sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Cartas Chilenas - Carta 10ª


“Para onde quer que me volte, só vejo a morte”. Estas palavras desesperançosas de Ovídio, célebre poeta latino (43 a.C. – 18 d.C.), ilustram muito bem os sentimentos de Critilo derramados na sua 10ª carta a Doroteu.

Critilo inicia sua nova lista das peripécias de Minésio, o Fanfarrão, fazendo alusão às elegias, que são poemas de cunho melancólicos, eróticos ou de exaltação de personagens ilustres.

Quis, amigo, compor sentidos versos
A uma longa ausência e, para encher-me
De ternas expressões, de imagens tristes,
À banca fui sentar-me com projeto
De ler primeiramente algumas obras
No meu já roto, destroncado Ovídio.
Abri-o nas saudosas elegias; (p.146)

O temível governador de Chile, se vale de relatos, encomendados, que visam enaltecê-lo com uma glória que a ele não pertence. Pois, como pode um falastrão que não tem temor dos céus receber honrarias de homem abnegado e misericordioso?

Em vez de compará-lo aos personagens santos, citados nas Santas Escrituras, Critilo, compara, os feitos do poderoso chefe, aos feitos dos personagens das obras de Ovídio.

E quando me embebia na leitura
Dos casos lastimosos, que ele pinta
Na passagem que fez ao Ponto Euxínio,
Encontro aqueles versos que descrevem
As ondas decúmanas: de repente
Me sobe ao pensamento que estas eram
Do nosso Fanfarrão imagem viva. (p.146)

Ovídio, em seus poemas, usa seres imaginários parcialmente humanos, que nas suas ações e comportamentos lendários, descreve o lado bestial da humanidade. Despidos da razão e livres das convenções da sociedade humana, os seres mitológicos, podem se entregar aos seus instintos e vontades.

Como exemplo, podemos citar a descrição dos centauros, que compõem dois fragmentos de “Metamorfoses”, de Ovídio, na parte que é conhecida como a batalha com os Lápitas da Tessália na Grécia.

Pierre Grimal (1992), descreve os centauros como seres monstruosos, meio homem, meio cavalo. Têm busto de homem e às vezes, também as pernas, mas a parte posterior do corpo, a partir do busto, é de cavalo e, pelo menos na época clássica, têm quatro patas de cavalo e dois braços de homem. Vivem nas montanhas e nas florestas, alimentam-se de carne crua e têm costumes extremamente brutais. (GRIMAL, Dicionário da Mitologia, Difel, Lisboa, 1992).

Ao comparar Minésio a seres mitológicos, Critilo, faz uma denúncia do comportamento bestial que o governante corrupto adota, não respeitando os outros seres humanos, nem considerando as leis divinas.

Finalizando sua 10ª carta, Critilo prossegue com suas comparações:

Eu creio, Doroteu, que tu já leste
Que um César dos romanos pretendera
Vestir ao seu cavalo a nobre toga
Dos velhos senadores. (p.154)

A lembrança que surge na mente de Critilo, ao contemplar as ações exercidas por Minésio, o Fanfarrão, é a da figura do César Romano, Caio Calígula, que aos 25 anos recebeu o título de Augusto César. O governo de Calígula foi marcado por gastos exorbitantes, impostos altíssimos e a total falta de freios. Sua crueldade com os presos e os escravos era tão grande quanto sua depravação na vida sexual. Divertia-se fazendo torturar condenados na frente de seus familiares. Tomava as posses de suas vítimas e não admitia ser contrariado em nada.

Calígula nomeou senador seu cavalo, Incitatus, para quem construiu um palácio de mármore. Antes disso, havia nomeado um cavalo como sacerdote e designado uma guarda pretoriana para tomar conta de seu sono. Sua ideia era humilhar o Senado romano e mostrar que se podia nomear um cavalo sacerdote e senador, podia fazer qualquer coisa com a vida de qualquer pessoa. Calígula acreditava no terror como arma de poder e gostava de ser odiado, dizia: “Oderint dum metuant! ” (Que odeiem enquanto tremem de medo), referindo-se ao povo.

Esta história
Pode servir de fábula, que mostre
Que muitos homens mais que as feras brutos,
Na verdade conseguem grandes honras.
Mas ah! Prezado amigo, que ditosa
Não fora a nossa Chile, se antes visse
Adornado um cavalo com insígnias
De general supremo, do que ver-se
Obrigada a dobrar os seus joelhos
Na presença de um chefe, a quem os deuses
Somente deram a figura de homem! (p.154)

O povo preferia agora ser governado por um cavalo, ou seja, não ser governado, do que viver sob a tirania do chefe.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Cartas Chilenas - Carta 9ª


Na 9ª carta, Critilo, passa a contar as desordens que Minésio, "o Fanfarrão", apronta em relação as tropas militares. Essas tropas deveriam servir para resguardar a lei e a ordem, assegurando aos cidadãos de bem, sossego e tranquilidade. Porém, o mau uso do poder militar, tem gerado o terror entre as pessoas que são humildes e cumpridoras das leis.

