A Invenção do Nordeste e a Indústria da Seca – Os caminhos da exclusão

A “Indústria da seca” é um termo utilizado para designar a estratégia de alguns políticos que aproveitam a tragédia da seca na região nordeste do Brasil para ganho próprio. O termo começou a ser usado na década de 60 por Antônio Callado que já denunciava no Correio da Manhã os problemas da região do semi-árido brasileiro.


Fischer e Albuquerque (2002 p.1) observam que “O problema da seca não se manifesta no aspecto específico da água, mas especialmente na escassez de alimento, caracterizada como fome endêmica, relacionada à casa e à mulher, que não é pensada pelos idealizadores da política da emergência da seca”. Assim, a conjugação da seca e da fome, além de causar inúmeros obstáculos à sobrevivência das famílias e das comunidades – “a fome absoluta ameaça intermitentemente o cotidiano dos atingidos pela seca” (Fischer; Albuquerque, 2002, p. 1), causando não só um mal estar físico, mas também psicológico, social e moral.

“No passado, o termo se referia à falta de alimento para saciar o apetite, que, no ser humano, é considerado estágio fisiológico ligado à necessidade alimentar. No sentido moderno, fome é a falta de quaisquer dos quarenta ou mais elementos nutritivos indispensáveis à manutenção da saúde. Essa carência ocasiona morte prematura, embora não acarrete, necessariamente, a inanição por falta absoluta de alimento” (Fischer; Albuquerque, 2002, p. 1).

O Nordeste Brasileiro, como toda divisão política e cultural do espaço humano, tem de ser visto como sendo o resultado de um processo histórico que o inventa ou o cria, portanto o Nordeste é um produto social que deve ser analisado pensando-se socialmente e material. Nessa perspectiva, ele é descrito por Durval M. Albuquerque Jr. (2007; 2011) como uma invenção político-cultural que se firmou a partir dos primeiros anos de governo da República Velha.

“Enquanto a seca matava apenas animais, escravos e homens pobres, ela nunca havia sido considerada um grande problema, nunca havia despertado tanta atenção, seja nos discursos parlamentares, seja nos discursos oficiais, seja na imprensa. Mas esta seca ocorre num momento de crise econômica e de declínio político dos grupos dominantes desta área do país. Ela, pela primeira vez, atinge com intensidade setores médios dos proprietários de terras, com a falência de alguns, a morte ou a necessidade de migração de outros. A própria existência de uma imprensa mais organizada e com capacidade de repercutir o fenômeno em nível nacional, algo que não ocorreu em secas anteriores, dá uma repercussão a esta seca como não fora dada a nenhuma outra anterior, por isso esta se tornou a grande seca, marco em qualquer história das secas que seja elaborada na região ou sobre a região.” (ALBUQUERQUE JR. 2007, pp. 91-92)

A partir desse momento, dá-se a “invenção do Nordeste”, ou seja, a produção da identidade nordestina, no espaço político-econômico nacional, que desde o início está associada à inferioridade, à escassez de recursos e de oportunidade. Resta às antigas elites, a reação por meio do capital intelectual, representado pela nova geração – homens letrados, filhos dos antigos “coronéis” –, por meio da reelaboração discursiva da identidade regional – o regionalismo da geração 1870. O Nordeste começa a ser folcloricamente situado numa época pré-industrial – a era dos engenhos, idade de ouro do Nordeste, anterior à emergência da sociedade liberal, que destronava os ricos e desamparava os pobres –, marcado pela dialética harmoniosa entre a casa-grande e a senzala. Diversas manifestações culturais – literatura, teatro, pintura, cinema –, custeadas por ricos e pobres, encarregaram-se de difundir essa imagética em todas as classes sociais e na pluralidade de localidades nordestinas, acompanhando a agenda de eventos religiosos católicos (Albuquerque Jr., 2007, pp. 102-104).

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