhares de vidas. A peste negra, levou uma sociedade a buscar uma visão diferente de mundo, a encontrar alternativas para a sobrevivência e forçou uma busca de novas tecnologias, especialmente entre o saber médico e popular. Levou também a busca de se entender as complexas relações entre cidade e epidemia.
Referências
NASCIMENTO, RENATA CRISTINA DE SOUSA. História Medieval II: a baixa idade média. Nos Braços da Morte: a Peste Negra no Limiar da Idade Média. Eduem - Editora da Universidade Estadual de Maringá, Paraná, 2010. José Carlos Gimenez, Organizador. Paginas 99 a 111.
Silvon Alves Guimarães
“Acadêmico do curso de História da Universidade Federal de Goiás, Campus Jataí”.
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