Meu caro Doroteu, o nosso chefe
É muito compassivo sim: bem pode
Oprimir os paisanos inocentes,
Com pesadas cadeias, pode ainda
Ver o sangue esguichar das rotas costas
À força dos zorragues; mas não pode
Consentir que se dê nos seus soldados
Por maiores insultos, que cometam,
A pena inda mais leve: assim praticam
Os famosos guerreiros, que nasceram
Para obrarem no mundo empresas grandes. (p.133)

As tropas garantiam o reinado de corrupção do mau governador. Qualquer um que ousasse sequer questionar as ações de Minésio era lançado na prisão e dali só sairia se pagasse alta fiança. Quem eram estes militares que se curvavam a tais ações brutais impostas por Fanfarrão?

Morreu um capitão, e subiu logo
Ao posto devoluto um bom tenente.
Porque foi, Doroteu? Seria acaso
Por ser tenente antigo? Ou porque tinha
Com honra militado? Não, amigo,
Foi só porque largou três mil cruzados! (p.134)

Os militares que alcançavam o posto de autoridade: capitão, coronel, tenente eram os que pagavam por este posto militar. Por terem comprado sua patente, esses militares, estavam integrados ao grupo de lacaios de fanfarrão, que podia requisitar seus serviços para manter as suas falcatruas e consequentemente punir aqueles que não pagassem a pesada carga tributária. Critilo escreve que o contingente militar era composto “De tropa auxiliar uns treze corpos” (p.136), ou seja, tinham mais tropas do que o necessário. Isto se dava para que mais pessoas pudessem alcançar o cargo de autoridade, o que representaria um ganho a mais para Fanfarrão, na venda de patentes.

Os zelosos juízes punir querem
A injúria da Justiça; formam autos,
Procedem às devassas, pronunciam,
E mandam que esses nomes se descrevam
Nos róis dos mais culpados. Mas, amigo,
De que serve fazer-se o que as leis mandam
Na terra, que governa um bruto chefe,
Que não tem outra lei mais que a vontade? (p.142)

De nada servia todas as leis, que eram lidas em praças públicas, pois Minésio não considerava nenhuma, mas agia sempre de acordo com sua vontade.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Cartas Chilenas - Carta 8ª

Lamentando o triste fato de que “Fanfarão” distorce as Leis que foram criadas para a proteção dos fracos, para impedir que gananciosos e avarentos se aproveitem dos de menos posses, Critilo, na sua 8ª carta, faz um desabafo a seu amigo Doroteu: Gostaria que Minésio, o Fanfarão, tivesse recebido instrução, instrução escolar, enquanto criança, pois assim, quem sabe, este poderia ter desenvolvido um pouco de justiça em sua pessoa.

Que não busque cobri-los com tal capa,
Que inda se persuada que os mais homens
Lhos ficam respeitando como acertos?

“Que não busque cobri-los com tal capa, ” – que não os esconda com uma falsa aparência. Com essas palavras, Critilo, relata que no governo de Minésio, tudo se faz uma farsa. Os atos de corrupção de Minésio e dos seus lacaios, são como que cobertos por uma capa de justiça e retidão.

Maldito, Doroteu, maldito seja
O pai de Fanfarrão, que deu ao mundo,
Ao mundo literário tanta perda,
Criando ao hábil filho numa corte,
Qual morgado, que habita em pobre aldeia!

Critilo acredita que se Minésio tivesse o conhecimento das palavras, poderia recorrer aos altos das leis, em que vários pobres, foram beneficiados. Esses relatos, em que se fez justiça aos de condição humilde, poderia mover Minésio a praticar, pelo menos um pouco de justiça. Porém, Fanfarão, não recebera instrução literária, mas fora criado nos meios políticos, em que se tem uma noção totalmente desvirtuada do poder de um governante, atuando antes como um poderoso imperador que busca seu próprio deleite e satisfação.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Cartas Chilenas - Carta 7ª

Critilo inicia a 7ª carta comparando a riqueza e a boa vida que os nobres desfrutam em Portugal, aqui chamada de Espanha. Os nobres são possuidores de fazendas com palácios e muitos servos. Porém, longe do reino de nossa majestade, aproveitadores, como Minésio, desfrutam de regalias destinadas aos nobres, contudo, ele e seus lacaios, se possuem riquezas são as extorquidas das pessoas de bem e em geral dos mais pobres.

Assim os generais da nossa Chile
Têm diversas fazendas: numas passam
As horas de descanso; as outras geram
Os milhos, os feijões e os úteis frutos
Que podem sustentar as grandes casas. (p.112)

“Que podem sustentar grandes casas”. – Em Vila Rica há grandes proprietários que possuem pelo menos duas terras. Uma para divertimento e outra que gera lucros tão altos que podem sustentar várias famílias ou casas luxuosas.

Indigno, indigno chefe! Tu não buscas
O público interesse. Tu só queres
Mostrar ao sábio Augusto um falso zelo;
Poupando ao mesmo tempo os devedores,
Os grossos devedores, que repartem
Contigo os cabedais, que são do Reino. (p. 120)

A política de Minésio é de pura exploração dos pobres e favorecimento dos ricos, com interesses em propina, é claro. Desta forma, os de poucos meios tem sido duramente penalizados e os cofres de nossa majestade, o Rei de Portugal, tem sido esvaziados.

Amigo Doroteu, o nosso chefe
Patrocina aos velhacos, que lhe mandam,
Para que mais lhe mandem. Prende e vexa[549]
Aos justos, que entesouram[550] suas barras,
Para ver, se oprimidos se resolvem
A seguir os caminhos dos que largam. (p. 122)

Cartas Chilenas - Carta 6ª

Na 6ª carta, Critilo, conta sobre os andamentos da festa, em que os membros antigos e de prestígio da cidade são deixados de lado, para que Minésio possa receber toda a atenção. Em meio a todo aqueles acontecimentos que estão envoltos de corrupção e obscenidades, Critilo avista no camarote de Minésio, sua doce amada Nise. Neste momento seu coração para, ele não quer acreditar no que seus olhos lhe revelam. Como se não fosse suficiente, ver sua amada entre aqueles abusadores do poder, Critilo, ainda vê sua amada ser cortejada por um dos lacaios de Fanfarão. Neste instante, sua ira é tanta que ele pega sua espada disposto a traspassa-la ao meio, por tamanho afronte. Quão aliviado fica ao perceber que aquela cena fora apenas um sonho ou melhor um pesadelo!

Soberbo e louco chefe, que proveito
Tiraste de gastar em frias festas
Imenso cabedal, que o bom Senado
Devia consumir em coisas santas?
Suspiram pobres amas e padecem
Crianças inocentes, e tu podes
Com rosto enxuto[517] ver tamanhos males?
Embora! Sacrifica ao próprio gosto
As fortunas dos povos que governas;
Virá dia em que mão robusta e santa,
Depois de castigar-nos, se condoa[518],
E lance na fogueira as varas torpes.
Então rirão aqueles que choraram;
Então talvez que chores, mas debalde:
Que suspiros e prantos nada lucram
A quem os guarda para muito tarde.
(Versos 516b-518)

Assim como Minésio age, se divertindo e provocando o mal, ele há de ser tratado. Deus em sua misericórdia há de suscitar um salvador que ponha fim a todos os abusos de Fanfarão e seus lacaios.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Cartas Chilenas - Carta 5ª


Na 5ª carta, Critilo, conta as desordens feitas nas festas, caras festas, que são um claro desperdício de dinheiro público. Em tais festas, todos os lacaios de Fanfarrão e pessoas ligadas ao poder público têm participação. O desperdício de recursos com festas que além de onerosas, só servem para satisfazer os desejos de Minésio, faz com que Critilo teça uma interessante comparação entre o infame governante e o imperador Romano do passado:

Quem pode, Doroteu, zombar, contente

Do César dos Romanos, que gastava

As horas, em caçar imundas moscas?

Apenas isto lemos, o discurso

Se aflige, na certeza de que um César,

De espíritos tão baixos, não podia

Obrar um fato bom, no seu governo.

(Cartas Chilenas, p. 38)
Um César de espírito baixo, que gasta seu tempo a caçar moscas! Com essas palavras Critilo deixa bem claro seu total desacordo com o estilo ostentoso de vida que o governante leva. Além de tudo, existe o total desrespeito às tradições da igreja. Minésio não respeita nem a autoridade do idoso bispo da cidade. Que tempos são esses?! Esse clamor ecoa entre as vozes dos oprimidos.

Cartas Chilenas - Carta 4ª (reeditado)





Critilo maldiz o seu coração de poeta, que não o deixa aproveitar a vida, que exige dele que complete logo a sua história. Para escrever outra carta para Doroteu, Critilo dispensa banquete na casa de Alceu. Na sua 4ª carta, Critilo continua discorrendo sobre a construção onerosa da cadeia pública, em que escravos e presos tem de trabalhar todos os dias sem nenhum descanso semanal.

Responde, louco chefe, se podes

Tais violências fazer. Não era menos

Lançares sobre os povos um tributo?

Os homens que tem carros e os que vivem

De víveres venderem são, acaso,

Aos mais inferiores nos direitos?

Esta cadeia é sua, porque deva

Sobre eles carregar tamanho peso?

(versos 230 a 237)
O grande chefe não cansa de suas peraltices. Manda confiscar o carro usado na construção de um templo religioso, mantido por esmolas dos devotos e dos que pelas bênçãos do Cristo foram atendidos. Como justificativa, Fanfarrão, diz que quando Cristo esteve na terra mandou que Pedro pagasse o imposto por ele, portanto, não devia a imagem do Cristo, também continuar no mesmo proceder do seu real?

 



O SIGNO LINGUÍSTICO NO PROCESSO DE CONSTRUÇÃO E DE SIGNIFICAÇÃO DA IMAGEM DO POEMA – UMA ANÁLISE DA POESIA DE GUIMARÃES FILHO - Parte 4

 4 DA LUZ À ESCURIDÃO E DE NOVO À LUZ – OS CAMINHOS DO POEMA EM “A ROSA ABSOLUTA” DO POETA GUIMARÃES FILHO Um poema começa [...]           ...